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Globo constrói cidade cenográfica de 4 mil metros quadrados para “Liberdade, Liberdade”

Leticia Sabatella (Antonia) e Mel Maia (Joaquina). Foto: Globo/João Cotta

Leticia Sabatella (Antonia) e Mel Maia (Joaquina). Foto: Globo/João Cotta

Para reconstruir o Brasil de 1792 e 1808, anos em que se desenrola a trama de “Liberdade, Liberdade”, as equipes de cenografia, produção de arte, caracterização e figurino da próxima novela das onze tiveram de embarcar em uma viagem por meio de livros, pinturas e filmes rumo aos tempos da colônia. Uma época na qual a sociedade vivia sem saneamento básico, com esgoto a céu aberto, hábitos higiênicos precários, pouco acesso às riquezas naturais da terra e pagamento de impostos exorbitantes. Um período no qual os negros eram tratados como propriedade e os brancos buscavam status, tentando se igualar aos europeus, adotando seus valores e hábitos.

“Ninguém sabe exatamente como era a vida privada no século XVIII no Brasil. Existem textos, algumas ilustrações, mas a história é contada por pessoas que normalmente têm interesses, que a editam ou estilizam. Portanto, nos baseamos na história, mas também damos a nossa opinião sobre ela, figuramos como essas pessoas viviam”, explica o diretor artístico Vinícius Coimbra. A partir dessa pesquisa sobre o universo do Brasil Colônia, as equipes se reuniram para costurar os elementos que, juntos, dão cor e forma à novela em um trabalho minucioso, detalhado e repleto de recursos modernos.

Vila Rica

Para reconstruir Vila Rica, onde se passam os principais acontecimentos, nos Estúdios Globo, as equipes de cenografia – assinada pelo diretor de arte Mário Monteiro e pelos cenógrafos Paulo Renato, Márcia Inoue e Kaka Monteiro – e produção de arte – a cargo de Marco Cortez – precisou resgatar a arquitetura mineira em cerca de 30 prédios que compõe o espaço de quatro mil metros quadrados. Paredes com acabamento primário, tons terrosos em todas as suas variações, madeira de demolição, telhas de cerâmica, esteiras de forração de teto feitas de palha de taquara e reproduções de pedra pé de moleque são algumas das características que remetem à época.

Tudo para dar mais veracidade ao local e ao período: um Brasil sem indústrias, com pouco investimento de Portugal e depredado em seus recursos naturais mais valiosos. O mesmo cuidado foi aplicado na chácara de Raposo, personagem vivido por Dalton Vigh, construída fora da cidade cenográfica em um espaço de 600 metros quadrados, já que o personagem, um nobre minerador, era um dos mais ricos da cidade. A casa principal segue a estrutura tradicional de Minas com cores brancas e detalhes em palha e cerâmica, e a senzala é feita de pau a pique e madeira de demolição.

Para móveis e peças do cenário, a busca em antiquários mineiros e o contato com colecionadores de antiguidades foi essencial. Com isso, a equipe de produção conseguiu garimpar artefatos como cadeiras, camas, carruagens, liteiras, entre outros, para compor o espaço. Como as peças deste período são raras, nem todos os tipos de móveis foram encontrados, e os profissionais tiveram de reproduzir grandes peças como armários e mesas de acordo com a arquitetura da época. Até os colchões foram desenvolvidos, pois o tamanho e o material das camas eram diferentes dos usados atualmente. Papéis de parede, tecidos, maçanetas e peças aproveitadas do acervo da cenografia passaram por um processo de envelhecimento para reproduzir com mais fidelidade o período histórico.

Fidalgos e escravos

Para circular nesse ambiente, as equipes de figurino, lideradas por Paula Carneiro, e caracterização, assinada por Lucila Robirosa, criaram a sua interpretação das vestimentas e do visual dos fidalgos e escravos em todas as suas diferenças. O ambiente inóspito e as condições precárias – mesmo dos mais ricos – faziam com que as roupas e acessórios fossem desgastados e as mesmas peças, repetidas muitas vezes. Para dar esse aspecto gasto, milhares de tecidos foram comprados, lavados, modelados, depois envelhecidos e sujos com uma mistura especial desenvolvida pela equipe. Muitas vezes, as peças são até cortadas para parecerem rasgadas pelo uso do dia a dia. Quanto mais contato com a terra e serviços manuais, maior o desgaste necessário da roupa. Se os nobres usavam cerca de seis a oito peças no dia a dia, dentre chapéus, casacos, coletes, corpetes, camisas, luvas, rendas, calças, saias longas, anáguas e botas, os negros usavam duas ou três peças, como vestidos, saias, blusas e turbantes, o básico necessário para se cobrirem.

No calor do Brasil, sem os recursos que existem hoje, a pele das pessoas revelava as marcas da jornada de cada um. Para reproduzir essas marcas, uma parceria com a equipe de efeitos especiais trouxe alguns dos itens necessários para “manchar” e “sujar” a pele dos personagens e figurantes. Em vez de maquiar os atores, a busca é por naturalizar a todos e unificar: sujeira nos dentes e próteses, glicerina para o suor, base solúvel em álcool para criar manchas e tirar a uniformidade da pele, cicatrizes aplicadas em um sistema de carimbo, entre outros recursos. As cicatrizes não ficam só para os escravos. A personagem de Maitê Proença, Dionísia, sofria abusos do marido e terá diversas marcas que representam essa história. Na busca por um visual natural do período, elenco e figuração precisaram remover química e tintura dos cabelos, que, em sua maioria, ganharam apliques para parecerem mais longos. Ainda foi preciso evitar unhas feitas e depilação.

O realismo ganha liberdade de criação com as mulheres mais nobres e o cabaré de Virgínia, personagem vivida por Lilia Cabral. Joaquina, interpretada por Andreia Horta, trará uma mistura de referências contemporâneas com o período da novela: bordados atuais, tipos de manga e tecidos, todos confeccionados no shape da época. Como Joaquina foi criada em Portugal, traz para o Brasil trajes que até então as mulheres não conheciam, como os cortes com cintura alta. Ela terá uma leveza na maquiagem que reforçará a imagem dessa mulher que impressiona todos a sua volta e penteados mais “modernos” para o momento histórico. Joaquina, inclusive, lutava esgrima como poucas mulheres faziam e, para isso, usava calças nos treinos em casa com o pai de criação, Raposo (Dalton Vigh). Já Virgínia (Lilia Cabral) fará uso de corseletes, anáguas, vestidos e robes longos para exaltar sua beleza. Uma mistura de cortes da época com tecidos mais fluídos e bem cortados dão o tom das meninas que trabalham no cabaré, com penteados simples, como tranças e os rabos de cavalo, mas que conferem uma sensualidade natural às mulheres.

Na personagem de Nathalia Dill, Branca, tudo estará combinando: formatos de vestidos bem brasileiros, com a cintura baixa da época, peças todas da mesma cor, bordados tom-sobre-tom em cores diferenciadas como berinjela e azul petróleo. Ascenção, vivida por Zezé Polessa, mulher que vive pelas florestas e tem uma cicatriz misteriosa no rosto para reforçar tudo que já viveu, terá um figurino em tom medieval. Maitê Proença, a Dionísia, usa do estilo da aristocracia para mostrar que é uma mulher forte e elegante, com cortes bem tradicionais e tons de preto, cinza e carbono. Já as escravas Blandina (Mariana Nunes) e Luanda (Heloísa Jorge) estarão sempre com turbantes e roupas leves em cores mais claras, já que não tinham dinheiro para tingimentos e tecidos nobres.


Fonte: Bastidores da TV

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