Artigo: Sanduíches e suas curiosas origens por Fernando Moura Peixoto

A descoberta de um novo prato culinário por um cozinheiro é muito mais importante para a humanidade do que a descoberta de uma estrela por um astrônomo.” ANTHELME BRILLAT-SAVARIN (1755 – 1826)   LORD SANDWICH

O sanduíche surgiu na Inglaterra, no século 18, inventado ao acaso pelo político britânico John Montagu (1718 – 1792), 4º Conde de Sandwich, Primeiro Lorde do Almirantado (1748 – 1751, 1763, 1771 – 1782), especialista em assuntos navais e incentivador de explorações geográficas. Ao descobrir o arquipélago do Havaí, em 1778, o Capitão James Cook (1728 – 1779), navegador inglês, batizou-o de Ilhas Sandwich.

Apaixonado pelos jogos de baralho – notadamente o uíste, um precursor do bridge, em que participam duas duplas, parceiros frente a frente – Montagu, em 1762, sem comer depois de 24 horas ininterruptas em um carteado, fez-se servir por seu criado de pedaços de pão entremeados com lascas de carne, pois não queria interromper o lazer – ou vício – em uma refeição completa e demorada – preferiu uma “fast-food”, assim dizemos atualmente.   Num misto de habilidade, sorte e surpresa – como no ‘whist’ – em pouco tempo os outros jogadores passaram a imitar o conde de Sandwich. E o nome permaneceu em sua homenagem. A praticidade do sanduíche, de rápido preparo e atraente aspecto, a possibilidade infinita de se acrescentar – ou retirar – ingredientes, ensejando-lhe muitas variações, tudo aliado a seu inegável glamour, contribuíram para contemplá-lo com mais de 250 anos de história.

Primeiro Lorde do Almirantado durante a Revolução Americana (1776 – 1781), Sir John Montagu estudou em Eton e no Trinity College, em Cambridge. Conhecido também como Visconde Hinchinbrooke e Barão Montagu de Saint Neots, sucedeu seu avô Edward Montagu (1670 – 1729), 3º Conde de Sandwich. Embora frequentemente acusado de corrupção, o criador do sanduíche teve sempre elogiada a capacidade administrativa.   SUA EXCELÊNCIA, O BAURU   O sanduíche ‘Bauru’ foi inventado em São Paulo pelo advogado Casimiro Pinto Neto (1914 – 1983), natural de Bauru, e assim apelidado na Revolução Constitucionalista de 1932, quando integrou o Batalhão 14 de Julho, da Faculdade de Direito.

Em 1933, assíduo frequentador do restaurante Ponto Chic, no Largo Paissandu, reduto da mais fina e interessante boemia da cidade de São Paulo, gostava muito de um sanduíche especial, preparado a seu modo: feito no pão francês – sem miolo – com fatias de rosbife, rodelas de tomate e pepino, sal e queijo – gouda, suíço ou estepe – derretido, fervido na água em banho-maria. Logo a maioria dos fregueses do Ponto Chic começou a pedir um sanduíche “igual ao do Bauru”, originando sua designação.   Hoje, o famoso e nutritivo Bauru apresenta inúmeras variações, dentre elas: no pão de forma, quente, com carne ou presunto, tomate, picles e mozarela, ou servido em um prato, em duas fatias de pão de forma, abertas e recobertas de queijo derretido, um filezinho de carne e ovo estrelado, tudo acompanhado de alface e rodelas de tomate. E até uma heresia carioca: Bauru com peito de frango no lugar da carne.

Casimiro Pinto Neto foi oficial de gabinete do governador Adhemar de Barros (1901 – 1969) – de 1938 a 1941 –, o primeiro Repórter Esso – na Rádio Record, em 1942 – e diretor da Rádio Panamericana – em 1946. E mereceu um busto e uma placa de bronze no Ponto Chic, onde o carro-chefe da casa ainda é o autêntico ‘Bauru’, cuja receita original é reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Cultural brasileiro.   O NATURAL DO KLEBER NA PRAIA   A introdução do sanduíche natural nas praias cariocas deve-se a Kleber Mendes conhecido por ‘Índio’ –, nascido em 5 de novembro de 1951, em Botafogo, no extinto Hospital dos Estrangeiros (ou Ingleses), e que iniciou a venda de seus pioneiros sanduíches naturais em Ipanema no verão de 1976.   Estudante, maratonista e frescobolista – e futuro campeão estadual de ‘mountain bike’, ciclismo de montanha, em 1992/93, na categoria sênior, pela equipe ‘Skank’ –, ele percorria sozinho as areias ipanemenses, caixa de isopor a tiracolo, oferecendo a uma juvenil clientela fartos e substanciais sanduíches em pão de forma, integral ou de Graham, embalados em papel laminado. Perfaziam um total de onze especialidades distintas e variedades no sabor: ricota com cenoura, beterraba com abacaxi, banana com ricota, canela e mel, frango com abacaxi cru, salada de atum, salada de ovo e outros mais.

Tratava-se de uma tarefa diária realmente árdua, já que não utilizava produtos enlatados. Kleber Mendes adquiria atum fresco na Praça Quinze, no Centro, e em casa, ajudado pela irmã, pacientemente o cozinhava na água e sal, desfiando-o todo depois. O mesmo criterioso processo acontecia com o frango. E substituía a maionese industrializada preparando em seu lugar um saudável creme de ricota.   A GAROTADA DA PUREZA   Após o surgimento da novidade dos sanduíches do Kleber, uma pequena empresa radicada em Botafogo, a ‘Pureza’ – de propriedade do arquiteto Joaquim Barata e um sócio – iria lançar na praia pãezinhos de centeio recheados de pastas diversas, chegadas à macrobiótica. E que eram comercializados na areia através de jovens ambulantes de ambos os sexos, camisetinha lilás e cestinha no braço, apregoando: “Olha o natural! Olha a Pureza!”. Ou ainda em um ponto fixo no calçadão, na altura do Posto Nove, em Ipanema, sendo o mais requisitado o pão de cebola, recoberto de gergelim – convém ressaltar que o Restaurante Natural já existia, desde 1974, também em Botafogo.

No início da década de 1980, a moda dos sanduíches naturais tomaria conta das praias do Rio de Janeiro. Assim, no verão e nas demais estações, brasileiros e estrangeiros, das mais variadas profissões e de diferentes classes sociais passariam a disputar e inflacionar esse rentável mercado, que persiste em nossos dias, nem sempre com a sua paternidade devidamente esclarecida. Em 1985, o pioneiro Kleber Mendes, autônomo e licenciado, testaria na Praia do Pepino a degustação de queijo de cabra, acompanhada de vinho branco bem gelado.

A gulodice é uma decisão nossa, por meio da qual preferimos as coisas que são agradáveis ao gosto às que não têm essa característica.” ANTHELME BRILLAT-SAVARIN (1755 – 1826)

 

 

Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

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