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Primeiro show dos Rolling Stones em Cuba reaviva memórias do rock

Fã aguarda início do show dos Rolling Stones em Havana, Cuba, neste 24 de março. Foto: Rodrigo Arangua/AFP
Fã aguarda início do show dos Rolling Stones em Havana, Cuba, neste 24 de março. Foto: Rodrigo Arangua/AFP

Quando os Rolling Stones tocarem pela primeira vez em Cuba, nesta sexta-feira, o som levará à loucura um público estimado em até um milhão de pessoas – uma situação muito diferente daquela vivida por Ricardo Gutiérrez, que ouvia rock escondido nos anos 1980.

“Eu me trancava em um quarto e colocava o volume bem baixinho. Não podia deixar que ninguém soubesse o que estava fazendo”, lembra Gutiérrez, que foi militar e agora dirige um táxi em Havana. A apresentação dos Rolling Stones, três dias depois da histórica visita do presidente americano, Barack Obama, a Havana, é muito mais do que um mero show de rock and roll para Cuba.

Alguns, um pouco em tom de brincadeira, se perguntam quais dos dois acontecimentos marcará mais a história. O governo comunista reprimiu a música em inglês nos anos 1960 e 1970, por considerá-la um “desvio ideológico” e uma arma do imperialismo ianque. Embora não haja mais estas restrições, Cuba parece perdida no tempo sobre o que diz respeito ao rock, assim como em tantas outras coisas.

“Os Rolling Stones em Cuba parece um sonho”, diz Eddi Escobar, de 45 anos, fundador do Yellow Submarine, um dos poucos locais onde se ouve rock ao vivo em Havana. Escobar lembra dos tempos em que, escondido, sintonizava as frequências da rádio comercial americana para ouvir os Stones, Led Zeppelin e Deep Purple.

“Espero que o rock ajude a nos abrir a todo o resto: a política, a economia, a internet… Temos 20 anos de atraso em absolutamente tudo. A música é uma porta, uma porta aberta à mudança”, diz.

Caminho pedregoso

[embedded content]O show dos Stones, que acabam de fazer uma longa turnê pela América Latina, será grátis em Havana. Muito poucos poderiam ir se cobrassem pelos ingressos.

Estima-se que meio milhão de pessoas irá ao show no complexo Ciudad Deportiva, e com as pessoas que estarão nas ruas vizinhas, os espectadores podem chegar a um milhão, um número enorme para este país de 11 milhões de habitantes.

Parte da atração será a novidade, pois em Cuba houve muito poucos shows internacionais maciços. Houve um tempo em que os obstáculos eram ideológicos, atualmente são financeiros e logísticos. O embargo americano à ilha, apesar da mensagem de paz de Obama, se mantém de pé.

Para o show foram trazidos a Cuba 61 contêineres em um Boeing 747, declararam os organizadores à revista Billboard, o que dá uma ideia das dificuldades que os roqueiros cubanos precisam enfrentar.

“Tivemos muita dificuldade para conseguir o equipamento”, diz David Yabor, vocalista de 33 anos do grupo Aire Libre, enquanto se prepara para se apresentar no Yellow Submarine. “Não é fácil conseguir equipamento profissional. Não há lojas onde comprar guitarras, amplificadores ou microfones”, enumera.

É difícil, inclusive, conseguir simples discos. Não há nenhuma possibilidade de entrar no iTunes, nem em lojas online de música. O acesso, muito limitado, à internet e o embargo tornam praticamente impossível aos cubanos sequer baixar os aplicativos.

As lojas estatais de música só vendem produções cubanas. Para outros estilos, os cubanos costumam ir às lojas de discos piratas.

Geração perdida

 (Foto: Rodrigo Arangua/AFP)

Embora o show dos Rolling Stones tenha sido promovido na TV estatal, não há cartazes nas ruas. Mas há uma geração que não precisará de anúncios publicitários para chegar ao show – caso de Eduardo González, de 51 anos, que ainda lembra dos dias quando, clandestinamente, trocava discos de vinil e cassetes com seus amigos.

Perguntado se considera mais importante a visita de Obama ou o show dos Stones, González responde mostrando a mão: “O que é mais importante, este dedo ou aquele?”.

No entanto, seu contemporâneo, Gutiérrez, não assistirá ao show. Apesar da grande paixão que sentiu pelo rock, ver os quatro astros britânicos já envelhecidos não o anima. “É tarde demais. Agora nos trazem uns Rolling Stones velhos, mas quando realmente eram eles, não nos permitiram vê-los”, lamenta, amargurado. “Perdemos o trem”, conclui.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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