Teatro dos anos 30 e 40 é tema de pesquisa lançada hoje no Teatro de Santa Isabel

Pesquisador teatral Leidson Ferraz é o responsável pela pesquisa Um teatro quase esquecido - painel das décadas de 1930 e 1940 no Recife. Crédito: Renata Pires/Divulgação
Pesquisador teatral Leidson Ferraz é o responsável pela pesquisa Um teatro quase esquecido – painel das décadas de 1930 e 1940 no Recife. Crédito: Renata Pires/Divulgação

Um dos períodos mais férteis – e pouco lembrados – do teatro pernambucano ganha luz por meio do jornalista e pesquisador Leidson Ferraz, que lança, às 19h30 de hoje, seu novo projeto: Um teatro quase esquecido – painel das décadas de 1930 e 1940 no Recife. As informações reunidas dessas duas décadas estão em um DVD de dados que contém mais de 500 páginas e de 800 imagens raras. O evento de lançamento acontece no Teatro de Santa Isabel, que abrigou grande parte dos eventos teatrais mais importantes desses vinte anos contemplados no estudo. Um deles foi especialmente marcante: a encenação de Nossa cidade, de Thornton Wilder, em 1949, que deixou o palco nu, algo impensável em Pernambuco até aquela época.

A investigação de Leidson revela um panorama teatral que ganhou uma importância grande a partir da atuação de duas figuras-chave: Samuel Campelo, fundador do grupo Gente Nossa junto com o ator Elpídio Câmara, em 1931, e Valdemar de Oliveira, que também começou por lá, mas, aos poucos, passou a se dedicar cada vez mais ao teatro amador, até fundar o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), cuja estreia aconteceu em 1941. O TAP foi, inicialmente criado como um departamento do Grupo Gente Nossa e, posteriormente, se tornou uma companhia autônoma.

O pesquisador entrou em contato com este universo no fim dos anos 2000, e a vontade de levantar mais dados sobre o período também o levou a fazer um mestrado em história na UFPE, em andamento, justamente sobre as razões pelas quais o teatro dos anos 30 ficou pouco prestigiado. “Quando li o livro de Ana Carolina Miranda sobre Samuel Campelo, fiquei encantado, pois era uma história que eu não conhecia. No entanto, meu maior interesse não era apenas o Grupo Gente Nossa, mas o entorno. Queria entender o que existia antes e o que passou a existir depois. No primeiro capítulo, por exemplo, falo dos anos 1910 e 1920, momentos em que o teatro local era muito esporádico, grupos nasciam e morriam com muita frequência e as peças, muitas vezes, eram de caráter beneficente”.

Já nos anos 30, a atuação do grupo Gente Nossa veio mudar esse panorama. Até sua dissolução, em 1942, a companhia valorizou a dramaturgia nordestina, chegando até a promover concursos, embora também montasse textos internacionais ou de dramaturgos cariocas. Já nos anos 40, o Teatro de Amadores de Pernambuco deram uma guinada conceitual e estética no teatro local, ao trazer encenadores de fora. Além deles, a pesquisa cita outros grupos, associações e grêmios dos quais não há muitos registros. “O que mais me chama a atenção é a intensa atividade nos subúrbios. Lugares como Areias, Barro, Espinheiro, Madalena e Água Fria tinham teatros, quase todos desaparecidos. Neles, havia vários coletivos teatrais”.

A pesquisa, segundo Leidson, levou dois anos para ser concluída e traz registros de jornais, programas das peças e até mesmo anúncios impressos da época, não apenas de espetáculos, para contextualizar quem entra em contato com o material. “Como sou jornalista, tenho uma atração pelo que a imprensa registrou. Vi uma gama de periódicos, e o Diario foi fundamental para mim, mas nao posso esquecer Samuel Campelo e Valdemar e Oliveira, porque eles já tinham preocupação com a memória, com a história. Eles lançaram, por exemplo, revistas e anuários”.

A discussão do teatro de décadas passadas também pode servir para se refletir sobre o presente. Uma das questões percebidas pelo pesquisador é a semelhança entre as reivindicações dos artistas de ontem e de hoje. “As dificuldades, às vezes, são muito parecidas. A ausência de financiamente é algo gritante. Por diversas vezes, reclamarem mais atenção do Governo Federal para o teatro. Outro gargalo é a forma de utilização dos teatros. Os artistas sempre reclamavam da prioridade que as companhias de fora tinham sobre a produção local. Ausência de palco é algo que os artistas locais sofrem há décadas”.

SAIBA MAIS

+COMO ACHAR
Os DVDs não vão ser vendidos, mas doados a bibliotecas e instituições de pesquisa e memória das artes cênicas de Pernambuco, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Todo o conteúdo disponível no trabalho vai estar disponível ao público para pesquisa em dois sites: o do Teatro de Santa Isabel (www.teatrosantaisabel.com.br) e da Fundarpe (www.fundarpe.pe.gov.br).

+OUTROS PROJETOS
O primeiro trabalho de Leidson relacionado à investigação do teatro local foi a coleção de quatro livros intitulada Memórias da Cena Pernambucana, cujo primeiro volume foi realizado em parceria com Wellington Júnior e Rodrigo Dourado.  Em 2014, foi lançada a pesquisa Teatro para Crianças no Recife – 60 Anos de História no Século XX e, em 2015, o pesquisador editou o livro Panorama do Teatro para Crianças em Pernambuco (2000-2010). Há ainda outra pesquisa em andamento, com o nome Teatro tem programa!, que já coletou mais de 600 programas de espetáculos em cartaz no Recife ao longo do século passado.

SERVIÇO
Lançamento do DVD Um teatro quase esquecido – painel das décadas de 1930 e 1940 no Recife
Quando: Hoje, às 19h30
Onde: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, s/n, Santo Antônio
Ingresso: Gratuito, com distribuição de senhas 1h antes

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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