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Fronteiras porosas e segurança calcificada ajudam Estado Islâmico na Europa

  • Emmanuel Dunand/AFP

Os Estados Unidos e seus aliados passaram quase 20 meses bombardeando o Estado Islâmico em um estilo militar clássico na Síria e no Iraque, em um esforço para remover o grupo de sua sede de poder.

A campanha produziu uma série de comunicados de imprensa do Pentágono sobre quanto território o Estado Islâmico perdeu e quantos de seus combatentes foram mortos. Funcionários da Casa Branca fizeram projeções otimistas de que os redutos mais importantes poderiam cair até o final do ano.

Mas os terríveis ataques de terça-feira (22) em Bruxelas apontaram uma realidade desencorajadora: enquanto os Estados Unidos estão consumidos na guerra no Iraque e na Síria, o Estado Islâmico escolhe as capitais da Europa Ocidental para obter suas próprias vitórias militares, ajudado pela combinação de fronteiras porosas e um aparato de segurança calcificado na Europa, que muitos dizem estar despreparada para impedir ataques sofisticados.

As autoridades ocidentais de inteligência já debateram se o Estado Islâmico poderia adotar táticas de gerações anteriores de redes terroristas (a Al Qaeda em particular) ou se o grupo poderia evitar ataques ao Ocidente em prol da construção de seu califado no Iraque e na Síria. A carnificina em Paris, em novembro, e agora em Bruxelas encerraram esse debate, e aqueles que estudam o grupo dizem que grande parte de seu perigo está em quão pouco parece se importar com quem mata, ou onde.

“Sua marca é a brutalidade”, disse William McCants, da Instituição Brookings, autor de “The ISIS Apocalypse” (O apocalipse do Estado Islâmico, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil). “Se essa é a sua marca, não é preciso exercer muito controle sobre seus agentes e é possível enviá-los para matar sempre que tiverem a oportunidade.”

A infraestrutura do Estado Islâmico faz parte do motivo para ter conseguido atacar dentro da Europa com eficácia mortal. Os investigadores franceses que passaram meses estudando os ataques de Paris descobriram uma estrutura extensa construída pelo grupo para lançamento de uma campanha sustentada por todo o continente. Na semana passada, o presidente da França, François Hollande, reconheceu que a rede de agentes em múltiplos países, que apoiou os agressores nas semanas que antecederam os ataques de novembro, surpreendeu as autoridades francesas.

Os responsáveis pelos ataques em Paris usaram a Bélgica como porta dos fundos para logística e planejamento, assim como refúgio. Nos meses que se passaram desde os ataques, atuais e ex-autoridades americanas disseram que o país continua vulnerável.

“Alguns dos países menores na União Europeia acreditam que as questões maiores de segurança estão sendo tratadas pelos países maiores, e a Bélgica certamente se enquadra nessa categoria”, disse Daniel Benjamin, um ex-coordenador de terrorismo do Departamento de Estado americano e agora um acadêmico da Faculdade de Dartmouth.

De modo mais amplo, disseram Benjamin e outros, os países europeus ainda se recusam a compartilhar até mesmo inteligência básica, às vezes a compartilhando com os Estados Unidos antes de compartilhá-la uns com os outros, o que leva a pontos cegos por todo o continente, o que facilita para os grupos terroristas atacarem.

“De muitas formas, a Europa como uma unidade se encontra onde estávamos em 10 de setembro de 2001”, disse o senador Angus King, um independente do Maine, que é membro do Comitê de Inteligência do Senado americano.

Kenzo Tribouillard/ AFP

Grupo segura faixas com os dizeres “Somos todos Bruxelas” em homenagem às vítimas

King, que está viajando pela Europa como parte de uma delegação do Congresso, disse que ficou impressionado pela forma como a cooperação em inteligência na Europa é obstruída por rivalidades históricas, não apenas entre os países, como também dentro deles.

Os serviços de segurança dentro de alguns países se recusam a compartilhar informação sobre terrorismo uns com os outros, ele disse, comparando a situação à não comunicação entre o FBI (Escritório Federal de Investigação, a polícia federal americana) e a CIA (Agência Central de Inteligência) nos meses que antecederam os ataques do 11 de Setembro. Ele se recusou a especificar que países europeus apresentavam os maiores problemas, apesar de muitos analistas na Europa criticarem os serviços de segurança franceses por não compartilharem informação uns com os outros.

Analistas de terrorismo apoiam as alegações do governo Obama de que a campanha militar contra o Estado Islâmico teve sucesso em tomar território do grupo, estimando que ele atualmente controle 25% a 40% menos território no Iraque e na Síria do que quando a coalizão liderada pelos Estados Unidos deu início à campanha de bombardeio em agosto de 2014.

Mas enquanto o Estado Islâmico sofre reveses no Iraque e na Síria, a mensagem consistente de seus líderes de que seus seguidores devem atacar sempre que puderem, permite ao grupo retratar força.

A estratégia se distingue da usada por anos pelos líderes da Al Qaeda, em particular Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahri, que descartavam com frequência planos de ataque antes de serem executados por não considerarem os alvos significativos o bastante.

Em setembro de 2014, um mês após o início da campanha de bombardeio pela coalizão, um porta-voz do Estado Islâmico, Abu Muhammad al-Adnani, disse em uma mensagem de áudio que os seguidores do grupo no Ocidente e na Austrália deveriam atacar de qualquer forma que pudessem seus próprios países, sem precisar aguardar por instruções de seus líderes.

Ele pediu ataques tanto a alvos militares quanto civis, declarando que “ambos são infiéis”. Seu pedido por ataques “faça você mesmo” é amplamente repetido pela internet e redes sociais.

“Se você puder matar um infiel americano ou europeu, especialmente os despeitados e imundos franceses, ou um australiano, canadense ou qualquer outro infiel”, ele disse, “mate-o de qualquer forma sempre que puder”.

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Tradutor: George El Khouri Andolfato
Fonte: Bol.com.br

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