O futebol como redenção para sertanejos de várias gerações

O futebol como motor da esperança de quem não tem razões para alimentá-la. Em três dias de viagem, o Diario acompanhou a caravana da ONG LoveFútbol por seis comunidades no Sertão de Pernambuco que a organização monitora. Integrantes de movimentos sociais, descendentes de quilombolas, índios. Minorias. Apesar das diferentes origens, todos compartilham um mesmo sonho: um futuro melhor. O projeto consiste da construção de quadras poliesportivas em lugares que, por vezes, não oferecem quaisquer alternativas de lazer para adultos e crianças. As imagens são da fotógrafa Brenda Alcântara.

 (Foto: Brenda Alcântara)

Manari
Dona de um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, Manari é o lar de Odair e Janete, que moram com os pais e outros três irmãos na comunidade do Sítio Baixa II. Com seu inseparável estilingue e uma bolsa de munições à tiracolo, Odair se desculpava com uma representante da ONG Pão é Vida que o repreendera por ter matado uma rolinha. A justificativa, no entanto, deixou todos ali desconcertados: “é pra dividir com meus amigos”. Compartilhar o nada que se tem parece ser uma virtude comum ali. Como Janete, que saiu correndo no meio da conversa para voltar com um sorriso no rosto e um umbu na mãozinha estendida. “Eu só tenho esse. É pra você.” Seu pai não soube precisar sua idade, mas como ela própria destacou, pouco importa. “Eu não sei os números, então eu tenho a idade que eu quiser. Agora, eu tenho dois.”

 (Foto: Brenda Alcântara)

Nova Esperança
Localizada na periferia de Petrolândia, às margens da rodovia PE 316, a comunidade Nova Esperança abriga cerca de 2.000 pessoas que não têm acesso nem a água encanada. Sem qualquer espaço destinado ao lazer daquela população, o assentamento dificulta até a reunião dos que lá moram, já que a maioria não se conhecia antes de ir parar ali. Não por acaso, o chafariz que abastece o lugar acaba servindo de ponto de encontro entre os vizinhos. Crescendo num ambiente assim, as crianças acabam por transformar qualquer coisa em brinquedo – até um pneu velho meio enterrado no chão.

 (Foto: Brenda Alcântara)

Agrovila Irmã Dorothy
Boa parte das 50 famílias da agrovila Irmã Dorothy, também nas cercanias de Petrolândia, é composta por pessoas que ficaram sem suas casas após o inundamento parte do município para a construção da Barragem de Itaparica, há 23 anos. Sem escola perto, muitas crianças acabam desistindo de estudar – algumas relatam ter sofrido preconceito por fazerem parte de um assentamento do MST. Com o objetivo de oferecer uma alternativa além do ócio para as crianças, um morador resolveu fazer a diferença. Mesmo sem um emprego fixo, Geninho entendeu que poderia ser útil de outra forma e passou a coordenar uma escolinha de futebol que hoje conta com o apoio de toda a comunidade.

 (Foto: Brenda Alcântara)

Assentamento Espinheiro
A menor das comunidades visitada durante a viagem tem uma matriarca. Dona Aldenora viveu a vida inteira ali e agora compartilha o lugar com as famílias de seus quatro filhos. Com exceção do mais novo, todos nasceram em casa. Com uma complicação na reta final da gestação, dona Aldenora precisou ser socorrida para um hospital no parto do caçula. Desde então, ela se divide entre a horta que cultiva para seguir a rígida dieta que sua saúde fragilizada exige e o cuidado com os dez netos.

 (Foto: Brenda Alcântara)

Comunidade Quilombola Negros de Betinho
A poeira avermelhada pode ser vista de longe. Ela sobe das dezenas de pares de pés descalços que fazem da bola um instrumento de comunhão. Todos os dias, até 100 peladeiros comparecem ao campo de barro batido da comunidade Negros de Betinho. A atividade é tão relevante para os moradores, que até a líder da agrovila e uma das principais referências da luta quilombola em Pernambuco, dona Cássia, se envolve. Sua tarefa é preparar e distribuir garapa para todos os “atletas”. E não é só de futebol que vivem os moradores dali. Uma das atividades preferidas dos mais novos é jogar vôlei numa rede feita por eles mesmos e pendurada em dois postes de iluminação. A paixão pelos esportes já rende bons frutos. Num cenário de tanta miséria e baixa autoestima – como reflexo de décadas sofrendo com o preconceito, muitos nem se consideram quilombolas – o desporto é motivo de orgulho. O time que representa a comunidade nos torneios municipais conquistou nada menos que cinco títulos nos últimos torneios disputados na região.

 (Foto: Brenda Alcântara)

Saco dos Barros – Pankararus
Paramentados dos pés à cabeça com seus encantados, sua indumentária ritualística, os praiás exibiam suas coreografias exaustivamente. Uma das cerimônias mais importantes da etnia pankararu, a Corrida do Umbu, que segundo a crença indica o sucesso das safras, coroou a viagem. Nela, o primeiro umbu da estação é levado para o pajé, que será colocado num pequeno saco antes de ser flechado pelos praiás. Para os pankararus, o esporte desempenha um papel fundamental na comunidade. A preocupação dos mais velhos é com o crescimento do número de jovens envolvidos no consumo de drogas e do aumento da taxa de adolescentes grávidas. Além do futebol, os pankararus praticam handebol e modalidades de atletismo como arremesso de peso e salto à distância.[embedded content]

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Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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