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Aluno do RJ: Por que um colégio sem merenda vai ficar de braço cruzado?

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    O estudante Michel Policeno, 17, (de óculos) recebe o jurista Siro Darlan na ocupação do Colégio Mendes de Moraes

    O estudante Michel Policeno, 17, (de óculos) recebe o jurista Siro Darlan na ocupação do Colégio Mendes de Moraes

Quando a reportagem do UOL se identificou no portão do Colégio Mendes de Moraes, já recebeu as orientações: “Vocês podem entrar. Somente eu vou falar com vocês. As outras pessoas vão continuar o que estão fazendo e vão ignorá-los”, afirmou o estudante Michel Policeno, 17, do 3º ano do ensino médio.

“Estou avisando antes para que não pensem que somos mal educados”, completou.

Em uma sala de aula, concedeu a entrevista, acompanhado de dois estudantes, que permaneceram sérios e sem se pronunciar.

“Quando eu estava contigo hoje, os dois que estavam perto eram da segurança”, revelou mais tarde por telefone, sobre a maneira como se organizam os estudantes na ocupação. 

O gelo porém foi rompido logo após a conversa, conforme os estudantes faziam um giro pela escola apontando os problemas que encontraram ao ocupá-la. 

Michel é da equipe de comunicação da ocupação, responsável, entre outras coisas, por receber a imprensa.

Para cobrar melhorias na educação, Michel e outros colegas saíram às ruas e engrossaram o coro dos professores, que haviam entrado em greve. O passo seguinte, deliberado em uma assembleia de estudantes, foi ocupar a escola.

Questionado se imaginava que o movimento ganharia essa proporção, ele dispara: “A gente já esperava. Na verdade, esse foi nosso objetivo quando começamos pelo Mendes. Já sabíamos que o movimento iria se espalhar”.

“Se um colégio modelo está ocupado, por que um colégio em que falta merenda vai ficar aqui de braços cruzados? Por que um colégio que tem estrutura toda sucateada e que a qualquer momento pode desabar vai ficar esperando?” 

Michel Policeno, 17

A exemplo de seus pares em diversas escolas fluminenses, Michel sonha grande. Para a educação e para o país. Enquanto não têm suas demandas atendidas e o futuro que vislumbram não chega, eles mantêm a determinação. “Espero que mais colégios sejam ocupados”, diz. 

Só voltou três vezes para casa

Durante esse um mês de ocupação, o estudante tem-se dedicado quase que integralmente ao movimento. 

Michel dorme na escola, participa das atividades e orienta alunos de outros colégios interessados em seguir os passos do Mendes de Moraes – na semana passada, esteve em Petrópolis, na região serrana do Rio. Nesse período, diz ter ido em casa apenas três vezes. 

“Num primeiro momento, minha mãe me ligou preocupada com onde a gente dormiria e o que comeria. Eu basicamente dei uma entrevista para ela”, contou. “Quando eu vou em casa, ela vê que eu estou bem. Falou que eu estou até engordando.”

Na família de Michel, todos interromperam os estudos após concluir o ensino médio.

A irmã atualmente vende produtos de beleza. O pai é aposentado e complementa a renda trabalhando por conta própria como massoterapeuta. A mãe, com quem mora, conseguiu emprego há pouco mais de um mês. Hoje, é faxineira em uma empresa que presta serviços para uma universidade.

É justamente em uma instituição de ensino superior que Michel planeja ingressar em breve para se tornar o primeiro de sua família a vestir a toga e sair com o diploma na mão.

“A minha família é bem humilde. Não vou dizer que passamos necessidade – não chega a esse ponto -, mas somos de classe baixa. Minha casa é numa comunidade e ainda não tem [ninguém com] formação de nível superior”, afirma. 

Interessado em ciências exatas, até recentemente Michel estava seguro de que cursaria engenharia mecânica. A vivência na ocupação, porém, colocou em xeque essa certeza.

Ao pesquisar a legislação para garantir que o movimento não cometeria ilegalidades, interessou-se pelo direito. Da sua atuação como membro da equipe de comunicação da ocupação, surgiu o interesse pelo jornalismo. 

“O Ocupa está me acrescentando algumas possibilidades. Se estamos fazendo um movimento tão grande pela educação, por que não me tornar professor?”, diz o rapaz.

Júlio César Guimarães/UOL

Michel mostra o broche da ocupação

Falta de respeito

Morador do Complexo da Maré, conjunto de favelas localizado na zona Norte do Rio de Janeiro, Michel Policeno, 17, encara diariamente um trajeto de 40 a 50 minutos em dois ônibus para assistir às aulas. 

O renome da escola, tida como uma instituição pública de referência, pesou na hora de escolher onde iria cursar o ensino médio, mesmo que isso implicasse um percurso de cerca de 15 quilômetros. 

“O Mendes é visto como um colégio modelo. Para muita gente, é como se ele representasse quase que um colégio particular. Mesmo morando um pouco longe, eu optei pelo Mendes”, diz Michel. “Eu tinha a informação de que a escola tinha acabado de ser reinaugurada, então o meu primeiro ano foi num colégio novo.” 

O estudante do terceiro ano sempre frequentou a rede pública. 

“Os problemas dos três colégios se repetem. Em toda a minha vida escolar, eu convivi com falta de respeito ao aluno e ao professor. E o pior, com a falta de professores. Aquilo que acontece no Mendes […] é um problema habitual de todos os colégios. Outras questões são relativas à estrutura e à manutenção [deficientes]”, completa Michel. 

Impeachment

“Houve um impeachment, então eu assumi”, diz Michel sem conter o riso, em um dos raros momentos em que rompe o tom entre solene e engajado mantido ao longo de duas entrevistas. 

Homônimo do vice-presidente da República, um dos estudantes precursores das ocupações de escolas estaduais do Rio de Janeiro diz que as semelhanças com a atual conjuntura política nacional encerram-se aí.

“O único [fato] que ele [Temer] tem de bom é o nome”, diverte-se Michel Policeno, 17, logo após contar que, até a tomada do Colégio Mendes de Moraes, na Ilha do Governador, sua trajetória de liderança estudantil se resumia a, ano após ano, ocupar a função de líder de turma.

Em uma das poucas vezes em que não foi eleito para tal, coube-lhe a posição de vice. Com a destituição do representante pelos colegas, acabou assumindo o posto principal.

No domingo em que a Câmara dos Deputados deu o passo decisivo no processo de impeachment que pode destituir a presidente Dilma Rouseff, Michel estava no Colégio Mendes de Moraes participando das atividades da ocupação, mas não deixou de acompanhar a votação. 

Crítico ferrenho do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, questiona o fato de o processo ser conduzido por um parlamentar investigado por corrupção. 

“É o sujo falando do mal lavado”, comenta. Em vez da destituição da presidente, diz preferir eleições gerais. “O impeachment não muda nada. É trocar seis por meia dúzia e, talvez, até se tenha uma piora. O que eu defendo é uma greve geral, o país parar para defender uma eleição geral, não apenas para presidente”, propõe.

Fonte: Bol.com.br

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