A loucura da arte e a sanidade invisível

Cinebiografia de uma das mais importantes psiquiatras brasileiras é estrelada por Glória Pires. Foto: Vantoen Pereira Jr/Divulgação
Cinebiografia de uma das mais importantes psiquiatras brasileiras é estrelada por Glória Pires. Foto: Vantoen Pereira Jr/Divulgação

Em 1936, durante a ditadura Vargas, Nise da Silveira (1905-1999) era residente no Hospital Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro. A denúncia de uma enfermeira, que declarou que a médica possuía “literatura comunista”, levou-a para a prisão. Acusada de ser militante (embora não fosse), ficou encarcerada durante um ano e três meses.

Libertada em 1937, viveu com o marido, Mário Magalhães, numa situação de semiclandestinidade e quase penúria. Só voltou ao serviço público após ser anistiada, em 1944, mas em outro hospital carioca: o Centro Psiquiátrico Nacional, em Engenho de Dentro, onde tem início o filme Nise: O coração da loucura, de Roberto Berliner, estrelado por Glória Pires.

Não se trata de uma cinebiografia tradicional. O cineasta fez um recorte na trajetória de uma das mais importantes psiquiatras brasileiras, grande ícone da luta antimanicomial que, décadas depois, ainda não assegurou o fim dos tratamentos agressivos. Escolheu justamente o momento em que a aluna de Carl Jung, radicalmente contrária a estratégias como eletrochoque e lobotomia, resolveu utilizar a arte como terapia para esquizofrênicos.

A partir da pioneira experiência realizada por ela, surgiram, entre os clientes (termo que Nise considerava o correto para chamar os internos), nomes que despontaram na arte da época: Fernando Diniz, Carlos Pertuis, Emygdio de Barros, Adelina Gomes, Raphael Domingues, Octávio Ignácio e Lucio Noemann.

O filme, mais do que se concentrar na biografia de Nise, mostra a relação da psiquiatra com os esquizofrênicos, a importância da arte como terapia e a descoberta de artistas dos corredores das casas manicomiais. “Em um primeiro momento, pensei em fazer toda a biografia dela, mas achei que a loucura é um tema maior do que a própria história da Nise. Achei que seria melhor conhecê-la através do pensamento dos clientes. Com o tempo, cheguei ao lugar-chave desta trajetória, que é o momento em que ela volta para o hospital”, comenta Berliner.

Nise da Silveira era alagoana. Chegou ao Rio de Janeiro com 20 e poucos anos. A interpretação de Glória Pires é seca, direta, um contraponto e tanto à mulher que aparece no fim da vida, em imagem inédita tirada do material bruto da série de documentários Imagens do inconsciente, que o cineasta Leon Hirszman realizou na década de 1980. “A Nise, naquele momento inicial, precisou ser muito dura para resistir àquilo tudo (era a única contrária aos métodos utilizados no hospital). Eu queria essa dureza nela, para mostrar que ela relaxava mesmo era com os artistas. Quis também tirar o sotaque, porque, em determinado momento, ele estava virando um ruído, o próprio conteúdo”, diz Berliner.

A relação da psiquiatra com os clientes toma a maior parte da narrativa. A locação foi o mesmo hospital onde ela trabalhou na década de 1940. Hoje, a instituição leva o nome de Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira. “Apesar das deficiências, o hospital se mantém muito bem, já que há seguidores dela.” Para as filmagens, Berliner trabalhou tanto com figurantes quanto com os próprios internos do hospital. “Ficamos dois meses ensaiando lá dentro, então houve a possibilidade de nos misturarmos com eles. E isso acabou sendo fundamental para a preparação do elenco”, conta ele.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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