Últimas

Sete em cada dez crianças com microcefalia também podem ter problemas de audição

Os olhos de Davi, cinco meses, estão focados na direção de onde vem um barulho desconhecido. “É de água! É do mar!”, balbuciam as vozes de algumas pessoas na sala, enquanto o bebê de cinco meses segue prestando atenção ao objeto. De repente, o aparelho sonoro é deslocado. A criança acompanha. A mãe Milena Carneiro, 28 anos, e outras se surpreendem, sorriem e continuam a tentar descobrir do que é exatamente aquele som. Estão todas na sala de musicoterapia do Centro Especializado em Reabilitação da Fundação Altino Ventura (FAV). A terapia com música é uma das estratégias de estimulação precoce que estão sendo aplicadas junto aos bebês com microcefalia em Pernambuco.

Estudo recente realizado com 35 crianças, coordenado pela Sociedade Brasileira de Genética e publicado pelo Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC), mostrou que a microcefalia é severa em 71% dos casos. Isso implica dizer que as crianças podem ter complicações oculares, convulsões, danos musculares e também problemas de audição. Pesquisas são conduzidas em todo o país, a partir de testes de orelhinha, para verificar o grau de comprometimento auditivo dessas crianças. Já há registros, por exemplo, de surdez associadas aos quadros investigados.

A musicoterapia é desenvolvida há um mês no Recife. Uma vez por semana, mães e crianças participam de uma sessão. A atividade tem como objetivos auxiliar na identificação de intercorrências auditivas e iniciar a estimulação daqueles bebês nos quais o problema já foi identificado em exames prévios.
“Ainda que a criança tenha alguma deficiência, é possível fazer o trabalho, pois som é movimento. Melhora a linguagem, ajuda na compreensão da palavra que, a princípio, são sons. No futuro, ela irá aprender com a repetição das músicas. Isso trabalha o aparelho neurológico, o cognitivo e a memória”, explicou a psicológa e musicoterapeuta da FAV Eliane Teles.

A sonoridade é o que existe de mais seguro ao nascer, já que é o primeiro contato com o mundo exterior ao corpo materno. “O primeiro sentido é o auditivo. Há um contato com os batimentos cardíacos da mãe, com o fluxo sanguíneo, o som das vísceras”, acrescenta Eliane Teles. É nesta explicação onde reside o motivo para o som prender a atenção e também tranquilizar os bebês, outro objetivo da musicoterapia aplicada aos meninos e meninas com a malformação.

A princípio, o grupo trabalha com instrumentos que reproduzem sons isolados. “Meu filho fez teste de orelhinha, mas falhou. Os médicos dizem que pode ter alguma perda de audição ou inflamação. Então acho importante estimular. É bom ver aquele sonzinho chamando a atenção dele”, explicou Milena, que só descobriu a microcefalia do filho dois meses depois do parto. “No hospital não me disseram nada. Em uma consulta depois, o médico chegou a mencionar. Mas só quando eu vi na TV, peguei os documentos, encontrei a medida do perímetro cefálico, é que associei uma coisa à outra”, lembra a atendente.

Dever de casa
Além de participar da atividade na fundação, as mães são orientadas a dar continuidade ao tratamento em casa. Para trabalhar a audição, elas aprendem a inserir sementes em garrafas pet para balançar perto das crianças. Também recebem dicas de aplicativos de celular que reproduzem sons de água, animais, objetos.

A música é também uma forma da auxiliar de padeiro Jaqueline Souza, 25, acalmar o pequeno Daniel, de 4 meses. A mãe descobriu a microcefalia ainda na fase intraútero. Um novo baque para quem engravidou um mês após concluir o tratamento de quimioterapia contra um câncer. A audição do pequeno falha do lado direito, atestaram os exames. “Bato palmas, ele se assuta. Estou conversando, ele presta atenção. Coloco música de ninar, ele dorme e tudo com a musiquinha”, diz, satisfeita, Jaqueline.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *