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Alunos se dividem em equipes para tudo nas escolas ocupadas do Rio

Na entrada de um dos colégios ocupados na Zona Sul do Rio de  Janeiro, um quadro anuncia a programação preparada pelos alunos para o dia.

A rotina começa às 9h com uma oficina sobre “estratégias de sobrevivência” no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), inclui uma sessão para tirar dúvidas de espanhol à tarde e prossegue com mais aulas à noite.

Ao se apropriar do espaço das escolas estaduais do Rio de Janeiro, os estudantes propõem e levam adiante atividades que gostariam de ver incluídas no calendário letivo.

Debates sobre política e democracia, apresentações circenses, ioga, capoeira e até mesmo a construção de uma horta são algumas das ações que mostram que a geração da ocupação tem interesses múltiplos.

Com um certo ar de orgulho, os estudantes não se cansam de repetir que estão exaustos por conta do grande número de atividades que organizam e das quais participam.

Em uma terça feira, a programação ultrapassou as 22h. Em uma sala do Colégio Amaro Cavalcanti, alguns alunos resistiram ao sono e ao calor para assistir ao filme “A Batalha do Passinho”, sobre a dança que estourou nas favelas cariocas.

A sessão, interrompida uma vez para que se fechassem as janelas depois que uma vizinha reclamou do barulho, foi seguida de um debate com o diretor da obra, Emilio Domingos, convidado a participar por uma amiga, professora de história.

“Ela me disse que os garotos tinham programado exibir meu filme e que teria um debate comigo hoje. Fui pego de surpresa, e não pensei duas vezes”, conta Domingos.

Para ele, o movimento tem potencial para pressionar os governantes a promover melhorias na educação. “É importante que os estudantes mostrem que  gostam da escola. Essa ocupação é simbólica e representa isto: que tem uma geração muito preocupada com a educação e que os governantes deveriam também valorizá-la tanto quanto eles a valorizam”, completa.

Encerradas as atividades do dia, muitos permanecem acordados até tarde, organizando a escola, preparando as atividades do dia seguinte ou trocando impressões.

No Amaro Cavalcanti, cerca de 40 alunos dormem na ocupação. Eles se acomodam nos colchonetes distribuídos em uma pequena sala, uma das duas  equipadas com ar-condicionado na escola.

A interação entre os alunos das diferentes escolas ocupadas fez com que o modelo de organização se replicasse de maneira mais ou menos parecida.

Equipes para tudo

Ao tomar para si a tarefa de cuidar pela integridade das instalações escolares e organizar suas atividades, os estudantes costumam se separar em grupos de trabalho.

No Colégio Estadual Mendes de Moraes, localizado na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio, que deu início à série de ocupações no Estado, os estudantes dividem-se em diferentes equipes.

A equipe de segurança  zela pela integridade do prédio e dos próprios alunos. Outra turma organiza a programação da ocupação. A limpeza é coordenada pelo pessoal da estrutura, embora todos colaborem. A ocupação tem até um grupo de comunicação, responsável por divulgar pelas redes sociais as atividades que desenvolvem e por atender a imprensa.

Outra turma fica a cargo da preparação das refeições.

Na cozinha do Mendes de Moraes, o clima é de descontração. Embalados por uma trilha sonora de funk e pop, os estudantes se divertem enquanto preparavam frango, um dos pratos do almoço, e limpam as instalações do local. Para entrar, a reportagem foi alertada sobre um requisito de higiene: deixar os calçados do lado de fora.

“Às vezes me sinto em um filme, fazendo a segurança da escola com um rádio”, diverte-se o estudante Wictor Soares de Macedo, 18, do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti, na Zona Sul do Rio.

“Compramos um walkie-talkie para garantir a segurança. Fomos para a rua arrecadar dinheiro, panfletamos na saída do metrô, fizemos barulho pelo Largo do Machado. Você começa a ver a escola em outros momentos que você não via. Estudo à tarde e nunca tinha vindo à escola à noite”, conta Cavalcanti.

No Colégio Mendes de Moraes, os alunos resolveram limpar uma área que era utilizada para descarte de materiais. No lugar, deram início ao projeto de uma horta escolar.

Em caixotes de madeira, plantaram mudas de cebolinha, salsinha e outras espécies. A ideia é futuramente ampliar a diversidade de hortaliças. “Aqui eram depositadas apostilas do Enem e de reforço, algumas lacradas. Era perigoso ter até foco de dengue. Como pode um lixão a céu aberto dentro de um colégio?”, questiona o estudante do terceiro ano do ensino médio Michel, 17.

Os professores destacam a capacidade de organização mostrada pelos estudantes durante a ocupação e dizem esperar que o movimento sirva para aumentar o cuidado deles para com as escolas.

“Eles estão fazendo uma autogestão comunitária muito eficiente”, diz o professor de geografia Daniel Carvalho Pacheco, 36, do Amaro Cavalcanti. “Eles mesmos estão limpando, organizando, fazendo faxina, fazendo comida. Nunca vi o refeitório tão limpo, sem querer desmerecer o trabalho das moças da faxina, mas temos poucos funcionários”, completa.

Fonte: Bol.com.br

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