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Pesquisa diz que migrantes correm mais riscos de sofrer com esquizofrenia

Depois de enfrentar perigosas travessias e conseguir transpor fronteiras, os migrantes que buscam se refugiar de guerras e perseguições em terras estrangeiras correm um alto risco de dar de cara com outro inimigo: a própria mente. Para essas pessoas, a chegada a um país seguro é apenas metade da jornada. A próxima batalha será contra alucinações e outros sintomas associados à esquizofrenia. Uma pesquisa publicada no British Medical Journal feita com mais de 1 milhão de pessoas na Suécia mostrou que o risco de refugiados sofrerem desse tipo de problema pode ser 3,6 vezes maior que o da população em geral.

De acordo com Anna-Clara Hollander, pesquisadora de pós-doutorado do Instituto Karolinska, já está bem estabelecido o fato de refugiados serem mais propensos a receberem diagnósticos como transtorno de estresse pós-traumático, depressão e ansiedade, comparado à população em geral. Contudo, a principal autora do estudo destaca que pouco se investigou, até agora, sobre a incidência de esquizofrenia entre eles.

O resultado do trabalho, que inclui dados de migrantes do Oriente Médio, do norte da África, da África Subsaariana, do leste-europeu e da Rússia, mostra que esse aspecto da saúde mental dos refugiados não pode ser negligenciado. Hollander esclarece que, como os dados se limitam a 2011, eles não refletem a realidade da nova onda de migração, principalmente de mulheres e homens que fogem da guerra civil na Síria. “Mas não temos por que achar que com essas pessoas seria diferente”, ressalta. “Pode ser cedo para afirmarmos que também estarão em risco alto de distúrbios psicóticos, mas acreditamos que nossos resultados podem se aplicar a elas. Acreditamos que a exposição a guerra, perseguição e adversidades psicossociais têm um efeito universal sobre o risco de psicose”, diz.

No ano passado, 3,3% da população mundial — 244 milhões de pessoas — viviam fora de seus países de origem, um aumento de 39% desde 2000, lembra Cornelius Katona, diretor médico da Fundação Helen Bamber, organização de direitos humanos baseada em Londres. “Eles podem decidir migrar por razões econômicas ou, no caso dos refugiados, para escapar de guerra, perseguição ou desastres naturais. E agora temos evidências substanciais de que o risco de psicose não afetiva (esquizofrenia) é maior nos migrantes, comparado à população nativa. O trabalho de Hollander mostra que esse aumento é, principalmente, associado à exposição de adversidades psicossociais”, observa.

Variações
A pesquisadora ressalta que são necessárias mais investigações para se chegar a uma conclusão robusta sobre as causas da incidência maior de esquizofrenia entre refugiados. “Nós sabemos que a violência sofrida por crianças e adultos que fogem de perseguição tem sido associada a uma piora na saúde mental em geral. Mas também é possível que fatores pós-migratórios, como discriminação, racismo e exclusão social também influenciem. No nosso estudo, não conseguimos investigar esses fatores, por isso é importante que isso seja bem estudado futuramente”, destaca Hollander. Ela lembra que a dificuldade de conseguir asilo é, particularmente, uma questão estressante, que pode desencadear os distúrbios psiquiátricos.

De acordo com a autora do estudo, chamou a atenção dos pesquisadores o fato de que o risco de psicose varia de acordo com a região de origem do migrante. Por exemplo, aqueles da África Subsaariana apresentavam incidência maior que dos europeus do leste. Contudo, como o estudo não contempla a imensa massa de refugiados do Oriente Médio que intensificou o fluxo migratório no ano passado, é possível que essa realidade sofra alterações, reconhece Hollander. Os abrigos de refugiados na Turquia e em Calais, na França, têm sido comparados a campos de concentração, com relatos frequentes de humilhação, violência, estupro e situações de degradação.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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