Últimas

"Toda liberação de radioatividade gera mutações"

Fukushima completa cinco anos, Tchernobil, 30. As regiões evacuadas estão povoadas por monstros mutantes? A DW entrevistou especialista americano sobre efeitos dos desastres nucleares na flora e fauna selvagens.

Há cinco anos, a cidade japonesa de Fukushima abalava seriamente a crença na energia atômica segura, ao recordar que acidentes em reatores nucleares espalham pelo ar, solo e água quantidades enormes de radionucleotídeos, com potencial de provocar mutações genéticas em todo tipo de organismo, entre outros danos.

Trinta anos depois do desastre da central de Tchernobil, na Ucrânia, notam-se diversos graus de alteração na flora e fauna da região. Em Fukushima os efeitos mutagênicos da radioatividade estão longe de ser estudados a fundo.

A DW entrevistou a respeito o americano Timothy Mousseau, professor de ciências biológicas da Universidade de Carolina do Sul, em Colúmbia. Ele é um dos principais especialistas internacionais nos efeitos sobre as populações selvagens de aves, insetos, roedores e plantas da contaminação por radionucleotídeos de acidentes nucleares.

A “boa notícia” é que, ao contrário do que sugere a fantasia popular, dificilmente surgirão novas espécies de monstros mutantes nas áreas contaminadas. “Ao longo do tempo evolutivo, nossa expectativa é que as populações retornem ao normal, depois que o agente mutagênico desaparecer”, explica Mousseau. Por outro lado, alguns radionucleotídeos podem permanecer ativos por até milhares de anos.

DW: Há alguns anos você coletou alguns percevejos-de-malva fora do comum. Essa descoberta teve relevância?

Timothy Mousseau: Sim, esses percevejos foram realmente uma revelação. Meu parceiro de pesquisa, Anders Moller, e eu visitamos Tchernobil em 26 de abril de 2011. Estávamos caminhando na região de Pripyat, colhendo flores para examinar o pólen, quando Anders se abaixou e pegou esse inseto com marcas pretas e vermelhas. Ele disse: “Tim, olha só, é um mutante, falta uma pinta!”

A partir daí, começamos a coletar esses percevejinhos em toda parte que visitávamos, das áreas mais contaminadas na Floresta Vermelha até outras relativamente limpas em aldeias abandonadas. A certo ponto, tínhamos vários milhares desses bichinhos, e ficou bem óbvio que os padrões deformados eram muito mais frequentes nas áreas de alta contaminação.

Esta é só uma entre muitas anedotas semelhantes sobre as criaturas deformadas de Tchenobil. A cada pedra virada, encontrávamos indícios das propriedades mutagênicas da radiação na região.

Existe um limite abaixo do qual a radiação não tem efeito?

O impacto da radiação sobre as taxas de mutação, câncer e mortalidade varia muito de acordo com a espécie. Mas estatisticamente a correlação é simples: dose pequena, pequeno efeito; dose grande, grande efeito. Parece que não há um limiar abaixo do qual não ocorre nenhum efeito.

Interessante é que os organismos que vivem na natureza são muito mais sensíveis à radiação do que animais de laboratório. Expondo a doses idênticas de radiação ionizante camundongos criados em laboratório e outros que vivem em liberdade, a taxa de mortalidade entre estes últimos é oito a dez vezes maior. Isso é porque os de laboratório estão a salvo da maioria dos fatores de estresse, como frio ou fome.

Árvores e outras plantas também são afetadas?

Sim, coletamos muito pólen deformado, vimos muitas árvores disformes, também. Pinheiros costumam crescer de forma anormal, mesmo em áreas sem nenhuma contaminação por nucleotídeos. Seja por infestação com insetos ou uma geada na época errada, encontram-se anormalidades por toda parte.

Mas nas áreas contaminadas da Ucrânia temos uma correlação entre a frequência das anormalidades e o desastre de Tchernobil. As provas são bastante contundentes. Um estudo recente registra um fenômeno muito semelhante em Fukushima. As árvores lá são muito jovens, mas daqui a 30 anos provavelmente vão estar todas torcidas em nós.

Quais são os efeitos de longo prazo sobre espécies animais ou vegetais em áreas contaminadas? Seus genomas foram alterados: os mutantes vão persistir?

Bem, no longo prazo, não. A questão é que um certo grau de mutação latente ocorre constantemente em toda espécie, mesmo em áreas não contaminadas – embora em proporção muito menor do que nas zonas de acidente nuclear. Então, já foram “experimentadas” muitas variações genéticas, e a grande maioria é neutra ou ligeiramente nociva. Se uma mutação trouxesse algum benefício, ela já estaria incorporada à população.

Quer dizer que o efeito de longo prazo dos acidentes nucleares sobre a biodiversidade é nenhum?

Sim, é isso mesmo. Ao longo do tempo evolutivo, nossa expectativa é que as populações retornarão ao normal, depois que o agente mutagênico desaparecer. Os radionucleotídeos decaem, os sítios “quentes” acabam esfriando, as mutações voltam a diminuir de frequência, e populações animais e vegetais saudáveis de áreas adjacentes recolonizam os locais. Assim, retorna o status quo anterior- a menos que tenham ocorrido mutações que favorecem em caráter permanente a aptidão à sobrevivência. Mas isso é muito raro.

Algumas mutações podem persistir por um tempo, se eram adaptativas durante a fase radioativa. Por exemplo, a seleção prefere os espécimes cujas células produzem uma carga mais alta de antioxidantes. Isso os torna mais resistentes aos efeitos da radiação iônica, mas essa proteção tem um custo metabólico e, depois que os níveis radioativos caem, a seleção natural volta a retirar da população essas variantes.

Complicado é quando mutações danosas são recessivas – ou seja, quando são necessárias duas cópias [uma para cada cromossomo, materno e paterno] para a mutação se expressar. E muitas delas entram nessa categoria. Elas podem se acumular numa população, pois não se manifestam até duas cópias se encontrarem no mesmo indivíduo.

Por isso, tais mutações recessivas podem afetar muitas gerações, mesmo depois de o agente mutagênico ter sido removido. E também, por difusão, atingir populações que nunca estiveram em contato com o mutágeno.

Ao circularem, é possível pássaros e mamíferos absorverem elementos radioativos do alimento e água em locais contaminados, e os carregarem a outras partes, assim difundindo o agente patogênico por áreas mais amplas?

Se animais transportam radionuclídeos? Sim! Num estudo que fiz anos atrás mostrei que, a cada ano, quantidades significativas deles são exportadas por aves. Mas aparentemente é improvável que a quantidade seja suficiente para causar efeitos de saúde mesuráveis – a menos que se comam as aves.

Sabe-se que alguns moradores de fora da Zona de Exclusão de Tchernobil receberam doses de radiação bem significativas por caçar os javalis saídos da área isolada.

Por quanto tempo as zonas contaminadas em torno de Tchernobil e Fukushima permanecerão mutagênicas e perigosas?

Tchernobil foi um incêndio nuclear, e a fissão continuou ininterruptamente por dez dias, com a disseminação de isótopos de estrôncio, urânio e plutônio pela região. Esses elementos têm meias-vidas [período em que a radioatividade se reduz à metade] longas, portanto muitas áreas permanecerão nocivas por séculos, até mesmo milênios.

Fukushima foi basicamente um incidente envolvendo césio, elemento cujos radionucleotídeos têm uma meia-vida relativamente breve. Então a área deverá se descontaminar naturalmente dentro de décadas, no máximo alguns séculos.

Fonte: Bol.com.br

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *