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Pesquisadoras nordestinas buscam respostas para epidemias

Escrever artigos, analisar dados, cuidar de filhos, organizar um lar. O caminho das mulheres para conquistar espaço no meio científico revela trajetórias marcadas por esforços redobrados e pela superação de obstáculos invisíveis, que vão desde o desafio de conciliar trabalho e maternidade até situações de preconceito.

Neste Dia Internacional da Mulher, o Diario conta a história de profissionais cujas contribuições têm causado impacto positivo na ciência, inclusive no desafio de dar respostas ao atual surto de arboviroses causadas pelo Aedes aegypti – dengue, chikungunya e zika – e à epidemia de microcefalia.

Por meio das histórias de Eduarda Cesse, Angela Rocha e Adriana Melo, todas as pesquisadoras que enfrentam as desigualdades do meio científico são homenageadas. No Brasil, a presença da mulher pesquisadora ainda é menor que a dos homens. Apesar de o gênero feminino representar metade do total de pesquisadores do país, segundo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – em 1995 eram apenas 39% – poucas mulheres ocupam posições de liderança nas pesquisas. De 90.068 cientistas cadastrados pelo conselho, 76.195 líderes são homens (84%) e 13.873 são mulheres (16%).

Primeira a destacar zika nos bebês

Viagens sempre foram rotina para a médica Adriana Melo, 45. Mãe de duas filhas, ela nunca viajou sozinha. Luiza, 17, e Tamiris, 20, sempre acompanham a mãe quando ela sai de Campina Grande (PB). Adriana é médica de gestações de alto risco no Instituto Saúde Elpídio de Almeida. Ganhou destaque ao ser reconhecida como a primeira profissional de saúde a apresentar evidências da relação entre zika vírus e o aumento nos casos de microcefalia na região.
Lidar com mulheres fragilizadas pela notícia de que o filho tem uma malformação congênita é uma das funções da médica. “Nunca consegui me distanciar das histórias. Tenho contato com todas as mães que atendo”, conta. Segundo ela, ser mulher a ajuda a entender melhor as mães, a enxergar a situação como elas.

Concentrada nas origens da epidemia, não demorou muito para que a médica desvendasse o mistério que intrigava profissionais de saúde do Nordeste, onde o surto de microcefalia começou a ser, em agosto de 2015. Quase dois meses, porém, foram necessários para que a conclusão de Adriana fosse conhecida. Foi chamada de arrogante e alarmista quando falou com colegas de profissão sobre a relação entre a malformação e o zika vírus. “Sou mulher, nordestina, paraibana. Isso faz com que alguns me olhem com discriminação.”

O desafio de cuidar da saúde coletiva

Após percorrer um corredor estreito e monocromático do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (Fiocruz/PE), a chegada ao box onde trabalha a pesquisadora Eduarda Cesse, 48, revela traços da personalidade da dona do espaço. Quadros coloridos, flores de papel, fotografias e cartões-postais compõem a sala de 3m2. Na Fiocruz, as mulheres são maioria. Eduarda é uma das 54 pesquisadoras, ante 41 homens.

As múltiplas funções nunca a fizeram desistir. Formada em odontologia pela UPE, fez mestrado e doutorado. Atualmente, participa de projetos de avaliação dos serviços de saúde e atua nas áreas de epidemiologia e doenças crônicas. Também dá aula de pós-graduação na Fiocruz. “Fazemos correções de provas em casa, continuamos pesquisas fora do expediente. Meus filhos foram criados assim.”

O cargo no Departamento de Saúde Coletiva da mais importante instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina foi conquistado em concurso público com concorrência de 40 candidatos/vaga.
Quando ingressou na Fiocruz, em 2002, já era mãe de Ravi, 26 anos, e Vito, 14. E foi com os dois meninos que ela encarou o maior desafio da carreira: conciliar pesquisa e maternidade. Agora, é avó de Nina, 6 meses. “Equilibrar a vida pessoal e o trabalho é desafiante. Nossa jornada é tripla: um expediente no trabalho, um como dona de casa e outro com os filhos”, diz. 

Anjo da guarda de famílias

Nem a voz tranquila da infectologista pediátrica Angela Rocha, 67, esconde a firmeza da médica, uma das profissionais à frente dos cuidados com as crianças com microcefalia em Pernambuco. Coordenadora do setor de infectologia pediátrica do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, Angela une sensibilidade para atender as crianças e suas mães à força para dar respostas à sociedade sobre a epidemia que atinge o país. Ela foi uma das autoras do protocolo de cuidados com crianças microcéfalas, que serviu de base para todo o território nacional e referência para a Organização Mundial de Saúde (OMS).

No auge do surto, chegou a trabalhar três turnos – incluindo fins de semana – para dar conta da demanda que chegava ao Oswaldo Cruz. Angela não é mãe nem casada. As horas livres, escassas em tempos de investigação da epidemia, é dedicado ao lazer e, principalmente, à família. “O grande desafio é dar atenção ao trabalho sem deixar de lado a vida familiar. Ninguém vive só da profissão e buscar esse equilíbrio é o dilema da mulher moderna”, afirma.

Em Pernambuco, 1.672 casos da malformação congênita foram notificados. A médica com 45 anos de experiência enfrenta hoje uma das situações mais desafiadoras da carreira. Ser mulher, diz ela, ajuda no contato com as mães.
“A sensibilidade independe do gênero, claro, mas nós mulheres temos essa aproximação natural umas com as outras. Na maioria dos casos, atendo mães e avós. Homens são minoria entre os que acompanham os bebês.”

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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