Últimas

Plataformas de petróleo viram lar de ricos ecossistemas marítimos

  • Erik Olsen/The New York Times

    A oceanógrafa Amber Jackson (à direita) e a bióloga Emily Callahan com a plataforma Eureka ao fundo

    A oceanógrafa Amber Jackson (à direita) e a bióloga Emily Callahan com a plataforma Eureka ao fundo

A 12 quilômetros do litoral de Long Beach, Califórnia, a plataforma marítima Eureka, que existe há 40 anos, é um estudo de contrastes. De longe, parece somente mais uma plataforma petrolífera, um artefato do cenário industrial moderno.

Debaixo das ondas, no entanto, a Eureka e outras plataformas similares da área são o lar de uma grande e próspera comunidade de vida marinha que, no entender de alguns cientistas, é um dos ecossistemas marinhos mais ricos do planeta.

“Eles são mais produtivos do que os corais de recife, mais produtivos do que estuários”, disse Milton Love, professor de biologia marinha da Universidade da Califórnia, campus de Santa Barbara. “Acontece puramente por acaso que as plataformas têm muitos animais que estão crescendo rapidamente.”

Love, que tem publicado pesquisa sobre a vida marinha em pontos de perfuração marinha, disse que a localização dessas plataformas – em áreas marinhas protegidas em uma corrente fria que desce da Colúmbia Britânica – as transformou em habitats perfeitos para peixes e outras espécies.

Cientistas e mergulhadores conhecem a vida abundante daqui há anos, mas um estudo de 2014 que Love ajudou a escrever, publicado em “Proceedings of the National Academy of Sciences”, confirmou o que muitos especialistas já suspeitavam: que a maior parte da vida foi criada na plataforma em vez de ter vindo de outras regiões do oceano e se estabelecido ao redor dos gigantescos pilares de concreto.

“Para algumas dessas espécies de grande importância comercial, como o robalo, não existe dúvida de que há mais deles nas águas do sul californiano porque a plataforma ali está”, disse Love.

Futuros recifes artificiais

Essa visão está dando força à tentativa de converter algumas dessas plataformas em recifes artificiais quando elas forem desativadas. A Blue Latitudes, organização fundada em 2014 por duas jovens cientistas com diplomas do Instituto Scripps de Oceanografia, de San Diego, está tentando divulgar o valor das plataformas como lares permanentes da vida marinha.

“Acho que está na hora de pensarmos de forma criativa a respeito dos recursos que temos”, afirmou, Amber Jackson, oceanógrafa e bióloga especializada em conservação que ajudou a fundar a Blue Latitudes com Emily Callahan, cientista marinha. “Para mim, perder esses ecossistemas só porque eles são uma estrutura de plataforma petrolífera é falta de visão.”

Embora os programas de transformação de plataformas em recifes no Golfo do México existam há décadas – mais de 400 locais foram aprovados para conversão desde 1985 –, a ideia de deixar plataformas no lugar de recifes é polêmica na Califórnia. Até agora, nenhuma das que existem na costa da Califórnia foi convertida em recifes artificiais.

“Isso é visto como algo que beneficia a indústria petroleira, e opor-se à indústria petroleira é o papel assumido por muitos grupos ambientalistas”, disse George Steinbach, diretor executivo do programa California Artificial Reef Enhancement, organização sem fins lucrativos financiada pelo setor petroleiro.

Vazamentos e lutas ambientais

A Eureka, de propriedade da Beta Offshore, de Houston, é uma das 27 plataformas do litoral californiano. Vários grandes derramamentos de petróleo ocorreram desde sua construção meio século atrás, dando origem a um movimento ambiental apaixonado que há muito tempo defende a remoção completa das plataformas.

“As pessoas estão esperando a saída dessas plataformas petrolíferas”, afirmou Linda Krop, advogada ambientalista do Environmental Defense Center, grupo de defesa com sede em Santa Barbara, Califórnia, onde várias instalações petroleiras similares podem ser vistas da praia.

Krop discordou que esteja comprovado cientificamente o papel das plataformas no estímulo à vida marinha. Para ela, deixá-las montadas seria o equivalente a recompensar os poluidores com o golpe de sorte de não ter de pagar pela sua remoção.

“Quando eles constroem essas plataformas, esse custo é levado em consideração.”

Um vazamento de petróleo gigantesco em 1969 liberou de 80 mil a cem mil barris de óleo cru, deixando uma mancha em mais de 60 quilômetros de litoral, matando milhares de animais. O derramamento foi notícia nacional e fez nascer aqui um forte movimento contra as plataformas.

Vazamentos posteriores deram mais determinação aos opositores. Em 2015, um oleoduto de propriedade da Plains All American Pipeline vazou liberando 3.400 barris de petróleo cru no oceano, sujando áreas de proteção marinha recém-criadas.

“Foi uma sensação de déjà vu. Eu vi como era, que cheiro tinha, e foi de doer o coração”, disse Kathryn Phillips, diretora do grupo ambientalista Sierra Club na Califórnia.

Leões-marinhos, peixes e crustáceos

Contudo, nos últimos dez anos, mergulhadores e cientistas descobriram que as plataformas abrigam vida inesperada e abundante. Logo abaixo da superfície da plataforma Eureka, leões-marinhos rondam nas águas cristalinas; meia dúzia de espécies de robalos e os dourados garibaldis nadam nas correntes velozes; e carpetes floridos de invertebrados e crustáceos se agarram aos pilares da plataforma.

É o mergulho mais incrível que já fiz. Parece um oásis. A estrutura em si é impressionante. Dá uma sensação de ausência de peso total.

Ashleigh Palinkas, bióloga especializada em conservação de San Diego

Nos últimos anos, o prazer de mergulhar nas plataformas virou notícia. Em 2014, Jackson e Callahan começaram a defender que as petroleiras pudessem manter onde estão grandes porções de muitas das plataformas depois que estas pararem de funcionar.

O processo de remoção da plataforma e de limpeza do local, conhecido como desativação, é complicado e caro, incluindo tampar e cimentar os poços para garantir sua segurança. A desativação total significa a remoção da estrutura inteira. Quando se pretende transformar a plataforma em recife, somente a parte superior é removida, geralmente até uma profundidade de 24 metros, para não oferecer riscos a cascos de navios. O resto da plataforma continua no local como abrigo para a vida marinha e ponto de mergulho recreativo ou pesca.

A Califórnia tem uma lei que permite a conversão de plataformas em recifes. Em 2010, o então governador Arnold Schwarzenegger sancionou uma lei que permite a desativação parcial, mas ela logo encontrou resistência de alguns dos grupos ambientais que a consideravam favorável demais à indústria de energia.

Segundo especialistas no setor, as empresas nunca tiraram proveito da lei em parte porque a consideram muito bizantina e cara. Outro motivo é que, até recentemente, o preço do petróleo era alto o suficiente para justificar a manutenção das plataformas.

Preços baixos do petróleo dão esperança

Todavia, isso pode estar mudando. Uma emenda à lei de 2010, cujo objetivo é agilizar o processo de aprovação, foi apresentada à Assembleia Legislativa da Califórnia no ano passado e será discutida neste ano.

“Com o cenário atual do preço do petróleo, existe uma oportunidade de tentar estabelecer um programa viável de conversão em recifes”, disse Steinbach, acrescentando que muitas plataformas estavam chegando ao fim de suas vidas produtivas, criando dúvidas sobre seu destino final.

A economia potencial para a indústria petroleira com a conversão total de todas as plataformas no litoral californiano em recifes, em vez da sua remoção, seria superior a US$ 1 bilhão, segundo estimativas. Porém, a lei estabelece que as petroleiras teriam de dar aos cofres públicos pelo menos metade do dinheiro economizado, para financiar programas de conservação. Isso fez alguns grupos se manifestarem a favor do programa de conversão.

E Mary Gleason, cientista-chefe da Nature Conservancy na Califórnia, disse: “Ninguém quer ver mais derramamentos de petróleo. Entretanto, em muitos casos pode fazer mais sentido e provocar mais benefícios ambientais se pudéssemos ter uma desativação parcial e usar o custo economizado para financiar mais gestão e conservação do oceano, preenchendo as lacunas de fundos importantes que temos no estado para administrar os recursos oceânicos”.

Fonte: Bol.com.br

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *