"Temos de acalmar os ânimos", diz Antunes Filho ao estrear "Blanche"

Antunes Filho, 86, demonstra estar com a cabeça efervescente. Um dos grandes diretores da história do teatro brasileiro estreia na próxima quarta-feira (23), em São Paulo, “Blanche”, sua versão para o clássico “Um Bonde Chamado Desejo” (1947), do dramaturgo norte-americano Tennessee Williams (1911-1983), imortalizado no cinema com o filme de Elia Kazan, com Vivien Leigh e Marlon Brando.

O nome da versão de Antunes para o clássico remete à protagonista Blanche DuBois (Marcos de Andrade), aristocrata que perde os bens e é obrigada a morar com a irmã, Stella (Andressa Cabral), recém-casada com um operário imigrante da periferia, Stanley (Felipe Hofstatter), com quem Blanche se enfrenta.

A obra sempre ganhou leitura política, com Blanche representando uma aristocracia decadente que resiste à ascensão do trabalhador industrial. Questionado sobre a chegada da peça em um contexto de forte tensão política no Brasil, Antunes Filho é categórico em suas convicções democráticas.

“Essa realidade que está aí, essa aristocracia está aí e quer conseguir as coisas, né? Pá, pá, pá, pá… Mas temos que acalmar os ânimos no país. Eu acredito no voto, na maioria, é nisso que eu acredito. Não abro mão disso. Sou democrata”, declara.

“Não estou discutindo os Estados Unidos. Quero falar da Blanche como um ser humano espezinhado, e nesse ponto estou do lado dela. Essa ação ferrada do homem contra a qual eu luto sempre. Tem o negro, a mulher, o homossexual, o transgênero. Estou discutindo os perseguidos, os maltratados pela sociedade”, afirma.

Para o diretor, “as pessoas vão pisando sobre as outras, em passos de ganso: você ouve às vezes, por aí, na rua”. “Hoje em dia tem muito problema, todo mundo sabe o que está acontecendo. Quantas mulheres são mortas por dia? Quantos homossexuais são mortos? Então, é isso”, diz.

Blanche homem e língua imaginária

Foi o ator Marcos de Andrade quem deu a ideia de montar a peça e pediu para fazer a emblemática personagem feminina, que em 2015 deu o Prêmio APCA de melhor atriz a Maria Luísa Mendonça na versão do diretor Rafael Gomes. Antunes diz que só seguiu o fluxo. “Não determino nada, vou e acompanho. Sou um bom acompanhante”, define.

Bob Sousa

O diretor teatral Antunes Filho

Conta estar satisfeito. “Posso falar uma coisa? Acho que o melhor elenco do CPT (Centro de Pesquisa Teatral, que Antunes comanda no Sesc Consolação) até hoje é esse aí. Não posso falar é, porque isso é presunçoso e eles podem ficar orgulhosos demais e aí começa a decadência”, conta, aos risos.

Apesar de usar o texto de Williams como base criativa, a peça não tem falas inteligíveis. É toda dita em fonemol, uma língua imaginária, inventada pelo inconsciente dos atores, o que tira o espectador do lugar de conforto e o obriga a “agir como DJ, criando sua própria dramaturgia particular”, segundo o diretor.

“O espetáculo solicita de cada espectador uma dramaturgia original. Se possível até com um bigode colocado na Monalisa”, define.

Consumo e “atitude franciscana”

Para Antunes, “Blanche”, é “uma coisa pequena, menor, uma experiência”, uma “tentativa de alguma coisa, de enfrentar alguma coisa”, o que considera “fundamental”.

“É importante nos chamarmos à responsabilidade de fazer coisas mais significativas. O mundo era só globalizado, agora é consumista, entrou na roda do consumo. Nos atrai e vamos nessa vida medonha, viajar para Miami e Nova York, Paris, Londres, vai e volta, sair nas colunas sociais”.

“São coisas que eu recuso em princípio. Porque para você se dedicar a alguma coisa você precisa se dedicar mesmo, na real. Você quando está tomando banho é com você, quando se olha no espelho, é com você. E essas pessoas consumistas se esqueceram delas, se olham no espelho e não veem nada”, afirma.

Sobre fazer Tennessee Williams depois de Thornton Wilder (1897-1975), de quem montou recentemente “Nossa Cidade”, diz: “Estou contente de fazer as duas mais importantes obras dramáticas americanas, as mais montadas no mundo sempre. Não é porque eu quis ser americano. Nada disso. Foi uma coincidência”.

Se “Nossa Cidade” ocupou o Teatro Anchieta, com 245 lugares, “Blanche ocupa a pequena sala do CPT, com apenas 50 lugares. Segundo o diretor, isso é reflexo “da atitude franciscana” que leva “na vida e no teatro”.

“Queria sair dessa massa terrível do teatro comercial, do musical, do consumo. Queria fazer uma coisa para nós, para nossa cultura, para discutir o teatro”, afirma. Ele sonha que “os bons tempos” em que “o teatro era discutido” voltem.

“O teatro é uma faixa cultural muito forte e muito importante. Não pode ser só ver uma peça e depois tomar cervejinha com pizza. Nos bons tempos, a gente ia comer a pizza e tomar a cervejinha e discutia muito, e falava muito, e brigava muito”, recorda.

Talento e técnica

Para o diretor, diante da grande engrenagem teatral, o ator “precisa ficar no nível dos outros, do dramaturgo, do compositor, do cenógrafo, senão vai ficar rebaixado”. E isso, em sua visão, só se consegue com “muita técnica”.

“Porque todo mundo é artista nas últimas teorias. Se você falar que é arte é arte. Essa que é a onda hoje em dia. Eu não sei se eu gosto muito dessa onda, mas é bom como abertura, sai do encalacrado da arte moderna, que estava muito fechada. Todo mundo poder participar é extraordinário, acabar com o modernismo, porque estava tudo muito chato, mas tinha coisas tão boas…”, pondera.

Para trabalhar com Antunes Filho é “preciso talento”, ele diz, mas que precisa ser lapidado. Ele confessa errar na escolha muitas vezes. “Às vezes, é um equívoco desgraçado, o brilho do olho diz que sim e é não. Então você perde muito tempo”, admite.

Atores escolhidos, ele os ensina técnica. “Pode parecer uma bobagem, mas sem técnica você não consegue se expressar no teatro”.

“Hoje em dia não importa se você tem técnica ou não. É tudo narrado, você decora e fala, olha que bonito, e você vê e é uma porcaria. Está uma onda de muito musical e muito monólogo, porque é econômico, né? Só custa duas pizzas. É muito chato porque as pessoas que estão fazendo esses monólogos na maioria não têm técnica para segurar a plateia, não tem a manha”, diz.

Por isso, para Antunes, “paixão não basta”. “Senão, sai do nível artístico. As pessoas vão no palco com a paixão e as pessoas se iludem. Se você fica tocando tambor por uma hora, a plateia fica desperta e gosta. Porque hoje tudo se gosta, gostar quer dizer participar do ato. Só é bom quando participo”.

Serviço:

“Blanche”
Quando:
qua., qui. e sex.: 20h. Sáb. e feriados: 17h (exceto 25 de março). 110 min. De 23/3 a 25/6/2016
Onde: Espaço CPT – Sesc Consolação, 7º andar (r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo)
Informações: 0/xx11/3234-3000
Quanto: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia) e R$ 9 (credencial plena do Sesc)
Classificação indicativa: 14 anos

Fonte: Bol.com.br

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