Após ter peça paralisada em BH, ator pede desculpas a Chico Buarque

O ator e diretor Claudio Botelho, que neste fim de semana viu sua peça “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” ser interrompida pela plateia após fazer comentários políticos em cena, pediu desculpas públicas ao cantor e compositor Chico Buarque nesta terça-feira (22), afirmando estar envergonhado e arrependido da atitude.

Logo após tomar conhecimento do episódio, que aconteceu neste sábado (19) no teatro Sesc Palladium, em Belo Horizonte, Buarque se manifestou proibindo a utilização de sua obra por Botelho em obras futuras. Segundo a assessoria do cantor, Chico, no entanto, recebeu e aceitou os pedidos de desculpas.

Durante a apresentação, o ator fez um improviso sugerindo a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e chamando a presidente Dilma Rousseff de “ladra”. Contrariada com os comentários, a plateia que assistia ao espetáculo respondeu com gritos, vaias e o coro “Não vai ter golpe”, que tem sido ouvido nas recentes manifestações pró-governo federal. A peça precisou ser cancelada, e os ingressos, reembolsados.

“Peço desculpas a Chico Buarque. Nada do que vier de mim, nenhuma palavra, gesto ou pensamento, poderá jamais servir para desagradá-lo. Ele é o autor, o compositor, e estou trabalhando com sua obra. Desta forma, reconheço sua soberania a respeito de tudo que envolva seu nome e sua criação”, escreveu Claudio Botelho em sua página do Facebook.

“Errei. Erro muito. Sou humano, mas isso não me desculpa. Aos 51 anos, sendo também autor e sendo um homem de história longa no teatro, eu tinha por obrigação preservar o autor e sua obra, não permitir que nada partindo de mim resvalasse nele, seja da forma que fosse. Por ser um admirador apaixonado e mais que isso, um pretenso ‘buarquiano’ de carteirinha, minha responsabilidade é ainda maior.”

Leia abaixo o pedido de desculpas na íntegra.

Gravação polêmica

Horas depois do ocorrido, um áudio divulgado na plataforma SoundCloudtrazia uma discussão entre Botelho e a atriz da peça Soraya Ravenle no camarim do Sesc Palladium. Gravado logo após o cancelamento da peça, ele utiliza a palavra “negro” ao reclamar da reação: “São escrotos, são petistas, é o que há de pior no Brasil. O artista no palco é um rei. Não pode ser peitado. Não pode ser interrompido por um negro, por um filho da puta”, vocifera. O ator confirmou a autenticidade do áudio, mas rechaçou que tenha usado a palavra “negro”.

No áudio, a atriz argumenta que Botelho teria misturado ficção com a realidade, mexendo em uma “ferida que está aberta a semana inteira”. “Eles que misturaram. Olha, em 1967 os militares pararam ‘Roda Viva’, hoje os petistas pararam ‘Roda Viva’, você entende?”. 

Em entrevista ao UOL, no dia seguinte à confusão, Claudio Botelho atacou a reação da plateia e se disse “assustado”. “Estamos em 2016, ainda tem quem impede um espetáculo de acontecer. Está restaurada a censura”, criticou. 

O ator, que depois prometeu processar o autor da gravação, explicou que a cena com o improviso acontece em todo espetáculo. “Eu interpreto um ator que chega a uma vila e pergunta para a plateia onde os moradores estão. ‘Será que eles estão assistindo novela?’, eu costumo dizer. Desta vez, falei: ‘Ou será que estão assistindo a prisão de um ex-presidente? Ou uma presidente ladra sendo vítima de impeachment?’

“Depois que eu vi que é uma cidade governada por um petista. Acho que fui ingênuo. Faço o mea culpa”. Na realidade, o Estado de Minas Gerais é governado por Fernando Pimentel (PT), enquanto a capital tem Marcio Lacerda (PSB) como prefeito.

A peça

Em cartaz desde 2014, “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” é composto por trechos e histórias das obra de Chico no cinema e no teatro, sobretudo da década de 1970, dentre eles “Roda Viva” (1967), “Ópera do Malandro” (1978), “Calabar” (1973), “Quando o Carnaval Chegar” (1972), “Para Viver um Grande Amor” (1983) e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976).

“Roda Viva” acabou se tornando um símbolo da resistência contra a ditadura, quando em 1968 um grupo do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e espancou os artistas.

Em dezembro do ano passado, Chico Buarque também foi alvo de uma discussão nas ruas do Rio de Janeiro. O músico, que saía de um jantar com Cacá Diegues, foi cercado por um grupo de jovens, que incluía o rapper Tulio Dek, e ouviu: “Petista, vá morar em Paris. O PT é bandido”.



Fonte: Bol.com.br

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