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Tribuna SBTpedia: A TV que tem torcida, por Rafael Fialho

A TV que tem Torcida

Por Rafael Fialho* (rafaelbfialho@gmail.com)

Desde o fim do ano passado pairava uma dúvida e uma esperança de mais uma surpresa para os fãs do SBT. Bastaram sair algumas fotos de bastidores da nova vinheta para que começasse a especulação sobre como ela seria. Afinal, em 2016 o canal completa 35 anos, e merece uma festa à altura. Depois de alguns meses, a confirmação: estava por vir a nova peça institucional, celebrando o engajamento e a fidelidade alcançados pelo SBT junto ao seu público. O mote da campanha seria “A TV que tem torcida”, bem pertinente principalmente porque o fenômeno dos SBTistas fora reconhecido até mesmo por Silvio Santos no último Troféu Imprensa. Já não era sem tempo.

 Frame da nova vinheta. Reprodução/SBT

A iniciativa é extremamente louvável, já que o neologismo “SBTista” circula nas redes há vários anos. Se há algo de que o SBT pode se vangloriar nesses últimos anos é justamente a consolidação da fidelização de seu público-alvo, potencializado pelas redes sociais. Tentei mostrar com minha pesquisa de monografia que os SBTistas existem, e são uma realidade incomum no rol de empresas do ramo televisivo. Ou você já ouviu falar de “Globistas”? Demorou, mas finalmente o público cativo da empresa foi referenciado de forma clara – embora ainda que não de maneira direta – em não só uma vinheta, mas em um posicionamento para todo o ano de 2016.

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Vinheta atual – Reprodução/SBT

Porém, se a ideia era ótima, a execução não se saiu tão bem assim. A começar pelo roteiro da vinheta; não há uma fala sequer, ou nenhuma música que explicite os valores que o SBT celebra. Os fãs mais saudosos vão se lembrar das clássicas vinhetas produzidas pelo mestre Mário Lúcio de Freitas, que contavam com versões nacionais para peças da ABC, CBS e NBC; nelas, era possível ouvir canções empolgantes, animadas e marcantes, com refrões como “Quem procura acha aqui”, “Se liga no SBT” ou “Vem que é bom”. E a fórmula não se esgotou com o passar dos anos, já que até mesmo a última peça promocional foi recebida com muita simpatia ao cantar uma leitura brasileira de “Happy”.

Era preciso explicar melhor para o telespectador o conceito da campanha, pois nem todo mundo conhece essa história de fãs de um canal de televisão. Nada que uma locução em off não resolvesse, com um texto bem sentimental falando da amizade que existe entre o público e o canal do Silvio. Aproximar a fidelização da audiência à ideia de torcida de futebol é realmente um acerto; fica didático e perto da realidade brasileira, na qual é mais fácil entender a paixão por um time do que por uma TV. Só que essa analogia deveria ter sido introduzida de um jeito mais autoexplicativo, já que o SBT não tem tradição em transmissões esportivas, e usar do universo do futebol nesse caso pode causar alguma confusão. Alguém desavisado poderia, por exemplo, se perguntar: “Ué, Silvio Santos vai passar jogo agora?”.

Também não acho que referenciar diretamente o público da internet seja um caminho mais viável. Imagine uma vinheta super tecnológica falando de tweets, menções e engajamento na web. Como reagiriam as doninhas seguidoras do Silvio Santos, tão SBTistas quanto o adolescente que faz seu blog sobre a emissora? Talvez fosse mais eficaz apostar na ligação que existe entre a trajetória da TV e a história pessoal dos telespectadores, algo que toca todas as faixas etárias ou classes sociais. Já mostrei em um estudo o quanto o apelo à memória é essencial para manter a proximidade entre o SBT e seu público. Assim, dos mais novos aos mais velhos, todo mundo tem uma história pra contar com o canal. Foi o que fez um vídeo comemorativo do dia da família, que associa as famílias brasileiras com personagens da emissora:

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Vinheta comemorativa do Dia da Família. Reprodução/SBT

 

O próprio SBT já usou o recurso no pacote de vinhetas de outros anos, quando trouxe histórias de personalidades e do próprio elenco relacionadas ao canal; agora era hora de revitalizar a ideia trazendo depoimentos de anônimos. A nomenclatura “SBTista” também poderia ser utilizada explicitamente; é algo novo, que chama atenção, e que poderia gerar um buzz ao despertar o senso de fã do SBT dentro de todos. Algo na linha do “Descubra o SBTista que há em você”. 

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Vinheta que associa a história do apresentador com a história do SBT. Reprodução/SBT

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Vinheta sobre a ligação de anônimos com a emissora. Reprodução/SBT.

 

Nesse sentido, a nova campanha da TV Cultura foi mais perspicaz: com o slogan #TVCulturaSouFã, a emissora celebra a ligação afetiva com o público. A propósito, somente a Cultura pode figurar no ranking de admiração dos brasileiros ao lado do SBT, dada a proximidade que criou principalmente com a safra de produções infantis dos anos 80 e 90.

Alguns insistiram em considerar a vinheta do SBT como “brega”, já que usa e abusa do chroma key e traz o elenco do canal exagerado, feliz demais. Se ela é brega, que bom! Os excessos de cores, sons e imagens vistos no SBT contribuíram ao longo dos anos por construir uma identidade muito forte que propõe uma interação pelas vias do afeto, o que acaba por aproximar, fidelizar e humanizar a relação com a audiência. Não é por acaso que, só nos últimos meses, a emissora ganhou prêmios por respeitar o telespectador e por ser a segunda mais admirada entre produtores de conteúdo. Por isso, espera-se que as vinhetas continuem seguindo esse estilo, colocando o elenco para interagir tal qual uma grande família, gerando o senso de familiaridade e intimidade que é tão caro para qualquer rede de TV.

Ao contrário de Mauricio Stycer, cuja análise sobre a nova campanha não foi muito bem recebida pelos SBTistas, acredito que insistir na torcida é sim uma saída criativa, que só faz aumentar a simpatia pelo SBT – e nem é inédita, se formos lembrar das vinhetas que diziam “Obrigado”, “SBT, a TV que agradece o seu carinho” e aquela clássica em que Silvio sai do televisor para cumprimentar e agradecer representantes de algumas as regiões do país. A escolha do SBT é honesta e lógica, já que a empresa goza de uma audiência nem sempre “comemorável”, mas possui uma forte fidelização Contudo, a ideia merece ser melhor trabalhada, fortalecendo os laços com o público e despertando novos membros dessa fiel torcida. Até porque todo mundo tem um pouco de SBTista dentro de si.

* Jornalista, Rafael Fialho é doutorando em Comunicação Social pela UFMG e fez do SBT seu objeto de estudo: pesquisa o canal há tempo, tendo se dedicado a pesquisas sobre os SBTistas, Silvio Santos e sobre a interação da emissora com seu público a partir das vinhetas. Atualmente pesquisa a tematização da violência contra a mulher no programa Casos de Família. Escreve artigos de opinião às quartas-feiras no SBTpedia. Para conhecer seus trabalhos sobre o SBT, mandar críticas, sugestões ou trocar ideias, escreva para rafaelbfialho@gmail.com

Fonte: SBTpedia (www.sbtpedia.com.br)

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