"Não existe mais censura, as minorias que não tinham voz", diz pesquisadora

Os anos da ditadura militar no Brasil foram marcados pela censura na imprensa e arte, e também em um gênero de cinema que flertava com os “maus costumes” como a pornochanchada. Um tipo de comédia erótica popular nos anos 1960 e 1970 que, diferentemente do que nome sugere, não continha sexo explícito. A instalação “Prazeres Proibidos”, exposta no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, traz exemplos dos curiosos critérios para cortes nas pornochanchadas, além de discutir o legado que o período de censura do Estado deixou até os dias de hoje no Brasil.

A criadora do projeto, a cineasta e artista visual Fernanda Pessoa, defende que a instalação também tem o papel de questionar o uso atual do termo “censura”, muito empregado hoje em dia para contestar protestos de minorias.

“Não existe mais censura, as minorias é que antes não tinham voz”, disse Fernanda Pessoa ao UOL. “Muitos desses filmes da pornochanchada têm uma visão muito machista. Se eles saíssem hoje em dia eles seriam vistos como machistas e certamente haveria protestos. Isso que muitos chamam de ‘patrulha’ nada mais é do que esses grupos antes silenciados, como negros, homossexuais e mulheres, exercendo seu direito de liberdade de expressão e dizendo que não aceitam algo. Esses protestos não são censura, são justamente resultado do fim da censura.”

A instalação, criada a partir de uma pesquisa de quatro anos que envolveu 150 filmes e mais de 400 pareceres de censura, é composta por três espaços. Em um corredor inicial, um projetor mostra a sombra do visitante contra uma parede branca. Em seguida, uma sala traz diversos gabinetes com documentos de censura iluminados, que mostram particularidades curiosas do que os censores escolheram cortar. Um último ambiente apresenta em loop uma seleção de trechos de filmes que foram cortados a pedido dos censores.

O Kama Sutra da censura

Ler hoje os pareceres da censura é como montar um quebra-cabeças tentando entender os critérios do que é censurado, encontrando alguns momentos de humor inadvertido. O censor de “A Ilha dos Prazeres Proibidos”, por exemplo, por algum motivo mandou retirar das cenas de sexo especificamente os planos em que mulher ficava sobre o homem. “Retirar a tomada em que Sérgio deitado sobre Ana e a coloca por cima” e “retirar a tomada seguinte, que apresenta Ana montada sobre Sérgio”, escreveu.

“Dependia muito do censor, alguns censores se apegavam mais no palavrão, têm outros que é mais na simulação do sexo, ou na nudez feminina,” explica Fernanda. “A simulação de sexo tinha limites. Podia mostrar se o casal estava de longe, mas um plano muito próximo não podia, alguns enquadramentos eles também não aceitavam. Mas coisas que sempre eram censuradas eram palavrões e piadas de duplo sentido. Outra coisa que encontrei muito em documentos era corte de cenas de urinar na rua. Você percebe uma mentalidade de ‘o brasileiro é muito burro para entender, se ele ver algo no cinema ele vai querer fazer’. Uma ideia de arte para ensinar, uma arte moralizadora.”

Fernanda diz que parte dessa variação entre os critérios vinha do fato de que muitos censores eram na verdade funcionários públicos originários de funções que nada tinham a ver com arte.

“Quando o departamento de censura foi para Brasília, houve uma falta de pessoal. Então relocaram para ser censor pessoas de posições do Ministério da Agricultura, por exemplo. Eles passavam por um cursinho de como ser censor com várias matérias, como psicologia, filosofia, técnicas de cinema. Uma das matérias era segurança nacional, para tentar identificar se os cineastas estavam tentando colocar mensagens subliminares subversivas ou comunistas nos filmes.”

O “jeitinho” para burlar a censura

Conforme a década de 1970 avançava, os produtores e diretores de filmes de pornochanchada testavam os limites, e usavam alguns artifícios para tentar dar um jeitinho de burlar a censura.

“Uma tática que usavam muito era filmar um plano muito ousado já sabendo que aquele plano seria censurado,” conta Fernanda. “Tinham assim uma moeda de troca na negociação para que outras cenas permanecessem. Mas às vezes, um plano desses feito para ser cortado acabava passando, e os filmes iam cada vez mais longe.”

Outra estratégia usada era o chamado “voz out”, que é cortar o som de um palavrão proibido, mas manter em cena o ator claramente pronunciando a palavra, para que ela fosse compreendida pelo público. Isso acabava fazendo com que a tentativa de censurar saísse pela culatra, já que chamava mais a atenção do que se o ator tivesse dito a palavra “vulgar” em voz alta.

“Tem um filme chamado ‘Os Mansos’ que tem entre suas histórias uma que queriam chamar de ‘A Bunda de Ouro’, sobre um sujeito obcecado por bundas”, conta Fernanda. “Mas a censura disse que não podia ter ‘bunda’ no título, aí trocaram para ‘A B… de Ouro’, que ficou parecendo que era algo pior ainda. Em uma cena o ator está sobre um oásis de areia e grita ‘buuunda’ sem som nenhum porque mandaram cortar, o que acabou chamando mais atenção também.”

De censura moral para a censura política

Os anos 1980 selaram o fim da pornochanchada com a chegada dos filmes de sexo explícito. Tudo começou com o curioso caso de um adolescente entrando em uma sessão prévia do cinema para ver um filme “impróprio”, o japonês “O Império dos Sentidos”. O adolescente era Paulo Abi-Ackel, atual deputado do PSDB, filho do ministro da justiça da época, Ibrahim Abi-Ackel. No escândalo subsequente, foram criadas salas especiais para os filmes de sexo explícito.

“O primeiro filme brasileiro de sexo explícito dessa época foi o ‘Coisas Eróticas’, com uma bilheteria gigante. Os exibidores começaram a ter uma demanda por esse tipo de filme, mas também perceberam que era mais barato comprar os filmes americanos para serem exibidos,” diz Fernanda. “Então pararam de ter interesse em financiar filmes que só tinham simulação de sexo, acabando de um dia para outro com a pornochanchada. E muitos produtores da Boca do Lixo migraram para o sexo explícito.”

“Quando criam os cinemas especiais, a questão moral e sexual passou a ser menos censurada, já que conseguiram colocar todos os filmes de sexo em um lugar isolado, longe da ‘Família Brasileira'”, diz Fernanda. “A preocupação da censura passa a ser maior na questão política. Em 1982, por exemplo, foi lançado o ‘Pra Frente, Brasil’, um filme que mostra tortura e que foi muito perseguido”.

O legado atual da censura

Para a cineasta, o período de censura durante a ditadura militar traz reflexos até hoje para o país. “A autocensura foi algo que sobreviveu desse período. Nos jornais a partir de determinado momento não havia um censor presente, mas eles sabiam que não podiam falar sobre um determinado assunto polêmico, portanto nem o abordavam. E isso transformou diversos temas em tabus. Até hoje têm assuntos sobre a própria ditadura sobre os quais não se fala, apesar da anistia.”

Fernanda diz que por essa autocensura encontrou dificuldade para financiar o seu longa, “Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava”, uma releitura histórica dos anos 1970 a partir de imagens de filmes da pornochanchada, e que está sendo finalizado. “O longa fala sobre ditadura e pornochanchada, e por isso foi muito difícil. O projeto estava aprovado no Proac ICMS [programa de fomento do Governo do Estado de São Paulo] e apresentei ele para muitas empresas. A maioria delas achava o projeto legal, criativo, bacana, mas respondia que a política da empresa era não patrocinar nada que se relacionasse a assuntos políticos. O MIS foi o primeiro a realmente apostar na minha proposta sobre dois assuntos que ainda são tabu na nossa história: a ditadura militar e a pornochanchada”.

Outro reflexo dessa época, para a cineasta, é a própria classificação indicativa dos filmes, que existe até hoje. “Nos anos 1980 os filmes foram reexaminados para terem o certificado de censura para TV. Além de indicar cortes, eles decidiram a classificação indicativa, que antes existia apenas para os filmes do cinema. Até hoje o STF discute o quanto a classificação indicativa ainda é uma censura, uma reflexão que eu queria provocar no visitante da exposição.”

Serviço:

Prazeres Proibidos
Quando: até 27 de março, ter. a sex.: 10h às 20h; sáb.: 9h às 21h; dom. e feriados: 11h às 19h
Onde: MIS (Museu da Imagem e do Som) – Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo – SP
Quanto: Gratuito
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 16 anos

Fonte: Bol.com.br

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