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"Parecia que via meu filho", diz mãe de Dinho em "O Musical Mamonas"

Uma brasília amarela estacionada na entrada do Teatro Raul Cortez recepcionou os convidados para a sessão especial de “O Musical Mamonas”, na noite desta segunda (14), em São Paulo. Dia em que os familiares dos cinco integrantes da banda de Guarulhos estiveram na plateia ao lado de celebridades e da imprensa.

O espetáculo conta a trajetória do grupo desde o começo como a banda Utopia, passando pela batalha pelo sucesso, até o estouro já com o novo nome, Mamonas Assassinas, cujo único disco, lançado em 1995, vendeu 3 milhões de cópias.

O espetáculo começa com os cinco músicos como anjos peraltas no céu. Com direito até a asas. Ruy Brissac é o vocalista Dinho, Yudi Tamashiro é o guitarrista Bento, Adriano Tunes é o tecladista Júlio, Elcio Bonazzi é o baixista Samuel e Arthur Ienzura é o baterista Sérgio.

Com referências ao próprio teatro e muito humor, as cenas se intercalam com as canções da banda e contam como os rapazes de Guarulhos conquistaram o Brasil com sua música cheia de deboche e ironia — com a ajuda de um potente coro com dez atores que se intercalam entre os outros papéis.

Apesar de contar com detalhes a história do grupo, o espetáculo escrito por Walter Daguerre e dirigido por José Possi Neto não menciona o trágico acidente aéreo na Serra da Cantareira que tirou a vida dos cinco músicos, no auge do sucesso, no dia 2 março de 1996, deixando o Brasil atônito.

“Todo mundo sabe a forma que eles morreram. Achava babaca e de mau gosto querer encenar qualquer acidente”, afirmou Possi Neto ao UOL. Ele preferiu interromper a canção “Utopia 2”, como “um concerto interrompido que foi a vida deles”. “É uma metáfora que todas as pessoas sensíveis percebem”, declarou.

Produtor do espetáculo ao lado de Rose Dalney e Marcio Sam, Túlio Rivadávia diz que “foi um consenso” entre familiares e produção não retratar a morte dos músicos. “A tragédia é tão lugar comum, todo mundo sabe o que aconteceu. Então, era uma coisa desnecessária. O acidente foi uma coisa muito marcante, e a gente queria trazer o outro lado, que é a alegria e a irreverência com que nos conquistaram”, declarou.

O crítico Rubens Ewald Filho, que viu o musical na primeira fila, concordou com a decisão. “Acho que não precisa mencionar, todo mundo sabe o acidente, a maneira que morreram, o abalo que todo mundo sentiu, faz parte da nossa vida. Essa é a maneira delicada, artística, de se fazer um encerramento. Me emocionei”, disse.

“Parecia que via meu filho”

Célia Alves, mãe do vocalista Dinho, estava aos prantos ao fim do espetáculo, sentada na segunda fila. “Nesse momento a gente sente muita saudade. Eles representaram muito bem, principalmente o Ruy, meu Deus do céu, ele é o Dinho com 16, 17 anos!”, declarou, ainda emocionada.

Ela contou que ficou impressionada com a semelhança. “Não teve jeito de não chorar no final. Eu segurei, segurei, mas toda hora que olhava para o palco parecia que via meu filho. Foi como voltar no tempo há mais de 20 anos”, falou.

Hildebrando Alves Leite, pai de Dinho, disse que a semelhança “é uma feliz coincidência”. E revelou estar assustado com a passagem do tempo. “Passou muito rápido esses 20 anos. O tempo voou! A gente fica contente em saber que os Mamonas ainda têm muitos fãs. O legado que eles deixaram foi a alegria na música, a sinceridade para trabalhar e o respeito pelos fãs”, definiu.

Paula Rasec, irmã do tecladista Júlio, revelou que foram três anos de negociação com as famílias para que o musical fosse aprovado. “A gente tem um carinho muito grande pelos produtores. Percebemos que tinham o cuidado de não falar do acidente, o que era uma preocupação das famílias também. Queríamos uma homenagem para eles à altura. Acho que conseguimos”, concluiu.

Francisco José de Oliveira, o seu Ito, pai do baterista Sérgio e do baixista Samuel Reoli, declarou estar satisfeito com a homenagem. “A gente se emocionou bastante, todos da família estamos felizes. Precisávamos fazer isso para eles. E tenho certeza que o filme dos Mamonas ainda vai sair”, declarou.

Fernando Rinoto, sobrinho do guitarrista Bento, classificou a peça como “de primeira”. Ao que Chikara Rinoto, irmão mais velho de Bento, contou que muitos fãs voltaram a procurar a família por conta do musical. Ele ressaltou “o planejamento e a pesquisa profunda” na produção. Mãe de Bento, Toshiko Rinoto, concordou e disse que ficou “muito ansiosa para ver a obra finalizada”.

Espírito dos Mamonas

Produtor musical que descobriu os Mamonas, Rick Bonadio confessou que achou estranho virar um personagem, interpretado pelo ator Patrick Amstaldem, um dos destaques do elenco e várias vezes aplaudido em cena.

“É uma experiência muito louca, nunca imaginei passar por uma situação dessas… O cara que me faz é muito engraçado”, disse Bonadio. Para ele, a peça tem “o espírito dos Mamonas”. “Os meninos estão muito bem; dá para ver que estudaram muito. Remete à energia daquela época dos Mamonas”, afirmou.

Sobre a razão do sucesso dos meninos, arriscou: “Os Mamonas tinham naturalidade, espontaneidade. Não era uma banda muito ‘posuda’, que pagava de ‘eu sou isso’, ‘eu sou aquilo’. Eles eram no palco o que eram na vida”, lembrou Bonadio, dizendo que, se estivessem vivos, os “músicos estariam fazendo televisão, sobretudo Dinho, que era um grande comunicador”.

Questionado quando percebeu que tinha diante de si um grupo de sucesso, Bonadio respondeu: “Foi quando ouvi as músicas ‘Pelados em Santos’ e ‘Robocop Gay’. Pensei: pô, se misturar isso aqui com rock vai ficar muito bom e vai dar certo. Mas foi pelo meu gosto pessoal, na época não tinha tanto conhecimento de mercado”, afirmou.

Bonadio ainda fez questão de declarar: “Os Mamonas é o maior momento da minha trajetória. Se não fossem os Mamonas, eu não teria feito a carreira que fiz. Devo toda a minha carreira aos Mamonas”.

Robocop Gay

Na plateia, muitas celebridades foram envolvidas pela atmosfera Mamonas Assassinas. A apresentadora do SBT Silvia Abravanel, filha de Silvio Santos, afirmou que o grupo fez parte de sua juventude: “Nunca vai surgir outros Mamonas. É que nem Silvio Santos, Roberto Carlos e Xuxa. São únicos e exclusivos. Pode até aparecer um parecido, mas igual, jamais”.

Geisy Arruda, que tinha seis anos quando os músicos morreram, contou que “Robocop Gay” é sua música favorita, “pela defesa dos homossexuais”, explícita, em sua visão, no verso precursor: “abra a sua mente, gay também é gente”. “Acho que toda boa festa tem de tocar Mamonas Assassinas”.

A atriz Mariana Hein lembrou que “chorou muito” quando os músicos morreram. “Foi horrível. Lembro que tinha um vizinho que era parente da Valéria Zoppello, então namorada do Dinho, e ele me conseguiu uma foto do Dinho, o que para mim era o máximo”, recordou.

Vira-vira

Roberto Leal, que foi parodiado pelos Mamonas na música “Vira-Vira”, chegou à sessão acompanhado dos pais de Dinho. Ao UOL, contou que sempre viu os meninos como “amigos e aliados” e não “como inimigos”.

“Eles me levaram a lugares onde não pude ir. Dinho quando me viu no [programa do] Gugu disse que a música dele era uma homenagem a um ídolo e que tinha todos os meus discos. Nos abraçamos e choramos muito”, revelou.

Leal contou ainda que jamais cedeu aos apelos de seus advogados para que processasse a banda. “Se eu tivesse levado os meninos na Justiça, que era o que meus advogados queriam, nada disso estaria acontecendo. A atitude minha com o Brasil, essa aliança espiritual, é mais forte que qualquer coisa material. Eu tenho uma relação de amor com os Mamonas Assassinas”.
 

Fonte: Bol.com.br

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