De acervo virtual a coletivos de fãs, admiradores preservam o legado de Chico Science

Monumento a Chico Science, na Rua da Moeda, no Bairro do Recife. Foto: Rafael Martins/DP
Monumento a Chico Science, na Rua da Moeda, no Bairro do Recife. Foto: Rafael Martins/DP

O pernambucano Everton Melo descobriu o talento do conterrâneo Chico Science quando o movimento mangue já repercutia no Brasil e no exterior. Pré-adolescente, sentado diante da TV com os olhos vidrados no chapéu de palha e nas calças coloridas do músico, chegou a gravar alguns shows em VHS. Embora não soubesse, dava início, ali, à construção do Acervo Chico Science, disponível no Youtube desde 2007 e visitado, até hoje, mais de 1,8 milhão de vezes por internautas.

Do fim dos anos 1990 até a popularização da internet por banda larga, quando o canal no Youtube começou a ser fomentado, Everton recolheu gravações, videoclipes, registros de bastidores, ensaios, entrevistas e apresentações – boa parte do material, hoje disponibilizado gratuitamente na rede, foi comprado de colecionadores. Aos 31 anos, o fã e pesquisador do movimento mangue é um dos mais ativos defensores da memória de Chico Science, cujo legado é cultuado – e reafirmado – para além da própria geração.

Como Chico Science se tornou um cidadão do mundo

Everton Melo criou o Acervo Chico Science e Nação Zumbi a partir de aquisições de acervos pessoais. Foto: Rafael Martins/DP
Everton Melo criou o Acervo Chico Science e Nação Zumbi a partir de aquisições de acervos pessoais. Foto: Rafael Martins/DP

“Chico resgatou a auto estima dos pernambucanos. Social e artisticamente, ele foi revolucionário. Fundiu ritmos da tradição popular, antes esquecidos e até marginalizados, à cultura pop internacional, dando nova roupagem ao que tínhamos de melhor. Isso se perpetua naturalmente, não há como nem por que deixar para trás o pensamento dele”, opina Everton, que vê a popularidade de Science entre os mais jovens como prova da veemência do movimento mangue. Neste ano, o organizador do Acervo Chico Science se une ao coletivo Raízes do Mangue – dedicado a debater, pesquisar e preservar o legado do movimento – para produzir documentário dedicado ao ídolo, a partir de depoimentos de artistas contemporâneos e de fãs das gerações seguintes à dele. O grupo pretende, ainda, criar produtora cultural, a fim de realizar antigos sonhos revelado por Science: o de manter a cena cultural do Recife em movimento e promover artistas independentes em busca de ascensão.

“Há uma explicação para a força desse movimento ultrapassar gerações. Chico Science e a cultura mangue transformaram completamente o cenário cultural do Recife. Havia uma energia reprimida na cidade, que não vivenciou toda a explosão do rock dos anos 1980 como outras capitais. O manguebeat deu vazão a tudo, da música às pautas sociais. Chico abriu a tampa de uma panela de pressão. Isso modificou a forma de organizar eventos, a relação das pessoas com a cidade, dos jovens com a cultura popular”, diz o jornalista Renato L., amigo de Chico e apelidado por ele de ministro da comunicação do movimento mangue.

Na moda, Chico Science imprimiu legado nas chitas e no chapéu coquinho de palha

Raízes do Mangue pretende produzir documentário sobre o mangueboy. Foto: Rafael Martins/DP
Raízes do Mangue pretende produzir documentário sobre o mangueboy. Foto: Rafael Martins/DP

Para Renato, o manguebeat fez pelo Recife o que o movimento punk fez por Londres: o “do it yourself” (faça você mesmo) ganhou força, dando autonomia aos artistas e à sociedade em geral. Almir Cunha, estudante de jornalismo de 23 anos e um dos líderes do Raízes do Mangue, concorda. Segundo ele, a admiração por Chico não pode se restringir aos que o conheceram em vida. “Ele expunha fragilidades e potencialidades que permanecem atuais. Por mais que não tenhamos vivenciado o auge do manguebeat, a efervescência daquele movimento, é nosso dever se apropriar daquela ideologia e repassá-la às gerações seguintes”, diz Almir.
Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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