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Em show histórico em Cuba, Mick Jagger diz que os tempos estão mudando

“Bem-vindos a Cuba, agora voltem para casa”. Essa pareceu ser a mensagem transmitida aos Rolling Stones pela ditadura comunista de Cuba, evidentemente as únicas pessoas no planeta que ainda acham que os arquicapitalistas septuagenários representam uma ameaça ao establishment.

Após meses de negociações tortuosas, Mick Jagger e seus amigos realizaram um concerto gratuito em Havana na Sexta-Feira Santa, mas sob a condição de que chegariam de avião apenas na véspera e voltariam para a Flórida em seu avião fretado no dia seguinte.

O risco de Keith Richards poder acender um Marlboro no Malecón e provocar acidentalmente uma revolução talvez fosse demais para suportar. E talvez o regime Castro estivesse certo em se preocupar, em especial dias após a igualmente histórica visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Os Rolling Stones, uma banda apenas três anos mais jovem que a Revolução Cubana, mas claramente em condições muito melhores, deram a cerca de um milhão de cubanos de todas as idades uma amostra real das esperanças democráticas e aspirações do rock and roll, contribuindo mais para a causa da “Cuba Libre” em duas horas do que presidentes americanos fizeram em quase 60 anos.

“Acho que os tempos finalmente estão mudando”, disse Jagger a certa altura, em um espanhol respeitável.

Um fã, um professor de artes que viajou sete horas de ônibus com seu filho da cidade provincial fortemente independente de Camagüey, disse ao UOL antes do show que esperava que o concerto pudesse dar início a algo como uma bola de neve. Ele disse que bastava ao regime Castro olhar para os antigos países comunistas da Europa para ver como o rock e uma juventude descontente podem ser em uma mistura inflamável.

(De fato, ouvir os Beatles ou os Stones em Cuba nos anos 60 e 70 poderia levar a um período em um campo de reeducação. Atualmente, os fãs trocam música por meio de pendrives, já que a Internet é uma opção cara.)

Mas, é claro, os Stones não são uma banda política, e Jagger não é nenhum Bono ou Springsteen. Eles estavam em Cuba para entreter, não para começar uma revolução. No último show de sua turnê América Latina Olé de 14 datas, eles se mantiveram fiéis ao roteiro de tocar 18 clássicos em pouco mais de duas horas. E caso alguns fãs impressionáveis pensassem em dar início a uma Primavera Caribenha, lhes bastariam prestar atenção na mensagem das duas últimas canções –”You Can’t Always Get What You Want” (Você nem sempre consegue o que quer) e “(I Can’t Get No) Satisfaction” (Não consigo ter nenhuma satisfação)– para reconsiderar seus planos.

O concerto, um empreendimento gigante envolvendo negociações políticas de alto nível, foi financiado por uma organização de caridade ligada a um empresário do setor financeiro de Curaçao. O último grande show gratuito ocorreu há uma década, na praia de Copacabana no Rio, com uma infinidade de patrocinadores. Não houve uma comercialização tão grande desta vez, não havia publicidade, nem mesmo camisetas ou refrescos à venda. E nenhum cubano empreendedor pensou em vender bebidas do lado de fora do local do show, uma vasta arena esportiva semidecrépita chamada Ciudad Deportiva.

Da última vez que os Stones organizaram um concerto gratuito em um prazo tão curto (este foi confirmado há apenas poucas semanas), o resultado foi uma tragédia: os Hells Angels transformaram o show em Altamont em um banho de sangue em 1969. Desta vez não houve tamanha desorganização e a presença de seguranças foi estranhamente limitada. Os policiais entediados da tropa de choque presentes nos concertos recentes em Lima e na Cidade do México eram uma lembrança distante.

Os portões foram abertos por volta das 14h e as pessoas rapidamente encheram a pista à frente do palco de forma ordeira. Os Stones, percebendo que sua música provavelmente não é tão bem conhecida, ajudaram de forma prestativa exibindo velhos videocliples como “Harlem Shuffle” e “Hot Stuff” em telas de vídeo gigantes.

Os músicos de verdade subiram ao palco pouco depois das 20h30. Keith Richards permitiu a si mesmo um breve momento para olhar para o público e considerar o absurdo imprevisível de sua vida, antes de tocar os primeiros acordes de “Jumpin’ Jack Flash”, enquanto Jagger assumia seu papel de “Commandante” enérgico. “Será uma noite inesquecível”, ele disse (de novo em espanhol) entre as canções.

Como de costume, ele preparou alguns ditos espirituosos, lembrando: “Fomos à embaixada britânica, onde bebemos uísque e comemos peixe com fritas, seguido por arroz e feijão. Mas a melhor parte foi dançar rumba cubana na Casa da Música (um espaço de música próximo)”. Ele acrescentou, em inglês: “É tudo verdade. É tudo verdade”.

Posteriormente, Jagger ganhou crédito extra ao decretar que “a música cubana domina o mundo”. Os fãs, por sua vez, pareciam empolgados em mergulhar na extravagância de som e luz, assim como na rebelião do rock and roll, seja ela real ou imaginária. Não havia nada explicitamente político ou abertamente patriótico. Talvez a única pessoa vestindo uma camiseta de Che Guevara era um brasileiro.

De fato, havia uma presença abundante de estrangeiros, incluindo alguns argentinos fanáticos que trouxeram lembranças agridoces das três noites dos Stones em La Plata, no mês passado.

Yamil Lage/AFP Photo

Mick Jagger fala em espanhol com o público

Apesar do governo cubano ter decretado expressamente que os VIPs não deveriam receber tratamento VIP, o coro de exigências pelo corpo diplomático e outros estrangeiros foi difícil de ignorar. Assim, eles receberam uma plataforma especial para assistirem ao show longe do palco. Era esperado o comparecimento do líder cubano Raúl Castro, 84 anos, apesar de sua presença não ter podido ser confirmada.

Um segurança, que disse que preferia Linkin Park, ficou impressionado com a apresentação. Mas era difícil distinguir entre fãs ardorosos, curiosos e aqueles que estavam apenas entediados, sem ter nada para fazer na um tanto tediosa Havana.

Todos pareceram reconhecer os sucessos e, é claro, “Satisfaction” poderia muito bem ser o hino nacional do país. Agora, os Stones estão preparando a abertura da exposição “Exhibitionism” (Exibicionismo) em Londres, em 5 de abril. Qualquer atividade adicional será limitada, já que a esposa de Ronnie Wood está esperando gêmeos para daqui poucos meses. Mas, por ora, os Stones podem adicionar a América do Sul e Cuba à sua longa lista de territórios conquistados.

*Tradução: George Andolfato 

Fonte: Bol.com.br

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