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Abril marca 400 anos da morte de Shakespeare e Cervantes, mestres na arte de explicar os humanos

Shakespeare e Cervantes. Fotos: Wikipedia.org/Reproduçao da Internet
Shakespeare e Cervantes. Fotos: Wikipedia.org/Reproduçao da Internet

O mês de abril marca os 400 anos da morte de dois expoentes da literatura universal, ambos dotados da habilidade de investigar as várias nuances do comportamento humano e expressá-las em textos considerados obras-primas. A partir das peças do dramaturgo inglês William Shakespeare, sobretudo as de maior peso, como Hamlet, Rei Lear e Macbeth, incontáveis estudiosos desenvolveram reflexões sobre indivíduos e sociedades. Entre eles, destaca-se o criador da psicanálise, Sigmund Freud, cujo interesse pelos personagens shakespearianos renderam 78 referências ao autor em seus escritos.

Da mesma forma, a singularidade de Dom Quixote de La Mancha, escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes e considerado por alguns como o melhor e mais importante livro já publicado, contribui de maneira única para a compreensão das ambiguidades e vicissitudes da existência.
Segundo o pesquisador Carlos Newton Júnior, Dom Quixote influenciou várias gerações de poetas, escritores, pintores, cineastas. “Você pode até não ter lido o livro, mas, se vir uma gravura, vai reconhecer os personagens. Isso demonstra como Cervantes construiu dois mitos visuais”, diz o doutor em letras e professor da UFPE.

Já Shakespeare, na opinião de Newton, tem um leque de temas relevantes abordados com maestria em suas peças, como a ânsia pelo poder e a loucura que nasce da vingança. “São dois monstros. Autores da cultura ocidental cujas leituras são obrigatórias, por serem canônicas. Por trabalharem tão bem temas universais, as obras de Cervantes e Shakespeare são supratemporais, superaram o sucesso e alcançaram o êxito”, defende o organizador do livro Poemas para Dom Quixote e Sancho (2015).

William

SHAKESPEARE

Jesus Cristo e Maomé são os únicos nomes à frente do dramaturgo William Shakespeare no ranking das figuras históricas mais relevantes da humanidade. A afirmação é cravada no livro Who’s bigger? Where historical figures really rank (em tradução livre, Quem é maior? Como ranquear personagens históricos), fruto de estudo conduzido pelos pesquisadores norte-americanos Steven Skiena, da universidade Stony Brook, em Nova York, e Charles Ward, engenheiro de software do Google. Por se tratar de uma “disputa” subjetiva, esse tipo de lista já foi feita e refeita por vários estudiosos, veículos de comunicação e, não raro, as posições são alteradas, embora ninguém ouse tirar Shakespeare do “top five”. A presença de um artista em meio a líderes religiosos, militares e políticos (personalidades como Abraham Lincoln, Napoleão Bonaparte e Adolf Hitler também constam entre os mais citados) nos dá pistas da grandiosidade da obra deixada pelo exímio contador de histórias nascido em 1564, na Inglaterra elizabetana.

Entre as muitas características a serem louvadas nas 38 peças deixadas pelo Bardo, como é conhecido, destaca-se a riqueza psicológica e existencial contida nas narrativas, motivo pelo qual seu conjunto de obras foi objeto de estudo de outros gigantes do pensamento ocidental, entre eles os filósofos Friedrich Nietzsche e Arthur Schopenhauer, o criador da psicanálise Sigmund Freud e o literato Johann Wolfgang Von Goethe. Considerada uma das maiores conhecedoras de Shakespeare no Brasil, a crítica teatral Bárbara Heliodora, falecida em 2015 aos 91 anos, costumava frisar a competência do dramaturgo para nos ajudar a compreender o ser humano. Fascinado pelos múltiplos aspectos da personalidade das pessoas, Shakespeare era capaz de analisar e apreender as minúcias dos indivíduos e de seu comportamento em sociedade.

Os mais de 800 personagens criados por ele dão conta das potencialidades dos homens e mulheres sem, no entanto, recair para julgamentos ou lições de moral. Carregado de incontestável força poética, o texto shakespeariano, conforme nos lembrava Heliodora, prefere deixar clara a responsabilidade do homem diante de suas ações e, se for o caso, mostrar as consequências. Esse fator explica, ao menos em parte, o motivo pelo qual a obra dramatúrgica de William Shakespeare não é somente a mais encenada e adaptada de todos os tempos, mas também dona de incomensurável influência em produções artísticas das mais variadas. O teatro dele criou e consolidou arquétipos revisitados com frequência pelo cinema, pela literatura, televisão e até pelas artes plásticas.

[ No divã do Freud

Criador da psicanálise, Sigmund Freud analisou várias peças de William Shakespeare e chegou a tomar proveito das narrativas para corroborar conceitos criados por ele próprio. Nas obras do neurologista, há 78 referências aos textos do Bardo inglês. Veja três interpretações:

Hamlet

SINOPSE: 

Na Dinamarca, o príncipe Hamlet tenta vingar a morte do pai, assassinado por Cláudio, seu irmão, que o envenenou, tomou o trono e se casou com a rainha. A peça aborda temas como traição, vingança, incesto, corrupção, moralidade, melancolia e insanidade.

INTERPRETAÇÕES:

Freud se utilizou do texto para tratar do Complexo de Édipo: “Hamlet encontra-se impossibilitado de realizar a vingança da morte do pai, tendo em vista que o assassinato deste, na verdade, atualiza seus desejos infantis reprimidos – ou seja, matar o pai e ficar com sua mulher.”

Macbeth

SINOPSE: 

General do exército escocês apreciado pelo seu monarca, o rei Duncan, Macbeth é abordado por bruxas que fazem lhe fazem previsões.  Sem entender o acontecido, cabe a sua mulher, Lady Macbeth, influenciar o marido a trair o rei e provocar uma reviravolta na corte.

INTERPRETAÇÕES: 

Segundo Freud, a personagem Lady é um exemplo típico de personalidade que entra em derrocada ao alcançar o que ambiciona. Mulher forte e determinada, usa de todos os meios para conquistar poder por meio do marido. Mas termina com problemas psíquicos e, por fim, suicida-se.

Rei Lear

SINOPSE: 

Ao chegar à velhice, o rei da Bretanha se vê obrigado a dividir o reino entre três filhas mulheres, Goneril, Regana e Cordélia. Lear passa a ter dificuldade de discernir as atitudes e os discursos daqueles que o cercam, a perceber a sinceridade e a falsidade humanas.

INTERPRETAÇÕES: 

Para pesquisadores, o texto de Shakespeare sublinha que uma boa escolha parte de um bom processo. Na maioria das vezes, as melhores opções são as mais dificultosas. Freud aponta para a escolha de três mulheres na vida do homem – a primeira seria a mãe (amor infinito), a segunda, a esposa, e a terceira, a morte.


[ Entrevista Luis Reis // coordenador do curso de teatro da UFPE 

Shakespeare produz a obra em um momento bastante singular, na renascença inglesa. Qual a relevância desse contexto para o surgimento de um dramaturgo desse quilate?

O período elizabetano é um fenômeno quase milagroso na história do teatro, pela intensidade, pela produção única, impar, de grandes autores. Há, nessa época, uma safra de grande dramaturgos, responsáveis por colocar o teatro em sua plenitude máxima, no ápice de sua importância social. O azar deles é que havia Shakespeare no meio, que é um assombro! Shakespeare foi capaz de continuar, no século 21, a encantar e “assustar” as pessoas diante dessa obra gigante, original, potente. Uma dramaturgia que encontrou sua cena perfeita. Com ele, o teatro voou muito alto, certamente até mais do que na Grécia Antiga, pela complexidade do homem renascentista.

Que características fazem da obra shakespeariana um conjunto de textos tão relevante para a história da arte ocidental?

Shakespeare, por meio de sua obra, foi um grande comentador da política, sem deixar de ter uma camada filosófica e, sobretudo, qualidade poética. Você pode ler Hamlet, por exemplo, como uma peça sobre história, política, mas nunca vai deixar de ser uma grande obra-prima poética. Mesmo as peças tidas como menores são incríveis.

A dramaturgia de Shakespeare teve, e continua a ter, forte influência nas mais diversas formas de expressão artística. Por quê?

Como clássico dos clássicos, a obra shakespeariana vai estar sempre apontando para o futuro, sempre oferecendo perguntas novas. É uma fonte inesgotável que nos alimenta. É um tesouro muito grande. Estamos tratando de textos escritos há 400 anos, mas parece que foi ontem. Dá a impressão de estarmos falando de hoje, pois eles têm uma potência e uma atualidade muito grande. Shakespeare é a grande escola, o modelo fascinante, e cada vez mais e sempre será revisitado, vai gerar novas obras, pois é de uma beleza e inteligência enormes. Para quem gosta do ser humano, quer conhecer ser humano, é um caminho auspicioso. 

miguel

de CERVANTES

Perguntar a um grande conhecedor de literatura qual é o melhor e mais importante livro já publicado pode soar ingênuo e, quem sabe, até representar uma indelicadeza. Afinal, a humanidade produziu, ao longo de milênios, inúmeras obras cuja relevância reside em aspectos os mais distintos. Sem quaisquer constrangimentos, contudo, o Clube do Livro da Noruega fez levantamento nesse sentido com cem escritores de 54 países – entre os convidados, Milan Kundera, Nadine Gordimer (Nobel de Literatura), Carlos Fuentes, Salman Rushdie, John Irving, John Le Carre. Cada um deles escolheu dez títulos. Na apuração, Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (1547-1616), não só ficou em primeiro lugar, como alcançou uma enorme diferença em relação ao segundo colocado, Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. 

São muitas as razões possíveis pelas quais o clássico renascentista, apontado como primeiro romance moderno, acumule tamanho reconhecimento. A originalidade e ousadia com a qual Cervantes lida com as ambiguidades – liberdade e limitação, sanidade e loucura, passado e presente, ideal e real – são marcas indiscutíveis. Somado a isso, a obra lança críticas e provoca reflexões sociais de grande valor, tanto no âmbito da vida pessoal quanto nos meandros da realidade social, econômica e política. A mais recorrente tem a ver com os delírios do protagonista, baseados em romances de cavalaria cujos enredos ele acreditava serem verídicos.

Sem juízo, Dom Quixote convence o fiel escudeiro Sancho Pança a acompanhá-lo em batalhas imaginárias, a exemplo da bastante lembrada implicância contra moinhos de vento. Na trama, ao avistar as construções, o personagem enxergava monstros a serem combatidos. E, mesmo quando conseguia vê-los de fato como moinhos, acreditava estar sob efeito de hipnose para ser enganado pelos inimigos. Assim como o vocabulário popular se apropriou da expressão “lutar contra moinhos de vento” para se referir às batalhas em vão, outras metáforas extraídas do livro se tornaram comuns e úteis para compreender a condição humana.

Fala-se muito em “síndrome de Dom Quixote”, ora de maneira pejorativa, ora relacionada a um conjunto de sintomas de origem psíquica cuja recorrência pode indicar a necessidade de tratamento psiquiátrico. Neste caso, trata-se de um descompasso entre os fatos cotidianos e a percepção de uma pessoa. Tal condição pode levar o indivíduo a uma extrema desconfiança em relação aos outros ou até mesmo ao desenvolvimento de uma mania de perseguição. 

[ Análise 

Juan Pablo Martín, doutor em letras, professor e vice-coordenador do curso Letras/Espanhol da UFPE

“A obra-prima de Miguel Cervantes tem toda essa relevância porque fala da vida de todos nós. Todos somos um pouco Dom Quixote e um pouco Sancho Pança. Da mesma forma que um jornalista, quando mais novo, ainda estudante, tem entre os seus ideais mudar a sociedade, buscar a verdade com a mesma perseverança de um Dom Quixote, um professor universitário inicia a carreira com o desejo de fazer a sociedade evoluir. Quando você entra na função, percebe a seriedade das coisas, a realidade como ela é.

No livro, os personagens enxergam o protagonista como um doido. Curiosamente, quando ele está prestes a morrer, ouve de Sancho Pança, alguém tido como racional: ‘Não morra, vamos lutar, senão a vida não faz sentido’. Neste momento, Dom Quixote reconhece que realmente foi um doido que lutou contra moinhos de vento, e Sancho termina adquirindo sinais de Dom Quixote. Esses dois lados se aplicam a qualquer projeto de vida, como um matrimônio ou um emprego. Às vezes não tem nada a ver com o que imaginávamos, e não tem nada que eu ou você possamos fazer. Você se torna prisioneiro de uma realidade mais prosaica. O romance de Cervantes fala para todos nós, essa é a grande sacada. Além disso, a narrativa apresenta vários tipos de pessoas, personagens populares que podem ser qualquer um de nós, em parte idealista e em parte realista. São dois elementos inseparáveis. Sem um pouco de loucura não se pode viver.

Várias passagens do livro inspiram lições de vida. Por exemplo, quando Sancho Pança é designado para ser governador de uma ilha (na realidade, uma brincadeira feita pelos nobres). Ele sempre quis o título para ter a possibilidade de comer muito, e acaba arrependido, lembrando de quando era pobre e comia mais. Adiante, Sancho, um analfabeto, torna-se um juiz responsável por tratar de vários casos, e consegue fazer isso de maneira correta, promovendo mais justiça. É uma critica que continua muito atual. Ou seja, uma pessoa não precisa ser erudita para ser bom governador. Esse é apenas um exemplo das muitas leituras possíveis desse clássico”

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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