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Relançado 200 anos após primeira edição, clássico do feminismo reacende debates

A Revolução Francesa, no século 18, foi palco dos debates ideológicos entre Mary, autora do livro, e pensadores contemporâneos. Foto: Domínio público/Divulgação
A Revolução Francesa, no século 18, foi palco dos debates ideológicos entre Mary, autora do livro, e pensadores contemporâneos. Foto: Domínio público/Divulgação

Os corpetes pressionados em volta do tronco das mulheres do século 18 refletiam, na moda, a opressão à qual elas estavam submetidas. Orientadas sobre como fazer reverências com elegância e cultivar gestos graciosos antes mesmo de aprenderem a ler, as damas se entregavam à maternidade e aos cuidados com a casa e a família desde a mocidade. À educação ascética que lhes era ofertada, geralmente em conventos, somava-se o dever de constituir bom casamento – sendo estes, além da beleza, os únicos meios de ascenderem socialmente. Na contramão da sociedade francesa daquela época, porém, uma inglesa também reprimida por corpetes e regras de etiqueta rigorosas, fortalecida na adversidade, confrontaria pensadores como o filósofo Jean-Jacques Rousseau e o poeta Alexander Pope a fim de reivindicar a igualdade entre os gêneros em obra revolucionária, embrião do movimento feminista.

Ao se debruçar sobre os papéis, Mary Wollstonecraft, a autora, pretendia tornar pública resposta inflamada a relatório remetido à Assembleia Nacional – o documento, redigido pelo diplomata Talleyrand-Périgord, desencorajava a educação formal das mulheres, reforçando a exclusão destas na Constituição Francesa de 1791. Foi como, três anos após a Revolução Francesa, ela assinou o vanguardista Uma reivindicação pelos direitos da mulher (do original A Vindication of the Rights of Woman: with strictures on political and moral subjects), em 1792. Dois séculos separam a publicação original do relançamento encartado neste mês pela editora Boitempo, sob o título Reivindicação dos direitos da mulher. O intervalo foi suficiente para conquistas básicas das mulheres, como o direito ao voto e a inserção formalizada no mercado de trabalho, mas não dirimiu desigualdades. “É hora de efetuar uma revolução nos modos das mulheres – hora de devolver-lhes a igualdade perdida – e fazê-las, como parte da espécie humana, trabalhar reformando a si mesmas para reformar o mundo”, escreve Mary em sua obra-prima. Essa hora não seria, ainda, agora?

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Para a escritora e socióloga Maria Lygia Quartim de Moraes, que assina o prefácio da nova publicação, apesar da distância histórica que diferencia a situação das mulheres de hoje em relação à realidade de Mary Wollstonecraft, a luta pela igualdade de gêneros continua atual. “É espantoso constatar como a desqualificação das reivindicações das mulheres hoje, como ontem, passa pela acusação de que são ‘mal amadas’, ‘machonas’. E muitas mulheres negam as feministas com medo de, dessa forma, serem rotuladas”, pontua Maria Lygia. Corrompido pelo machismo, o gênero feminino é usado, ainda nos dias atuais, como ofensa: ataca-se a mulher pela sua condição de mulher – como fosse algo limitante – e, frequentemente, sob acusação de promiscuidade. Tomando por exemplo protestos políticos, como os que espocam no Brasil nos últimos anos, homens em cargos públicos são diminuídos em seu intelecto ou têm princípios morais postos em dúvida, enquanto mulheres são afrontadas por questões diretamente ligadas ao gênero e à sexualidade. “Mas se os sexos realmente têm de viver em estado de guerra, se a natureza assim o decidiu, que ajam com nobreza”, diria Mary.

Em Pernambuco, o relançamento do livro regozija feministas de diferentes gerações. Para a socióloga e pesquisadora Maria Betânia Ávila, pesquisadora do S.O.S Corpo e membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, a leitura da obra é fundamental para compreender a construção histórica do feminismo. “Hoje, como antes, há perspectivas diferentes dentro do feminismo, correntes mais críticas, outras menos, que promovem ações articuladas entre si. Qualquer movimento social, para ser democrático, precisa acolher a pluralidade de pensamentos”, pontua Betânia, que defende o conhecimento acerca do nascimento do feminismo como ferramenta para desconstruir preconceitos em torno do movimento.

Coletivo Vaca Profana promove debates e eventos culturais com bandeira feminista no Recife. Foto: Beto Figueiroa/Divulgação
Coletivo Vaca Profana promove debates e eventos culturais com bandeira feminista no Recife. Foto: Beto Figueiroa/Divulgação

A conterrânea Dandara Pagu, uma das líderes do coletivo feminista Vaca Profana, lançado no Recife neste mês, concorda: “Embora Simone [de Beauvoir] seja a mais conhecida entre as autoras feministas, até por ser mais popular, devemos buscar todas as fontes. Foi criado o estigma da mulher chata com sovaco cabeludo, e precisamos lutar contra isso o tempo todo. Queremos desfazer essa ideia de que as feministas são loucas, mal amadas, e a informação através da literatura, da arte, é  fundamental”, pondera. “Mesmo na bolha das mulheres brancas de classe média e alta, ainda há uma série de cerceamentos à liberdade das mulheres, como quando se diz que aquelas que passam a lutar por direitos iguais se tornam ‘masculinizadas’. No livro, Mary fala bastante sobre como toda essa ‘delicadeza feminina’ foi sendo imposta socialmente, e demandada pelos homens, quando as mulheres, a não ser pela criação, são tão livres como eles”, opina Bibiana Leme, editora da Boitempo.

Além de notas da autora e da tradutora, a nova edição de Reivindicação dos direitos da mulher (256 páginas, R$ 53) traz cronologia da vida e obra de Mary Wollstonecraft  e quadrinhos de Fred Van Lente (adaptação) e Ryan Dunlavey (arte), além de texto da historiadora e militante Diana Assunção. “Mesmo aqui no Brasil, onde a partir da primeira década do século 21 o nível de escolaridade formal das mulheres ultrapassou o dos homens, no mercado de trabalho elas ainda recebem menos do que eles… É uma discussão que se iniciou no século 18 e, espantosamente, ainda não está superada.”

>> SERVIÇO

Reivindicação dos direitos da mulher
Editora Boitempo
256 páginas, R$ 53>> ONTEM x HOJE

Educação doméstica
ONTEM:
“Desde a infância diz-se às mulheres, e elas aprendem pelo exemplo das mães, que um pouco de conhecimento da fraqueza humana, uma espécie de astúcia, um temperamento suave, uma obediência exterior e uma atenção escrupulosa a um conceito pueril de decoro farão com que elas obtenham a proteção do homem; e, se forem belas, todo o resto é desnecessário por, pelo menos, vinte anos de sua vida. (…) Como nos insultam grosseiramente aqueles que assim nos aconselham a nos tornarmos dóceis animais domésticos!”

HOJE:
Coletivos feministas e blogs dedicados à encorajar a igualdade entre os gêneros incentivam a educação doméstica de meninos a fim de conscientizá-los sobre o machismo e, desde cedo, não culpabilizar as mulheres pelo assédio. Campanhas encorajam meninos e meninas a escolherem os próprios brinquedos sem limitação de gênero. As expressões “coisa de menina” e “coisa de menino” vêm sendo abolidas, inclusive em campanhas de marketing.  

Homenagens
ONTEM:
“Exaltadas por sua inferioridade (o que soa como contradição), elas exigem homenagem constante como mulheres, ainda que a experiência devesse ensiná-las que os homens que se vangloriam de conceder esse respeito arbitrário e insolente ao sexo feminino, da mesma forma, são os mais inclinados a tiranizá-lo e a desprezar a própria fragilidade que acalentam.”

HOJE: No Dia Internacional da Mulher, festejado em 8 de março, a frase “não me dê flores” inundou as redes sociais. A campanha visa pleitear direitos iguais para homens e mulheres, combater a violência e o feminicídio, requerer melhores condições de trabalho e “substituir” os mimos em homenagem à data pelo respeito diário a elas.  

As mulheres, na França do século 18, recebiam educação repressora, ascética. Foto: catedraismedievais.blogspot.com/Reprodução
As mulheres, na França do século 18, recebiam educação repressora, ascética. Foto: catedraismedievais.blogspot.com/Reprodução

Mercado de trabalho
ONTEM:
“Confinadas, então, em gaiolas como raça emplumada, elas não têm nada a fazer, senão enfeitar-se e exibir-se com falsa majestade, de poleiro em poleiro. É verdade que elas são providas com comida e roupa, sem que se esforcem, nem fiem; mas a saúde, a liberdade e a virtude são dadas em troca disso.”

HOJE: Embora recebam 30% menos que homens em cargos iguais, as mulheres ocuparam o mercado de trabalho, resultado de combinação de fatores econômicos, sociais e culturais – como o crescimento da industrialização, a redução das taxas de natalidade, a urbanização crescente e que facilitaram sua inserção.

Casamento
ONTEM:
“Na classe média, para dar continuidade à comparação, os homens na juventude são preparados para as profissões, e o casamento não é considerado o grande feito de sua vida; enquanto as mulheres, ao contrário, não têm outro projeto para aguçar as faculdades. Para elevar-se no mundo e ter a liberdade de correr de um prazer a outro, elas devem casar-se vantajosamente.”

HOJE: Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), que reúne informações de mais de 150 mil lares, divulgada pelo IBGE, a dupla jornada feminina (doméstica e no mercado) passou a ter cinco horas a mais em 2014. Entre 2004 e 2014, os homens viram sua jornada fora de casa passar de 44 horas semanais para 41 horas e 36 minutos – eles seguem, porém, dedicando somente dez horas semanais, em média, a afazeres domésticos. Em relação ao casamento, pesquisa realizada pela Universidade College de Londres revela que a união estável é mais benéfica para homens que para mulheres, considerando a saúde física e mental após o enlace.

>> SAIBA MAIS: A AUTORA

Mary Wollstonecraft se envolveu na Revolução Francesa e acompanhou a construção dos pilares da sociedade ocidental, debatendo publicamente com pensadores contemporâneos que pregavam a submissão das mulheres. Libertária, defendeu a emancipação feminina e o amor livre, tendo se envolvido em relações pessoais pouco convencionais para a época. Sua principal obra é Uma reivindicação pelos direitos da mulher, mas assina outros livros e ensaios. Casou-se com o filósofo e jornalista William Godwin, um dos pais do anarquismo, e morreu aos 38 anos, após dar à luz à filha Mary Wollstonecraft Godwin – que, sob o nome Mary Shelley, assinou o clássico literário Frankenstein. Após a morte de Wollstonecraft, seu marido decidiu publicar relatos autobiográficos com o título Memória, o que tornou público seu estilo de vida pouco ortodoxo e prejudicou sua reputação.

>> NÚMEROS

Elas ganham menos
De acordo com a pesquisa Mulheres e trabalho: breve análise do período 2004-2014, divulgada nesta sexta-feira pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a diferença salarial entre homens e mulheres diminuiu. O rendimento feminino ultrapassou os 70% da renda masculina, mas eles ainda ganham aproximadamente 30% a mais do que elas, nos mesmos cargos. O tempo médio de estudo das mulheres também aumentou em relação ao dos homens – 6,4 para elas e 5,3 para eles.

Elas são maioria entre inativos
Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), produzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nota-se que a população feminina é maioria entre os inativos aconomicamente – foram 26,7 milhões de inativas e 9,1 milhões de inativos em 2014. Ainda segundo os dados, quatro em cada dez mulheres estavam fora do mercado de trabalho em 2014. Na média, as mulheres recebem R$ 1.288 contra R$ 1.831 dos homens em 2014. As mulheres, porém, ganharam estabilidade no mercado. Em 2005, 59% das mulheres em idade economicamente ativa trabalhavam, passando para 56% em 2011 e 57% no último ano analisado.

Elas sofrem assédio
Segundo o Instituto Ipsos, 36% das mulheres brasileiras entrevistadas já sofreram algum tipo de assédio no trabalho, mas apenas 10% teria coragem de relatar o caso. Isso reflete, de acordo com o estudo, uma das dificuldades mais graves enfrentadas por elas no ambiente de trabalho.

>> ENTREVISTA: Maria Betânia Ávila, pesquisadora do S.O.S Corpo, militante feminista e membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher

Betânia Ávila coordena o S.O.S Corpo e integra Conselho Nacional de Direitos Humanos. Foto: Blenda Souto Maior/DP
Betânia Ávila coordena o S.O.S Corpo e integra Conselho Nacional de Direitos Humanos. Foto: Blenda Souto Maior/DP

Em linhas gerais, qual a importância da obra de Mary Wollstonecraft para o movimento feminista?
É um livro fundador, uma peça original. Ali já estão as críticas à desigualdade de gênero. Precisamos entender o contexto histórico dessa obra, escrita no final do século 18, quando as bases da cidadania ocidental estava sendo criada, e ela já pontuava como as mulheres não estavam incluídas devidamente. Mary já  expunha que homens e mulheres tinham posições e experiências sociais diferentes. É um livro muito importante para o movimento feminista e para as noções de cidadania em geral, já que a autora se envolveu com a própria Revolução Francesa, embora fosse britânica. Mary quis ir à França viver aquele momento de mudança. Ela questionava, dialogava com os principais pensadores da época. Criticava Russeau, por exemplo, em relação à educação formal das mulheres.

Em relação à educação, um dos pontos principais entre os pleitos de Reivindicação dos direitos da mulher, como você vê essa questão na atualidade?
A questão da educação permanece como uma desigualdade. Passados dois séculos, podemos afirmar que a questão da educação é ainda mais profunda, vai além da desigualdade de gêneros. É preciso lembrarmos, ainda, a diferença na divisão de tarefas, de trabalho. O trabalho doméstico continua reservado, na maioria dos casos, às mulheres. O trabalho reprodutivo cabe a elas, o que ainda dificulta, muitas vezes, o acesso delas à educação. São coisas associadas.

Quais demandas, entre as escritas por Mary, permanecem mais atuais? Se o livro fosse escrito e publicado hoje em dia, quais seriam os pleitos?
Outros livros estão sendo escritos hoje, muito bons também, então prefiro não transportá-lo para o presente. Reivindicação tem seu peso naquele momento histórico. Hoje, não são apenas reivindicações que levem a uma inserção, como pleiteado ali. É preciso reestruturar o mercado de trabalho, o mundo do trabalho, para que homens e mulheres tenham condições iguais. É muito importante estarmos atentas em relação às reivindicações de trabalho, salário, direitos sociais, previdência. É super importante também a criação de creches, por exemplo. Todo o processo de discussão política e ideológica em relação ao trabalho doméstico precisa ser revisto. As visões se tornaram mais complexas agora, no século 21. O movimento feminista defende, hoje, uma reforma do sistema político. Porque no modelo atual é impossível uma participação igualitária das mulheres. Por si só, ele é um sistema excludente. Não é suficiente uma reforma eleitoral. É preciso modificar o sistema, fazer rupturas. A nossa capacidade crítica, nossa consciência política e social estão diretamente relacionadas à época em que vivemos.

Há várias obras consideradas fundamentais ao entendimento do movimento feminista. Poderia recomendar algumas?
Há muitas, especialmente em literatura sociológica, histórica. Recomendo a leitura das obras de Heleieth Saffioti socióloga e militante feminista brasileira e de Lélia Gonzalez, antropóloga brasileira e uma das precursoras do feminismo negro. No S.O.S Corpo, também publicamos anualmente o Caderno de Críticas Feministas, distribuído gratuitamente na sede do S.O.S (Rua Real da Torre, 593, Madalena ou www.soscorpo.org.br), no qual traduzimos textos estrangeiros e reunimos artigos acadêmicos e opinativos sobre questões atuais, como a Marcha das Margaridas e o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas. Priorizamos produções feministas latinas, já que, embora o feminismo deva se articular internacionalmente, a América Latina é nosso contexto, ponto de partida.

>> PARA LER

Um teto todo seu, Virginia Woolf (Nova Fronteira, R$ 34)
Na obra, Virginia Woolf traça um panorama da presença feminina na literatura em relação à autoria das obras. Uma das principais conclusões do livro diz que se Shakespeare tivesse uma irmã tão talentosa quanto ele, ela não teria a mesma fama, nem reconhecimento. Ela reconhece que as escritoras só poderiam se desenvolver com renda própria e um teto seu.

O segundo sexo, Simone de Beauvoir (Nova Fronteira, R$ 59,90)
Lançado nos anos 1940, o livro traz a célebre frase: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, e é considerado um pioneiro nos estudos de gênero. A filósofa existencialista parte da pergunta “o que é uma mulher?” para desvendar como e por que a mulher ocupou a posição de “segundo sexo” em diferentes sociedades.

Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras, R$ 14,90)
No ensaio, a nigeriana Adichie parte da experiência pessoal para denunciar o quão distantes estamos da igualdade entre gêneros, que seria ideal, conforme ela demonstra no texto, para mulheres e homens. Ela propõe a libertação de meninas da expectativa alheia e de meninos em relação aos estereotipos de masculinidade. Ela se classifica como “feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens.”

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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