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Dois anos após acidente no Motrisa, vizinhos ainda esperam indenização

Um dos silos do moinho caiu em 7 de abril de 2014; não houve mortes. Empresa diz que reformas feitas nos imóveis atingidos foram suficientes.

 

Dois anos se passaram após a queda de um dos três silos do Moinho de Trigo Indígena S/A, o Moinho Motrisa, e os donos dos imóveis mais atingidos, localizados na Vila Nossa Senhora do Carmo, ao lado do moinho, ainda esperam a indenização da empresa.

O acidente aconteceu na tarde de 7 de abril de 2014, na Avenida Comendador Leão, no bairro do Poço, em Maceió. Cinco pessoas ficaram feridas, diversos imóveis e veículos ficaram danificados, mas não houve nenhuma morte.

Um laudo realizado por uma empresa de Belo Horizonte, contratada pelo próprio Moinho Motrisa, mostra que, até o acidente, nenhuma mudança havia  sido realizada na armação construída em 1974 para sustentar os silos, mesmo após reformas que aumentaram o peso de todo o conjunto.

No meio de tudo isso, próximo aos escombros da estrutura de concreto armado, as pessoas foram reaprendendo a viver, e voltaram aos poucos para os seus lares, algumas depois de uma longa espera.

Vila Nossa Senhora do Carmo (Foto: Jonathan Lins/ G1)

Vila Nossa Senhora do Carmo foi a área mais atingida pelos escombros do silo que caiu (Foto: Jonathan Lins/ G1)

Mas nem todo mundo teve essa oportunidade, como é o caso de Judite Maria da Silva, de 66 anos. Enquanto sua casa não passa por reforma, ela ainda vive em uma residência custeada pela empresa.

A aposentada morou por cerca de 30 anos na primeira casa do lado esquerdo da vila, a que fica mais próximo ao silo e foi parcialmente destruída. “Eu lembro de pouca coisa. Ouvi um barulho e saí correndo de casa, quando tudo desabou”, relata Judite, que não tem família.

Judite Silva afirma que ainda espera voltar à casa que teve que abandonar (Foto: Lucas Leite/ G1)

A pedido do G1, Judite Silva abriu as portas da casa danificada no acidente (Foto: Lucas Leite/ G1)

Ela abriu as portas do lugar onde morava à reportagem do G1. O mato e o mau cheiro tomaram conta do imóvel e dividem o espaço com o que sobrou das lembranças da aposentada. “Sinto muita vontade de voltar, mas não tenho condições, pois tudo continua destruído”, desabafa.

Desde o acidente, Judite mora em uma casa alugada no mesmo bairro. Além da moradia, a empresa também paga a proprietária do imóvel alugado para auxiliar a idosa nas tarefas domésticas.

Para Meire Cavalcante Saraiva, de 73 anos, e também vizinha da fábrica, a situação foi diferente. Segundo Meire, ela voltou ao local mesmo após o juiz Marcelo Tadeu Lemos de Oliveira realizar uma visita técnica aos imóveis e condenar a cozinha dela.

“Eu passei algum tempo entre hotéis e pousadas, mas aquilo não é a nossa casa. Teve um dia que eu estava comendo em um hotel e meus filhos foram me visitar. Eles não puderam subir para o quarto para comer comigo. Foi aí que eu decidi voltar para a minha casa, mesmo com a cozinha condenada”, diz Meire.

Apesar do prejuízo material, o problema mais grave da idosa, segundo ela, foi de saúde. Meire diz que desenvolveu síndrome do pânico após o acidente. “Tive que fazer acompanhamento médico com uma psicóloga, pois fiquei com muito medo. Hoje em dia estou melhor. Nós nos acostumamos com a situação”.

Paredes de residência ficou com diversas rachaduras após acidente (Foto: Jonathan Lins/ G1)

Paredes de residência  ficaram com diversas rachaduras após acidente (Foto: Jonathan Lins/ G1)

Além do espaço físico, da longa espera, e da transferência do lar, muitos moradores têm algo em comum: reclamações dos reparos realizados pela empresa contratada pelo Motrisa.

Tadeu Barbosa, 39, conta que devido ao acidente envolvendo o silo carregado de trigo, o telhado da sua casa foi danificado e, pelo fato da casa passar muito tempo fechada, outros problemas apareceram.

“O telhado ficou quebrado e, devido ao abandono e às chuvas, tivemos um problema sério com infiltrações, fora a pintura da casa. A empresa contratada pelo moinho realizou o serviço, mas a infiltração voltou. Decidimos fazer o serviço por conta própria e gastamos quase R$ 10 mil para pintar, colocar o gesso, ajeitar o telhado e a infiltração”, conta Barbosa.

Ação conjunta
O advogado Múcio Arruda, responsável pela defesa de 37 moradores da vila, acredita que o julgamento do caso ocorra até o final do primeiro semestre de 2016.

Diversos moradores da Vila Nossa Senhora do Carmo foram prejudicados após o acidente (Foto: Jonathan Lins/ G1)

Silos do Motrisa se misturam ao cenário na praça da Vila Nossa Senhora do Carmo
(Foto: Jonathan Lins/ G1)

"Acreditamos que os moradores devem ser indenizados pelos danos morais e materiais que sofreram. Há pessoas que, além de morar, exerciam funções trabalhistas nas casas e, devido ao acidente, passaram um tempo sem ter o lucro, até o moinho alugar outro espaço, tendo um certo prejuízo".

"Só faltam as alegações finais e o julgamento, para o caso ser encerrado. O processo ficou dois meses parado devido às férias do juiz Marcelo Tadeu, mas acredito que em breve tudo será resolvido", complementa o advogado.

Arruda explica ainda que o aluguel das vítimas que tiveram o imóvel danificado deve continuar sendo pago pelo Motrisa até a Justiça julgar necessário ou até a pessoa prejudicada ter condições de retornar à sua casa.

Em relação às pessoas que reclamaram dos reparos realizados pelo Motrisa, o advogado afirma que elas podem ser indenizadas também pelos gastos que tiveram com a nova reforma.

Motrisa não vê motivo para indenização
G1 procurou os responsáveis pelo Moinho, que indicaram a advogada Andréa Maria Lyra Maranhão para falar sobre o assunto. Ela é uma das sócias da Maranhão & Nogueira Advogados Associados, que realiza a consultoria do Moinho Motrisa sobre o acidente.

Andréa relatou que as reformas realizadas nos imóveis danificados pelo acidente atendem às necessidades dos moradores, mas não vê motivos para indenizá-los, já que o moinho sempre procurou negociar as melhores opções com eles, dando toda a assistência necessária ao longo desses dois anos.

"Acredito que [os moradores] não devem ser indenizados. O Motrisa sempre esteve disposto a pagar pelos danos materiais causados. Em relação aos casos de doenças que as pessoas afirmam ter após o acidente, nós desconhecemos. Nenhum adendo foi realizado ao processo que trata do caso", explica a advogada.

Moradores esperam indenização após acidente há dois anos (Foto: Jonathan Lins/ G1)

Das residências danificadas é possível ver os silos do Moinho Motrisa (Foto: Jonathan Lins/ G1)

Andréa explica ainda que, com excessão de duas pessoas, todos os outros moradores estão aptos para voltarem para as casa. Segundo ela, muitos moradores não queriam retornar ao local enquanto estavam em hotéis e pousadas.

"Muitos dos danos nas casas nós não sabemos precisar se já estavam lá, ou se foram ocasionados pelo acidente no moinho. Com exceção da Judite e da Telma, todas as outras pessoas já podem retornar para as suas casa", explica.

Em relação à demora na liberação da casa de Judite, a advogada responsável pela defesa do Motrisa explica que a idosa escolheu a casa que iria ficar morando enquanto o reparo da sua residência na Vila Nossa Senhora do Carmo fosse concluído.

"A Judite escolheu a casa em que iria morar. Ela recebe um valor pago pelo moinho para pagar a feira e o aluguel dela. O moinho tem todo um cronograma de reforma das casas. A casa da Telma está sendo reformada, e deve ficar concluída até o final do primeiro semestre, mas a da Judite ainda não tem previsão para começar", diz Andréa.

O escritório Maranhão & Nogueira Advogados Associados informou que valor pago mensalmente à Judite, para custear as suas necessidades, é equivalente a R$ 1,5 mil.

Plantas tomam conta de cômodo de casa destruído após acidente (Foto: Lucas Leite/ G1)

Plantas tomam conta de cômodo de casa destruído após acidente (Foto: Lucas Leite/ G1)

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Casas continuam abandonadas após queda de silo (Foto: Jonathan Lins/ G1)

Casas continuam abandonadas após queda de silo (Foto: Jonathan Lins/ G1)

 

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