Artigo: Um antecessor do frescobol na praia do Leblon em 1943 por Fernando Moura Peixoto

Fiquei muito feliz ao ler… uma carta de Fernando Moura Peixoto com o título ‘O Precursor do Frescobol’. Agradeço a lembrança demonstrada… ao recordar um grupo de atletas da Praia do Leblon, que ficava em frente à Rua Dom Pedrito, naquele inesquecível verão de 1943.”

O precursor do frescobol foi meu marido, Walther Hartning, o ‘Mão de Sebo’. Atualmente moro na Urca e tenho um filho, Mário Vicente Júlio Maia Hartning, que como o pai, é atleta e pratica surfe na Praia do Forte.”

Aproveito para expressar também meu orgulho e enorme emoção ao ver, quase 50 anos após esses fatos terem acontecido, alguém recordá-los pelo muito que representam para mim, em gratificação e saudade.”

– EVA MARIA MAIA HARTNING

(in ‘O Globo-Ipanema’, 5 de outubro de 1987, segunda-feira)


 

Praia do Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, 1943. Um ensolarado e quente verão carioca, como não poderia deixar de ser. Diante da Rua Dom Pedrito, hoje Almirante Guilhem, um judeu alemão chamado Walther Hartning iniciava a prática de um esporte predecessor do frescobol. Professor de inglês e de ginástica, ele residia no antigo Edifício Novaes, na Avenida Afrânio de Melo Franco.


 

Os amigos haviam-lhe pespegado carinhosamente a alcunha de ‘Mão de Sebo’, por não conseguir jogar bem o vôlei. A bola sempre escorregava de suas mãos, e assim igualmente acontecia com a peteca. Aproveitando os intervalos de descanso da turma da peteca, que armava uma rede na areia fofa, na parte superior da praia, ele costumava usar a palma da mão para impelir uma bola de tênis a um ou dois oponentes. No entanto, a bolinha continuava fugindo-lhe ao controle.


 

Fez então diversas tentativas utilizando raquetes de tênis na praia, fora do campo da peteca. Insatisfeito com os resultados obtidos manufaturou raquetes menores e compactas, em madeira tosca, semelhantes às atuais de frescobol. E demarcou na areia uma quadra apropriada para a nova atividade, maior do que a da peteca e adaptada do tênis, posicionando a rede em altura mais baixa. O inusitado jogo não recebeu nenhuma designação específica. O esporte sem nome logo virou mania no local. Disputavam-se partidas no sistema ‘melhor de três’, com ‘sets’ de dez pontos, participando uma ou duas pessoas de cada lado.


 

Conhecidas personalidades da geração dourada da época acompanharam ‘Mão de Sebo’ nesta modalidade esportiva que antecipou o frescobol, tais como Urbano Magalhães de Almeida, Antônio Novaes, a professora de ginástica Yara Vaza primeira mulher a usar um maiô cavado de duas peças na praia, isso em 1938/1939 –, seu marido Frank ‘Tarzan’ Vaz, Celeste Silva Jardim – irmã de Yara –, Jorge Nagib, Dario Sarmento e Yolanda Nascimento Sarmento, Arlete e Ney Cardoso, Walter Nascimento e o então capitão César Montagna de Souza – que, no golpe militar de 1º abril de 1964, foi o coronel do Exército que tomou sozinho e desarmado o comando do Forte de Copacabana, esbofeteando um atônito e solitário sentinela, sob as luzes de refletores e câmeras da finada TV-Rio, instalada no prédio do extinto Cassino Atlântico, no Posto Seis.


 

Praticada somente em área delimitada na areia quente, provida de rede e marcando-se pontos, a invenção de Walther Hartning perdurou até 1949, exclusivamente na Praia do Leblon. Muitos de seus adeptos vinham de outros lugares e tinham que pacientemente aguardar vez em torno da única quadra existente para o jogo – bem próxima da pioneira rede de vôlei de praia do Leblon, montada em 1939 pelo saudoso doutor Octávio Victor do Espírito Santo.


 

Ao final da década de 1940, a proliferação do voleibol – em virtude de torneios promovidos ali pelo ‘Jornal dos Sports’ – e o natural crescimento da frequência praiana fizeram gradativamente o esporte desaparecer por falta de espaço. Alguns entusiastas passaram a jogá-lo na beira do mar, em temperatura amena, sem campo determinado, regras, escore, ou rede – uma bela parceria, de modo idêntico ao frescobol.


 

Figura humana generosa e boníssima, Walther ‘Mão de Sebo’ faleceu no dia 2 de agosto de 1985, deixando a família e uma legião de amigos pesarosos, mas legando à posteridade a lembrança de seu ‘esporte sem nome’, desenvolvido nos inolvidáveis e divertidos verões em um recanto verdadeiramente paradisíaco e encantador – a Praia do Leblon nos anos distantes de 1940. Foram tempos muito felizes que ficaram na memória e que não retornarão jamais…


 

Prezado Fernando. A Professora Vera Lúcia Costa e eu, doutoranda e mestranda respectivamente da Universidade Gama Filho, estamos escrevendo a HISTÓRIA DO FRESCOBOL para o I Congresso da História da Educação Física.”

Gostaríamos imensamente de entrevistá-lo. Se puder nos contatar, ficaríamos gratas. Um abraço.”

– VERA LÚCIA COSTA e RENATA FIGUEIREDO, Universidade Gama Filho, 24/8/1996, Rio de Janeiro, RJ.


 

Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)


 


 


 


 


 


 


 

 


 


 


 

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