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Esse bicho é que nem a gente

Zootopia entrou em cartaz nos cinemas brasileiros, nesta semana, com grande expectativa. Foto: Disney/Divulgação
Zootopia entrou em cartaz nos cinemas brasileiros, nesta semana, com grande expectativa. Foto: Disney/Divulgação

Histórias protagonizadas por animais com características exclusivas dos seres humanos – como a capacidade de falar, refletir e apreender lições morais a partir de situações cotidianas – são recorrentes desde a Grécia Antiga. O surgimento das fábulas enquanto gênero narrativo é atribuído à imaginação fértil do escritor Esopo, nascido seis ou sete séculos antes de Cristo. Transmitidas para as gerações seguintes sobretudo por meio da tradição oral, os pequenos contos são o marco zero de uma tradição abraçada pela literatura infantojuvenil e, mais tarde, por outras manifestações artísticas, a exemplo do teatro e do cinema.

Na sétima arte, especificamente, cujas produções são com frequência repletas de bichos antropomórficos de toda espécie, há um nicho de mercado tão frutífero quanto exigente. Para agradar tanto o público infantojuvenil quanto os pais, os realizadores se desdobram no sentido de não deixar a inventividade se descolar de um ingrediente fundamental das fábulas – a existência de enredos edificantes e comoventes (veja exemplos na página). A mais nova criação de Hollywood para este filão, Zootopia – Essa cidade é o bicho, entrou em cartaz nos cinemas brasileiros, nesta semana, com grande expectativa. A confiança se deve, em parte, ao excelente desempenho em países onde já estreou, tanto nas críticas recebidas quanto nas bilheterias.

Passada em um ambiente onde os animais ocupam os papéis dos humanos, a animação acompanha a saga da coelha Judy Hopps (dublada pela atriz Mônica Iozzi), filha de agricultores cujo sonho é se mudar para a cidade grande e se tornar policial. Discriminada pelo porte físico diminuto, a princípio ela é designada para ser guarda de trânsito. Insatisfeita e determinada, consegue assumir a investigação do desaparecimento de vários mamíferos, embora a exigência por uma resolução em tempo recorde a coloque sob pressão. Vítima de manipulações, Judy recorre à malícia da raposa Nick Wilde (voz de Rodrigo Lombardi) para enfrentar o desafio.

Entre as possíveis mensagens positivas espalhadas pelo roteiro, estão o combate ao preconceito, o respeito às diferenças e o estímulo à perseguição dos sonhos e objetivos. Em uma análise mais minuciosa, talvez a saga da coelhinha Judy possa representar, ainda, o empoderamento da mulher – supostamente frágil e incapaz – diante de uma sociedade machista (no filme, os policiais são animais de grande porte). Como um esforço extra para cativar espectadores adultos, o longa-metragem tenta estabelecer um diálogo direto com eles ao salpicar referências a produções audiovisuais como O poderoso chefão (1972) e Breaking bad (2008-2013).

O sucesso do longa na bilheteria norte-americana – em duas semanas, rendeu mais de 140 milhões de dólares – é atribuído, entre outros fatores, à entressafra de animações voltadas para os espectadores mais jovens (a anterior, Kung fu Panda 3, estreou em 29 de janeiro). A escassez ocasional de títulos do gênero é percebida por realizadores locais, como foi o caso de Chaps de Melo, a mente por trás da animação pernambucana Bita e os animais, criada em 2013.

O desenho foi o primeiro produto audiovisual da hoje consagrada franquia Mundo Bita. Na avaliação do criador do personagem infantil, há pouca disponibilidade de produtos com cunho educativo e temáticas construtivas. Com um misto de contação de histórias e números musicais, a produção infantil se tornou fenômeno de alcance nacional, disponível em múltiplas plataformas.

Com alvo no mesmo nicho, a série pernambucana Além da lenda, em fase de produção, aborda personagens do folclore nacional. Quando concluída, será exibida no canal TV Brasil. Para o produtor do desenho animado, Ulisses Brandão, o país tem se destacado na criação de séries educativas, como Dora aventureira e Show da Luna, mas carece de uma tradição de longas de animação com perfil edificante, ao estilo das fábulas lançadas por Hollywood.

“Ainda não construímos uma linguagem própria, então as poucas produções existentes seguem o modelo dos estúdios de Hollywood, com determinadas estruturas narrativas e predominância do final feliz. Esses filmes, principalmente os da Disney, são competentes do ponto de vista de roteiro e de atração de público e, por isso, servem de exemplo para a gente. A preocupação de agradar tanto as crianças quanto os pais é um dos aspectos reproduzidos por nós”, comenta Brandão.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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