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Internet e uso de computador ajudam idosos no combate à solidão, diz estudo

A costureira Gilda Rodrigues usa a internet para se comunicar com a família e os clientes: "Meu celular fica o dia todo comigo, aqui do meu lado". Foto: Helio Montferre/Esp.CB/D.A Press
A costureira Gilda Rodrigues usa a internet para se comunicar com a família e os clientes: “Meu celular fica o dia todo comigo, aqui do meu lado”. Foto: Helio Montferre/Esp.CB/D.A Press

Para Gilda Rodrigues dos Santos, 71 anos, a internet não é um mistério. Conectadíssima, a costureira usa as redes sociais e os aplicativos de celular para se comunicar com os clientes e divulgar seu trabalho. “Eu costuro e depois posto as roupas que faço no Facebook. As pessoas que atendo sempre comentam. Meu principal cliente é uma academia de balé; eu faço muitas fantasias para os alunos. Eles mandam as fotos dos modelos pelo e-mail e eu vou respondendo pelo WhatsApp. Meu celular fica o dia todo comigo, aqui do meu lado”, conta. A moradora de Sobradinho faz parte de uma geração de idosos cada vez mais inserida no ciberespaço e prova que nunca é tarde para dar os primeiros passos no universo virtual.

Para aqueles que ainda se perguntam se aprender a usar o computador e o smartphone vale a pena, especialistas no tema têm um recado: pare de perder tempo e comece agora, pois os ganhos são muitos. Estudos vêm mostrando que, para os mais velhos, o uso das novas tecnologias ajuda a combater o isolamento, aumenta a sensação de bem-estar e promove melhoras na saúde física e mental, além de fortalecer a sensação de competência.

Uma das pesquisas mais recentes sobre o tema foi conduzida por médicos da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, e será apresentada no fim de abril em um congresso no Canadá. Depois de acompanhar 1.929 pessoas com mais de 70 anos por cerca de quatro anos, os pesquisadores notaram que atividades como usar o computador, ler, fazer trabalhos manuais e participar de atividades sociais protegem consideravelmente as habilidades cognitivas.

Surpreendem, contudo, os benefícios trazidos pela tecnologia: utilizar um PC ou laptop ao menos uma vez por semana reduz em 42% a probabilidade de o idoso ter problemas de memória e raciocínio, sugerem os resultados. As demais atividades também trazem ganhos, mas um pouco menores: a leitura de revistas reduz a perda de memória em 30%; o engajamento em atividades sociais, em 23%; e trabalhos manuais, como tricô, em 16%.

“Os resultados mostram a importância de manter a mente ativa ao envelhecermos”, diz, em um comunicado, Janina Krell-Roesch, pesquisadora da Clínica Mayo no Arizona e membro da Academia Americana de Neurologia. “Embora esse estudo só mostre uma associação e não comprove uma relação de causa e efeito, pessoas idosas poderiam considerar a prática de algumas dessas atividades para manter a mente saudável por mais tempo.”

Treinamento

A análise americana dialoga com um estudo anterior, apresentado em 2014, pela Universidade de Exeter, no Reino Unido. O trabalho, financiado pela União Europeia e realizado em parceria com instituições de saúde, ofereceu acesso à internet e aulas de informática a idosos que vivem em asilos na Inglaterra.

Dos 76 participantes do estudo, que tinham entre 60 e 95 anos, metade recebeu o treinamento, que envolvia a utilização de um computador simples e fácil de manusear, com tela sensível ao toque e teclado. Todos se mostraram capazes de usarem regularmente o computador por 12 meses, incluindo o período de treinamento, de três meses. Esse grupo, mostrou uma análise posterior, se tornou mais confiante no dia a dia e também apresentou melhora das habilidades cognitivas, o que, segundo os pesquisadores, tem impactos positivos sobre a saúde mental dos idosos.

Os participantes afirmaram, ainda, que o principal benefício que tiveram com o programa foi a possibilidade de se conectar com amigos e parentes através de e-mail e de programas como o Skype, diminuindo o sentimento de solidão e isolamento. Uma sensação compartilhada pela costureira Gilda, que vê a internet como uma maneira de se manter próxima da família. “No grupo da família (no WhatsApp), comentamos de tudo, todo mundo dá sua opinião. Meus netos vivem me pedindo dicas. Um dia desses, uma das minhas netas, que se casou há pouco tempo, me perguntou como fazer minha receita de bife. Não saiu perfeito, mas um dia ela aprende certinho”, brinca.

“Os seres humanos são animais sociais. Não é nenhuma surpresa que nos sintamos melhor quando temos a capacidade de se conectar com os outros”, afirma Thomas Morton, que liderou a pesquisa da Universidade de Exeter. “Mas o que pode ser surpreendente é o quão importante podem ser as conexões sociais para a saúde física e cognitiva. As pessoas socialmente isoladas ou que experimentam a solidão são mais vulneráveis a doenças e ao declínio da mente. Por essas razões, encontrar formas de apoiar conexões sociais das pessoas é muito importante, e a tecnologia pode ser uma ferramenta útil para isso”, completa.

Para Vicente Paulo Alves, coordenador e professor do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Universidade Católica de Brasília, idosos não devem ter medo de ocupar espaço no mundo virtual. “É necessário que a terceira idade entre cada vez mais nas redes sociais. Manter-se atualizado dá confiança a essas pessoas e melhora a intensidade das relações pessoais. O nosso país envelhece e essas pessoas precisam estar ativas para conduzir suas vidas de forma autônoma. A internet tem um importante papel nesse ponto, pois facilita a comunicação e a utilização de serviços”, avalia.

O conselho do especialista é seguido à risca pelo servidor aposentado Taciano Carvalho, 67 anos, que mantém ativo um blog no qual analisa questões políticas e econômicas. Baiano de Itiúba, morador do Distrito Federal desde 1975, ele despeja na rede a experiência de quem atravessou momentos importantes do país sem perder o bom humor: “Eu só fui descobrir que era velho um dia desses”, brinca.

O site de Carvalho, o Gama Livre, recebe entre 1,4 mil e 4 mil acessos diários e trata de temas que vão da infraestrutura das várias regiões administrativas aos reflexos da crise econômica. O blog é uma maneira de se manter sempre atento e atualizado. “É como ter um filho. Depois que nasce, não dá para deixar morrer à míngua, você tem que se dedicar, tem que alimentar e ter cuidado com o quê você publica”, compara. “Até mesmo em um blog pessoal é necessário ter compromisso com o leitor. Existe muito lixo que circula nas redes sociais e muita gente disposta a distorcer informações e a criar boataria. É necessário peneirar e avaliar o quê se lê para depois publicar e comentar as notícias. A grande mídia tem sua função, e os blogs também, pois eles aumentam o número de pessoas com voz. Mas é necessário ter bom senso com a opinião para não distorcer e multiplicar mentiras”, defende.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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