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Como quatro homens sobreviveram após sequestro pelo Estado Islâmico

Em seu clássico livro, 1984, George Orwell escreveu sobre a Sala 101, uma câmara de torturas em que vítimas são submetidas aos piores pesadelos para ter sua resistência vencida. Sobreviver a esse tipo de lugar com dores profundas é um triunfo do espírito humano.

Nos dias de hoje, o mesmo se pode dizer de quem sobrevive ao cativeiro nas mãos de militantes do grupo extremista muçulmano que se proclama Estado Islâmico.

Quatro ex-reféns se encontraram em abril pela primeira vez desde que foram libertados, em momentos diferentes, há dois anos. Foi uma celebração de amizade construída na mais ameaçadora das circunstâncias. Mas também foi momento de relembrar momentos terríveis.

Jogo

Em um programa de rádio da BBC, Held Hostage in Syria (Refém na Síria, em tradução livre), os quatro homens europeus lembram-se de meses sem a luz do sol, de semanas acorrentados juntos e de agressões diárias.

Havia pouquíssima comida e o anseio era por roupas limpas, um banheiro apropriado. Mas, acima de tudo, por liberdade.

A reunião, no entanto, também celebrou a vitória do grupo no que ficou apelidado como “jogo da sobrevivência”, que teve a duração de um ano de tormento. Mas eles sobreviveram.

Cada um usou táticas diferentes. Frederico Motka, um italiano que trabalhava com ajuda humanitária, abaixava o olhar e levantava a guarda para evitar os esforços de seus captores em humilhá-lo. O jornalista francês Didier Francois trocou empurrões e olhava os captores nos olhos. O fotógrafo dinamarquês Daniel Rye Ottosen, um ginasta, abria “espaguetes” para provar aos militantes que não era um espião. O blogueiro francês Pierre Torres apanhou, com satisfação, por se recusar a obedecer às ordens dos captores.

Mas jogaram o jogo juntos, ajudando uns aos outros. Afinal, guardas de diferentes nacionalidades tomavam conta dos prisioneiros e usavam modos variados de tortura física e psicológica. Daniel Rye sofreu tanta brutalidade que tentou o suicídio – mas foi impedido pelos guardas.

Para passar o tempo, os reféns jogavam xadrez com peças improvisadas feitas de papelão. O jogo de damas tinha sementes de azeitona e tâmaras. Os reféns improvisaram até uma série de palestras sobre assuntos tão variados como pescaria e mergulho em piscinas. Era assim que conseguiam escapar do cativeiro, pelo menos em suas mentes.

Em algum ponto entre os anos de 2013 e 2014, 19 homens com passaportes ocidentais estiveram juntos em um pequeno quarto. Um quarto adjacente era a cela para cinco mulheres. Um por um, eles foram libertados ou executados. Desses homens resta apenas o jornalista britânico John Cantlie. Entre as mulheres, uma continua em cativeiro, mas seu nome não foi divulgado. Sete pessoas – seis homens e uma mulher, foram assassinados pelos militantes.

Nenhum dos libertados saiu sem o pagamento de resgate.

Eis algumas histórias do cativeiro.

Captura

Didier – Tudo aconteceu muito rápido. Meu carro cruzou a fronteira da Turquia com a Síria às 10h30. Às 11h, eu já tinha sido capturado. Foi tudo muito profissional: dois carros, cinco homens. Tiraram meus óculos e meus sapatos antes de vendar meus olhos e me colocar no porta-malas de um carro.

Pierre – Em 2011, Raqqa não era a capital do Estado Islâmico, mas sim a primeira grande cidade liberada do controle do regime do presidente sírio, Bashar al-Assad. No dia em que fui capturado, estava a dois minutos da casa do amigo que me hospedava. Um carro parou perto de mim, com quatro ou cinco pessoas dentro, usando balaclavas. Na época, isso era normal na cidade, mas quando vi os canos das armas apontadas para mim percebi que era algo diferente. Levei socos e coronhadas a torto e a direito. Estava quase desmaiando quando vi que o teto do carro estava coberto de sangue. Do sangue que saída minha cabeça.

Guardas

Daniel – Um de meus captores perguntava por que eu tinha ombros largos, se eu era do exército. Disse para ele que um ex-ginasta. Foi quando ele me disse que os outros guardas achavam que eu era um espião. Tentei mostrar que não era um espião e abri alguns “espaguetes” no chão. O guarda gritou e me pediu para parar, porque ele supostamente tinha que me interrogar e torturar. Muitos dos militantes ocidentais era mais agressivos conosco.

Didier – A coisa mais difícil de perder a sua liberdade é que não há mais regras. Os guardas são quem tomam as decisões. Não havia mocinhos ou bandidos – todos eram maus -, mas as estratégias de controle usadas eram diferentes. Os franceses gostavam de jogos psicológicos, enquanto os britânicos eram mais diretos no que diz respeito a controle e violência. Nunca sabíamos o que viria. Apanhávamos algumas vezes apenas como forma se saber que eles estavam no comando. Uma vez puseram gás de pimenta no pano que vendava meus olhos. Em outra, ficamos sem água e comida por quatro dias.

Sobrevivência

Federico – Fui capturado junto com David Haines (trabalhador humanitário britânico que acabaria executado), mas os militantes nos separaram. David me deu três conselhos: contar a verdade, viver uma rotina e “jogar o jogo”. Jamais vou esquecer disso. Fiquei em uma cela escura com uma privada por três semanas. Dias e dias de solidão em que andava de um lado para o outro ou tinha conversas imaginárias com minha família. Quando viramos um grupo, nossa única maneira de manter a dignidade era tentar ficar o mais limpo que pudéssemos. Todas as vezes em que ia ao banheiro eu lavava minhas roupas na pia – afinal, estava usando a mesma roupa há meses.

Passatempos

Didier – Essa foto mostra a echarpe em que escondia peças de xadrez feitas a partir de uma embalagem de queijo. Jogávamos muito xadrez.

Daniel – Lembro que meu cérebro estava sedento. Queria informação, não importava qual, desde que fosse algo do mundo real.
Comida

Didier – Éramos obcecados por comida. Todo os dias criávamos menus imaginários, com comidas que jamais comeríamos.

Daniel – Tínhamos o sonho de cruzar a fronteira com a Turquia juntos e comer no bufê de um hotel. Todos os 19 se sentariam juntos à mesa. Seria uma dia feliz, quando voltaríamos para nossas famílias.

Camaradagem

Pierre – Todos tivemos dificuldades e éramos bem diferentes uns dos outros, mas realmente trabalhamos juntos. Construímos algo muito forte entre nós.
Libertação

Federico – Recebi uma pergunta de prova de vida – a cor da parede do meu quarto na casa da minha mãe. Foi um momento de emoções mistas. Até então, achava que David e eu seríamos libertados juntos. Aquele foi o momento em que percebi que isso não ia acontecer. Chorei muito. David estava a meu lado e me abraçou. Ele sabia que as coisas não estava indo muito bem. Minha libertação significava uma certa perda de esperança para ele. (O britânico foi executado em setembro de 2014, quatro meses depois de o italiano ser libertado).

Daniel – Quando fui libertado, éramos oito restantes. Eu e um alemão, três britânicos e três americanos. Eu recebi minha prova de vida e o alemão a dele uns dias depois. Naquele momento ficou claro que não havia negociações para os americanos e os britânicos.
 

Fonte: Bol.com.br

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