Impeachment será votado em abril, diz presidente da comissão

Rosso tem bom trânsito com a oposição e, ao mesmo tempo, com o Palácio. Foto: Gustavo Lima/Agência Senado
Rosso tem bom trânsito com a oposição e, ao mesmo tempo, com o Palácio. Foto: Gustavo Lima/Agência Senado

Há apenas 15 meses do início do primeiro mandato de deputado federal, Rogério Rosso (PSD) assume um dos cargos com maior visibilidade e pressão no atual cenário político brasileiro. No dia 17, o parlamentar de 47 anos se tornou presidente da comissão especial responsável por analisar o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A escolha agradou à oposição e, ao mesmo tempo, acabou aceita pelo Palácio do Planalto, dado o trânsito de Rosso entre os dois polos. “Eu fui consultado, falei que nunca tinha imaginado isso, mas que, se fosse por convergência da Casa, eu não poderia me furtar da presidência, uma vez que jamais expus a minha opinião sobre o processo.” E por que o consenso em relação ao nome de um parlamentar de primeiro mandato? “Essa pergunta é bom você fazer para os líderes”, disse Rosso, durante entrevista ao Correio Braziliense/Diario.

Neófito no Congresso, ele conseguiu assumir a liderança de uma bancada com 32 deputados, receber Dilma para almoço em sua casa e se tornar, contraditoriamente, um aliado importante do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Roqueiro, fã de heavy metal, Rosso foi eleitor do tucano Aécio Neves (PSDB-MG) em 2014 e conta que nunca votou no PT, mas vem preferindo se resguardar de qualquer manifestação pública em relação aos acontecimentos que conflagram o país. Nas próximas semanas, não abrirá mão do rock. Para o momento atual, elegeu uma trilha sonora da banda britânica Iron Maiden: Dèjá vu. Nada mais simbólico.

O processo do impeachment no Congresso é político. O que vai determinar o andamento dele na Casa?
São dois aspectos. O primeiro é formal, jurídico da denúncia, dos prazos, da lei do impeachment e de seu rito especial. De outro lado, há a decisão de cada parlamentar. Nessa decisão, há variáveis que compõem a opinião de cada um. É claro que, por ser uma casa política, as ruas vão falar muito forte. Não tenho nenhuma dúvida disso. Porém, é importante também que neste momento, da comissão do impeachment, tudo aconteça dentro das regras, para que não tenhamos nenhuma interrupção ou suspensão.

ENTREVISTA: Rogério Rosso

O senhor teve uma ótima relação com a presidente Dilma desde que assumiu aliderança do PSD. Vocês têm uma afinidade, o ciclismo, ela já foi almoçar na sua casa… Como podemos esperar a sua posição?
Nunca votei no PT, seja no Distrito Federal ou para a Presidência da República. Nas eleições de 2014, nós ficamos com a Marina (Silva) no primeiro turno, até porque o PSD fez uma chapa com o PSB, com o Eduardo Campos. No segundo turno, votamos no Aécio (Neves). O PSD entrou na base de sustentação do governo federal e fui escolhido o líder do partido. O PSD, desde o seu princípio, tem demonstrado muita divisão, temos parlamentares que votam com o governo e contra o governo. Foram poucas as matérias onde houve uma convergência plena ou absoluta da bancada e eu mesmo tenho divergido bastante. Então, é importante fazer essa separação. Com relação à presidente, uma vez fiz um dos encontros de bancada na minha casa, era um almoço onde também comemorávamos o aniversário do ministro (Gilberto) Kassab. Ela apareceu de última hora e foi muito bem recebida. Meu posicionamento foi de muita cautela e imparcialidade.

E com relação a Eduardo Cunha, presidente da Casa? Ele vai cobrar alguma posição?
Bom, da minha parte, a chance é zero. São 65 membros, dos quais 62 votaram com a gente, tanto governo quanto oposição. Só três votos que foram contrários, que foram votos de abstenção, o que mostra que existe um consenso. a Casa procurou nomes que conseguiriam uma convergência para essa comissão especial. Não procuraram Cunha.  

Há quem diga que o senhor foi escolhido por se sentar nas reuniões de Dilma e também nas de Cunha?
Na sua cabeça, pode ser antagônica, na minha não. É natural. Na medida em que sou o líder do partido, preciso manter uma relação harmônica com o presidente da Casa. Se não fosse assim, eu estaria atrapalhando o meu partido, porque é o presidente da Casa, quem escolhe os relatores. Então, são coisas distintas, inclusive, não só eu, mas todos os líderes das bancadas, temos encontros com Cunha todas as terças-feiras em sua casa. Então, como líder, tenho que manter essa harmonia para o bem da minha bancada. Com relação ao Planalto, nós também temos as reuniões com a base aliada, que raríssimas vezes foram com a presidente Dilma. Na maioria, foi com sua equipe ministerial.

Que avaliação o senhor faz desse momento que país está vivendo?
Vivemos no meio da tempestade perfeita. Uma crise econômica muito grave, talvez a pior da história. Uma instabilidade e uma crise política tão grave que se a gente não tomar cuidado na absoluta atenção à Constituição, a gente pode dar início a uma crise institucional. Uma crise institucional no Brasil, que tem a sua redemocratização recente, pode provocar consequências muito ruins. Então, vejo com muita preocupação, mas também acho que essas manifestações estão sendo muito importantes para a decisão dos parlamentares.

O senhor está temendo algo? Algum ataque sobre a sua vida?
Estou sereno. Será um processo rápido. Dez sessões de defesa e mais cinco na comissão. Serão 30 ou 40 dias de análise pela Câmara dos Deputados. Estamos acostumados com esse jogo na política, porém vou procurar me concentrar o máximo possível.

Imagina que o processo de impeachment dure quanto tempo?
Dentro dos padrões de sessão da Casa e utilizando todo o prazo que tanto a presidente Dilma quanto a comissão têm, imagino que, sendo esses prazos cumpridos nos seus limites, a partir do dia 11 de abril, o relatório do processo de impeachment poderá ser levado ao plenário. De 11 a 15 de abril, na primeira quinzena de abril. Não se trata de antecipar ou ganhar prazos, trata-se do rito. Sabe quantas reuniões da comissão especial houve no impeachment do Collor? Três.

E esses casos guardam outras semelhanças?
Ambiente político e econômico distintos. Diria, do ponto de vista político que, era muito pequena a sustentação do presidente Collor. Vejo um pouco diferentehoje. Ainda há partidos importantes, como o próprio PMDB, mesmo com todas as questões envolvendo o partido. Não fui às manifestações que ocorreram em 1992. Tinha 24 anos, nem sonhava em entrar na vida política…

No caso do Collor, ele sofreu um impeachment por causa de um Fiat Elba. Mesmo que esse objeto fique restrito às pedaladas, na medida que forem surgindo os fatos, a situação vai se agravando?
Sim. A nossa atribuição na comissão é respeitar a Constituição, a jurisprudência, a decisão do STF e as normas do processo. Mas o parlamentar é soberano no seu voto. É um desafio para todos.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *