Artigo: Reginald de Miranda, artista naïf brasileiro por Fernando Moura Peixoto

JORGE AMADO (1912 – 2001)

 

“Sou daqueles que acham que a única pintura brasileira – falo de pintura, não de gravura e desenho – que possui caráter realmente nacionalista e se expressa numa forma decorrente de nossa cultura mestiça é a pintura naïf, ingênua, primitiva – cada um escolha a designação que lhe pareça melhor. O resto – peço perdão mas é verdade – é escola de Paris transposta para a circunstância brasileira.”

“Não temos, como a têm os mexicanos, uma escola nacional de pintura. Somos cópia, por vezes excelente, por vezes com a marca da cor e do sentimento brasileiro, mas cópia da escola de Paris. Excetuam-se os primitivos e primitivos são alguns dos maiores mestres brasileiros, se bem se oculte tal característica como coisa feia, menor, limitadora.”

“Sei de artistas primitivos brasileiros que se sentem profundamente ofendidos se alguém chama a atenção para a qualidade naïf de sua pintura. Que se há de fazer? O mundo é assim, feito de vaidades tolas, de equívocos culturais.”

 

IVAN BELLA (s/d)

 

“Pela importância que os naïfs adquiriram, pela repercussão que a pintura naïf brasileira vem alcançando, poderíamos dizer que é neles que repousa a expressão mais autêntica de nossa cultura, ao lado do samba, das festas populares – como, por exemplo, o bumba-meu-boi – e como as expressões do sincretismo religioso.”

“É nessa arte primitiva – pintura e escultura – que estão as raízes mais sensíveis da civilização que estamos construindo a duras penas. E, acrescente-se, com muito colorido e criatividade.”

 

REGINALD DE MIRANDA (1945 – 1998)

 

“A flora e a fauna do Nordeste – representadas num desenho elementar, quase logotipo – inseridas dentro de um plano geométrico inspirado nas janelas e portadas da arquitetura colonial brasileira – preenchidas por tonalidades obtidas diretamente dos tubos, embora combinadas de u’a maneira que provoque emoções fortes, vibrantes, gritantes, musicais, marcantes – executadas por uma preocupação técnica adquirida com o passar do tempo convivido no meio artístico. É assim que construo meus quadros.”

 

Foi um domingo tristonho e sombrio o de 1º de fevereiro de 1998. Aos 52 anos, de insuficiência respiratória, prematuramente falecia o pernambucano Reginald Nascimento de Miranda, que pintava frutas, flores e animais do agreste nordestino em traços peculiares e cores tropicais que o transformariam em um expressivo nome da arte naïfnaïve, ingênua, espontânea, sonhadora, nativa, primitiva ou primitivista – no Brasil.

 

“OS ‘NAIFS’ CATIVAM-ME CADA VEZ MAIS…” (Delacroix)

 

Nascido no Recife em 28 de novembro de 1945 se tornou artista plástico com a idade de dezesseis anos. Em Olinda, no Atelier e Mercado da Ribeira, realizou os estudos iniciais no ‘Curso Livre de Desenho e Técnica de Pintura’, e associou-se ao Grupo Oficina 154.

 

“PARA O FUTURO VEJO APENAS A PINTURA ABSTRATA OU ARTE PRIMITIVA” (Kandinski)

 

Em 1967, ele e outros colegas fundaram a Galeria de Arte Sobrado 7. Em 1968 e 1969, pesquisando intensamente o barroco, percorreu o país, acabando por fixar residência no Rio de Janeiro. Reencontrou então um casal franco-brasileiro que havia conhecido em Olinda – Jacques e Maria Helena Boulieu, colecionadores de arte sacra – e que o ajudaria na montagem de uma exposição na Maison de France, na Avenida Presidente Antônio Carlos, no Centro.

 

“ESTA COISA QUE VOCÊS CHAMAM DE PINTURA PRIMITIVA É O SONHO DE UM SONHO” ( Proust)

 

Surpreendentemente, Reginald vendeu todos os trabalhos. Com o dinheiro arrecadado viajou para a Europa. Na França, em 1970, na Societé d’Enseignement Profissionel du Rhône, em Lyon, fez as faculdades de ‘Tecnologia do Desenho’ e de ‘História da Arte’. Visitou a Alemanha, Itália e a antiga Tchecoslováquia, analisando e se aprofundando culturalmente nos estilos gótico e barroco.

 

“AFINAL A INGENUIDADE É A BASE DO SER, DE TODO SER, ATÉ MESMO DO MAIS CONSCIENTE E MAIS COMPLEXO” (Mann)

 

Em 1972, de volta ao Rio de janeiro, cursou História no Instituto de Ciências e Filosofia da UFRJ, para revalidar tudo o que aprendeu.  Participou de diversos salões e mostras coletivas, aqui e em São Paulo, Belo Horizonte e Recife. Expôs no Museu Nacional de Belas Artes, no MAM, na Galeria Macunaíma, no Museu de Arte Moderna de Resende e na Galeria Casa de Portugal, dentre inúmeros mais. A década de 1970 era considerada o seu período áureo, quando recebeu vários prêmios, dos quais não esquecia um: o Prêmio da Câmara Municipal de Resende, para ele “o mais importante”.

 

“A IMAGINAÇÃO É MAIS IMPORTANTE DO QUE O CONHECIMENTO” (Einstein)

 

Em 1991, em Paris, manteve contato com Mme. Fourny, presidente do Musée Nationale d’Art Naïf, que apreciou bastante a sua pintura. Reginald de Miranda efetuou a doação de uma peça para o acervo da instituição.

 

“TODOS OS GRANDES ARTISTAS SÃO AMADORES” (Satie)

 

Reginald de Miranda integra o Dicionário de Artistas Plásticos (MEC) e o Dicionário de Pintores Brasileiros (Bozano, Simonsen), ambos de Walmir Ayala (1933 – 1991). Documentados, produziu cerca de 800 quadros, sem falar nos que não registrou. Muitos deles, negociados no estrangeiro. Outros fizeram parte da coleção particular de personalidades como Fernanda Montenegro (1929 -) e Paulo Autran (1922 – 2007).

 

“A ARTE INGÊNUA TORNOU-SE  UMA CONSIDERÁVEL REALIDADE” (Malraux)

 

Além de coordenar mostras e exposições de artistas plásticos brasileiros nas grandes capitais, vinha realizando a Coletiva de Maio, uma bienal naïf que ocorria em anos pares, alternando-se no Rio, São Paulo e Niterói. Reginald foi funcionário do cineclube do Centre Culturel Français  e teatro  Maison de France  e da empresa Sanofi Beauté do Brasil, no Rio de Janeiro.

 

“AS COISAS QUE MELHOR SABEMOS SÃO AS QUE NÃO APRENDEMOS” (Vauvenargues)

 

De temperamento característico do sagitariano, Reginald neutralizava a imensa força de vontade, com tendência ao infinito, continuamente tensa e expansiva, e a determinação do vencedor, concentrada em si mesma, pela afirmativa imprescindível, triunfal de viver.

 

“A ARTE NÃO DEVE SER INTELIGENTE. A ARTE É ALEGRIA E FRUIÇÃO” (Derain)

 

Solteiro, tinha um irmão no Rio e irmã em Recife. Católico fervoroso, ele frequentava a Igreja da Renovação Carismática. Na placidez de seu ateliê na Rua Dr. Nilo Peçanha, em São Gonçalo, possuía belíssimo conjunto de imagens de São Francisco. Era fiel amigo de Dom Columba, monge do mosteiro de São Bento, que foi quem celebrou sua missa de sétimo dia, em tocante cerimônia naquele convento.

 

“EU PINTO COMO OS PÁSSAROS CANTAM” (Monet)

 

Pintor, desenhista, gravador, professor e historiador, Reginald Nascimento de Miranda partiu faz dezoito anos, nos deixando muitas saudades, mas impondo definitivamente um modo marcante, singelo e transparente de pintar e existir. Sobre a nossa arte naïf, asseverava: “A pintura naïf no Brasil costuma ser esnobada pelas grandes galerias, que preferem trabalhar com produções artísticas convencionais, acompanhando movimentos que geralmente nos chegam do exterior”.

 

“Assim, como pintor naïf, professor e um lutador da arte brasileira mais autêntica, assumi a necessidade de se promover eventos específicos para mostrar o trabalho dos pintores espontâneos e primitivos do país. E isso apenas entra numa corrente muito maior, que é o crescente interesse nacional e internacional pela arte naïf brasileira”.

 

“Hoje, encontramos os artistas primitivos brasileiros nos grandes museus do mundo – até no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (para citar apenas um exemplo). E é obrigatória a presença de artistas brasileiros em qualquer coleção de arte primitiva que se preze, como é o caso de grandes coleções em países da Europa e nos Estados Unidos. Enfim, e isso é o principal, a arte naïf é a expressão plástica mais autêntica da cultura brasileira”.

 

“NOS PINTORES ‘NAÏFS’ ENCONTRAMOS OS ÚLTIMOS VESTÍGIOS DA ALMA COLETIVA EM VIAS DE DESAPARECIMENTO” (Jung)

 

“Fernando, que Deus continue iluminando em prol dos ‘nossos’ artistas naïfs. Parabéns! Continue em frente! Sua fã.”

 

MARIA DO CARMO TEIXEIRA DE OLIVEIRA, 7/3/1992, Curadora da exposição ‘O Mundo Fascinante dos pintores NAÏFS’, realizada pela Fundação  Lucien Finkelstein – Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil (MIAN), no Paço Imperial, na Praça Quinze, de 15/12/1988 a 19/2/1989.

 

 

Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

 

 

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