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Gangorra do hip-hop foi termômetro da primeira noite de Lollapalooza Brasil

Sob um céu bíblico digno de Cecil B. De Mille, que ameaçou mas não desabou sobre os infiéis, a primeira noite do Lollapalooza Brasil 2016, neste sábado (12) em São Paulo, decantou uma geopolítica musical interessante para um festival. A gangorra do hip-hop foi o termômetro da noite, com o ultra-underground do Die Antwoord fazendo contraponto ao hoje clássico Eminem.

A coisa começou a esquentar a bordo do veterano Bad Religion, com a cruz católica interditada ao fundo do cenário, e que ilustrou a eterna luta básica do punk rock, musical e social. The Joy Formidable, pós-punk galês revisitado com roupinha vitoriana pela vocalista Rhiannon Bryan, veio com com seu noise rock educado e já ansioso por voltar aos trópicos.

A viagem retroativa dos australianos do Tame Impala embalou uma hipnose sonolenta, autocentrada, quase indiferente. Cold War Kids não são kids há muito tempo, nem fazem rock com espinhas –vinda da ensolarada Califórnia, é uma banda madura e de musicalidade diversa. O hillbilly competente e comunitário do Mumford & Sons cumpriu sua promessa para uma legião de convertidos.

No público, chamava a atenção a profusão de Eminens de tempos modernos. Como Rafael Arbex, 17, que nasceu cinco dias depois do lançamento do primeiro álbum de Eminem produzido por Dr Dre, “Slim Shady LP” (1999). Ainda assim, com o cabelo devidamente descolorido, afirmava: “Eu sou um expert”.

Rafael nasceu em Albany, no Estado de Nova York, filho de pai argentino e mãe brasileira. Agora, vive em São José dos Campos (SP), onde cursa o ensino médio. Teve contato com a música de Eminem em 2010, e fissurou. “Ele teve sérios problemas com a mãe dele, mas, no ano passado, pediu desculpas para a mãe e disse que nunca mais vai tocar ‘Cleaning Out My Closet’ (2002). Ou seja: essa ele não vai cantar hoje”, informava.

A resposta da cultura do gueto veio forte e reivindicatória com o grupo sul-africano Die Antwoord. Africânderes orgulhosos de um legado proletário, de uniforme laranja no começo do show, Ninja e a sinuosa Yo-Landi Vi$$er fazem o elogio da negação, da rejeição aos códigos do Capital e da linha de produção. Mostram a bunda, exibem símbolos de satanismo e fazem do stage dive uma piscina de bolinhas.

Levaram o público ao Inferno de Dante com suas máscaras sádicas e o arrastão sonoro de “I Fink U Freaky”, com o MC Ninja usando uma bandeira do Brasil como capa. Eles são de Cape Town, na África do Sul, cidade que vive contrastes semelhantes aos do Rio de Janeiro, morro e asfalto, favela e fausto.

Eminem começou com som de quinta, inaudível, e mostrou que, apesar das catedrais projetadas, não tem Broadway no seu conceito, é rima e energia. Mas envelheceu sem renovação, parece antigo.

Pós-moderno de shopping, o festival parecia dar sentido à paródia “Chico Buarque de Orlando”, feita recentemente por Marcelo Adnet no programa “Tá no Ar”, da Globo. Um ou outro enrolado em bandeiras esperava nas filas. O outdoor de cerveja emulava Koretsky e a Rússia revolucionária. O lounge VIP patrocinado por uma marca de absorvente recebia suas Thaylas Ayala, suas Camilas Queiroz. Na fila da cerveja, ninguém ia adiante quando a moça do caixa dizia que podia pagar com dinheiro. “Tá tudo no cartão, estamos em crise”, brincou uma garota. 

Fonte: Bol.com.br

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