Ed Motta lança disco em inglês e relembra polêmica: "manipulam informações"

Ed Motta ainda não lançou seu “Aja”, clássico do grupo americano de jazz rock Steely Dan que é seu disco predileto. Mas a ideia é chegar lá. Após depurar o estilo em “AOR” (2013), o músico acaba de lançar aquele que talvez seja seu projeto mais ambicioso: “Perpetual Gateways”, um álbum gravado em Los Angeles com músicos de jazz americanos.

É a primeira vez que Ed Motta grava um álbum fora do Brasil e assina todas as letras, desta vez cantadas em inglês. Uma espécie deixa involuntária para a última polêmica em que se envolveu na internet, há um ano, quando alvejou o comportamento de parte do público brasileiro em seus shows no exterior, os classificando como “turma mais simplória” e se negando a cantar em português.

“Isso me ensinou que as pessoas manipulam as informações. E o quanto uma informação manipulada pode crucificar alguém. Essa foi a maior lição”, diz ao UOL um tranquilo como geralmente é Ed Motta por telefone. Apesar de reclamar da “hiperproporção” tomada pelo episódio, ele não guarda mágoa da imprensa. “Tive problemas porque eu comportei mal, não posso exigir milagre. Mas, quanto à minha obra, eu não posso reclamar. A imprensa sempre me deu atenção, mesmo quando lancei discos não tão pop.”

No bate-papo, Ed Motta também fala sobre o seu caso de amor de com a cidade natal, o Rio, do qual já se disse “dependente químico”. Entre outros assuntos, ele se posiciona neutro sobre o impeachment da presidente Dilma e afirma que o reinado dos ritmos populares, na verdade, sempre existiu, só não era divulgado antes.

Sobre a fama de pedante, o músico dá de ombros, embora admita que, em certos momentos, tenha passado da conta. “OK, reconheço que já dei motivos e soei esnobe, mas isso é intencional. E eu me arrependo depois.”

Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

Divulgação

Capa de “Perpertual Gateways” (2016)

UOL – Porque gravar no exterior pela primeira vez?

Ed Motta – Na verdade, foi um convite de um selo alemão, o Membra. Eles pediram para fazer um disco mais jazzístico e gravado com grandes nomes do mundo do jazz americano. Essa ideia partiu deles. É a base da música que eu cresci ouvindo. Soul, funk, essas coisas. É uma música que sempre escutei. Misturo ali um pouco do jazz e do soul.

Você sempre cita o “Aja”, do Steely Dan, como seu disco favorito. Já gravou o seu “Aja”?

Ainda não gravei o meu “Aja”, cara. Espero que esse dia chegue (risos). Eu não escuto toda hora meus discos. É raro. Os que mais volto a ouvir são o “Aystelum”, o “Dwitza”, o “Chapter 9”, que fiz pela Trama e gravei os instrumentos sozinho, e o “AOR”. Gosto muito desses. O “AOR” seria o meu disco mais “steelydaniano” de todos.

Por que você renega o “Manual Prático para Festas, Bailes e Afins” (1997), seu álbum mais vendido? Participou pouco da produção?

Sim. É um disco que representa menos do que eu gostaria de fazer naquela hora. Tinha uns 26 anos na época e lembro que já queria fazer uma coisa bastante próxima do que eu estou fazendo agora, mas não pude. Tem um lado de frustração grande. Mas é um disco que me trouxe uma série de confortos na vida. Comprei minha casa com ele. Ele tem esse outro lado também.

Impossível não falar com você sem mencionar a polêmica da “turma mais simplória”. O que esse episódio te ensinou?

Isso me ensinou que as pessoas manipulam as informações. E o quanto uma informação manipulada pode crucificar alguém. Essa foi minha maior lição. Mas o que aconteceu não me amedronta nem um pouco em dar minhas opiniões. Não vai fazer grande diferença. Nem para mal nem para bem. Minha opinião não tem esse peso todo. Eu pedi desculpas, mas não me arrependo de nada. As pessoas falam muito. E, na maioria das vezes, usam o que eu falei contra mim fora do contexto. OK, reconheço que já dei motivos e soei esnobe, mas isso é intencional. E eu me arrependo depois.

Você postou recentemente no Facebook uma reportagem sobre você dizendo que era “informativa” e “respeitosa”. Acha que a imprensa não te trata com devido respeito?

Tive problemas em alguns lugares porque eu me comportei mal. Não posso exigir um milagre da imprensa. Mas, quanto à minha obra, eu não posso reclamar. A imprensa, de uma forma geral, sempre me deu uma superatenção, mesmo com discos não tão pop. Eu seria injusto se reclamasse disso. Claro que ver a “hiperproporção” de uma notícia que foi dada errada me irrita muito. Tive problemas na minha vida por causa disso. Mas o lado positivo do que a imprensa brasileira me deu é infinitamente maior do desconforto que tenha causado uma ou outra polêmica.

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Você já se disse “dependente químico” do Rio. Por quê?

Moro há quase 17 anos no mesmo lugar. No bairro do Jardim Botânico, na zona sul, que é muito verde e tem animais atípicos, que você nem imaginaria encontrar em uma cidade grande. Não tem só mico aqui, o sagui, mas tem macaco grande também. Tem aves diferentes, tucanos. É uma natureza extremamente exuberante que, pra mim, é impressionante. Eu sinto falta disso. Dá a sensação de estar morando em uma cidade de interior, fora da metrópole. 

A hegemonia de Wesley Safadão e dos ritmos populares te incomoda?

Na verdade, eu não vejo tanta diferença sobre o cenário atual e o dos anos 1980, de quando eu comecei. Não acho que a década de 1980 teve uma música tão maravilhosa e incrível assim.

Qual é a diferença então?

Não sei. A música pasteurizada existe desde que o mundo é mundo. O que hoje pode passa a impressão de que é algo mais selvagem, um capitalismo mais maluco. Mas é uma impressão, porque esse tipo de música já existia desde foi criada a indústria do disco. Todo esse círculo do rádio, do jabá. Isso pode ser considera uma estética. Há toda uma história por trás, dos bastidores, de como a engrenagem da indústria funciona. E isso mexe na estética do que faz sucesso.

Não acha que hoje há menos estilos diferentes nas paradas de sucesso?

Em 1988, quando eu lancei meu primeiro disco, eu tive acesso a uma lista dos discos mais vendidos da Warner. O cara que me mostrou e falou que seria mandado embora se soubesse que eu tinha visto (risos). Cara, os sertanejos já eram o número 1 desde aquela época. A diferença era que isso não era divulgado. Isso é uma discussão longa, um negócio meio sociológico. Se não me engano, o disco mais vendido naquela época era o Gaúcho Da Fronteira. Fazendo música regional, ele vendia mais, e muito mais, que a Madonna. Isso não era falado, porque o país ainda tinha um comportamento mais de classe média.

É a favor ou contra o impeachment da presidente Dilma?

Eu sou a favor da democracia e da verdade. Não estou do lado de ninguém. Estou do lado da Justiça. Essa coisa de coxinha contra petralha ficou muito estúpida. Um pensamento muito simplista. Mas dá para compreender também. Acontece não só no Brasil, mas no mundo inteiro. O ser humano precisa simplificar esse negócio.

Fonte: Bol.com.br

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