Últimas

Em carta aberta, Associação Pernambucana de Cineastas questiona patrocínio e modelo de exibição do Cine PE

Curta This is not a song of hope, de Daniel Aragão, é um dos que estão na programação. Foto: Divulgação
Curta This is not a song of hope, de Daniel Aragão, é um dos que estão na programação. Foto: Divulgação

Em carta aberta divulgada nesta terça-feira (26), no Facebook, a Associação Pernambucana de Cineastas, junto à Associação Brasileira de Documentaristas e Curtas-metragistas de Pernambuco, anunciou a não participação no júri da competição do festival, além de duras críticas ao modelo de exibição dos filmes da grade e o patrocínio.

Confira a programação completa do Cine PE 2016

Assinado por personalidades ligadas ao meio artístico como Pedro Severien, Marcelo Pedroso e Alexandre Figueirôa, o documento questiona a transparência do financiamento do Cine PE, que ganharia subsídios da secretaria de turismo do estado – Empetur, em vez de incentivo do Funcultura.

“A pasta é responsável por mega eventos calendarizados que pagam fortunas aos artistas midiatizados e migalhas aos artistas e às artistas pernambucanas”, diz trecho.

A relação conflituosa com a organização do festival se estende durante os 20 anos de realização do Cine PE, que ocorre de 2 a 8 de maio, no Cinema São Luiz. Segundo a carta, diversos membros teriam sido convidados para formar o júri do evento. Todos os convites foram recusados.

“Ao longo dos últimos 20 anos, o diálogo entre o Cine PE e o cinema pernambucano tem sido bastante difícil. Acreditamos que duas décadas é tempo mais do que suficiente para um evento amadurecer. Portanto, não há motivo para corroborar com um festival que não dialoga com os princípios básicos daquilo que defendemos”.

Cine PE 2016

Neste ano, a programação do Cine PE terá curadoria de Rodrigo Fonseca e Sandra Bertini. Os ingressos serão vendidos pelo preço único de R$ 5. Além da mostra competitiva de longas, será realizada ainda uma de curtas pernambucanos e curtas nacionais. Entre os destaques estão o documentário pernambucano Danado de bom, de Deby Brennand, e o curta Paulo Bruscky, de Walter Carvalho.

Leia a carta na íntegra:

A Associação Brasileira de Documentaristas e Curtas-Metragistas de PE / Associação Pernambucana de Cineastas – ABD/Apeci firmou um compromisso nas lutas pelo audiovisual independente desde sua formalização no estado em 1994. Se hoje o cinema feito aqui no estado é reconhecido mundo afora, não é graças, somente, à qualidade artística e técnica, mas também pela estruturação de políticas públicas construídas com a participação deste coletivo.

Há algumas semanas atrás, a BPE – Bertini Produções & Eventos, produtora do Cine PE Festival do Audiovisual enviou uma mensagem para a a diretoria colegiada da ABD-Apeci convidando a entidade a formar um júri especial na edição deste ano do evento. A nossa resposta, resultado de discussões entre os associados, é NÃO.

E o motivo é simples: ao longo dos últimos 20 anos, o diálogo entre o Cine PE e o cinema pernambucano tem sido bastante difícil. Acreditamos que duas décadas é tempo mais do que suficiente para um evento amadurecer. Portanto, não há motivo para corroborar com um festival que não dialoga com os princípios básicos daquilo que defendemos. Não há motivo para compactuar com um festival que fez repetidamente proselitismo político em seu palco. Houveram inúmeras iniciativas de diálogo entre a ABD/Apeci e a organização do festival ao longo dos últimos anos. Quem não lembra da faixa “Menos Glamour, Mais Cinema” em 2011? A partir daquela manifestação, construímos coletivamente um documento com diversas proposições ao evento que é financiado com recursos públicos e, portanto, deve atender a critérios como inclusão social e democratização do acesso à produção em sua diversidade.

Outra questão dissonante que gostaríamos de dar visibilidade é a fonte de recursos provenientes do Estado para realização do evento e sua falta de transparência. O Fundo de Incentivo à Cultura – o Funcultura – investe um terço de seus recursos em audiovisual e esse fundo é referência de política cultural no país. A comissão de seleção dos projetos culturais e a comissão deliberativa do Funcultura é formada, em sua maioria, por representantes da sociedade civil. Isso foi resultado de muita luta, não só da ABD/Apeci, mas de inúmeras entidades, coletivos, movimentos, articulações e frentes atuantes no estado. Antes, os projetos incentivados pelo Estado através da Fundarpe e Secretaria de Cultura eram incentivados por uma única via: o balcão. O produtor legítimo ou os atravessadores e lobistas negociavam diretamente com o governo e não havia transparência alguma sobre os critérios para seleção dos projetos. Infelizmente, esse tipo de procedimento ainda existe. O Cine PE recebe incentivos não da Fundarpe/Secretaria de Cultura ou mesmo do Funcultura, que têm seus orçamentos e equipamentos cada vez mais reduzidos e sucateados pelo Governo do Estado, mas da Empetur – Empresa Pernambucana de Turismo. A pasta é responsável por mega eventos calendarizados que pagam fortunas aos artistas midiatizados e migalhas aos artistas e às artistas pernambucanas.

Diante disso, reforçamos a importância do Funcultura como instrumento de incentivo com participação da sociedade, onde os projetos são julgados em editais públicos, e entendemos que todas as instâncias de incentivo do Estado devem seguir o princípio da transparência com critérios claros e democráticos, sem apadrinhamentos. Há muito a avançar na democratização e aprimoramento do Funcultura e do Sistema de Incentivo à Cultura do Estado? Sim! Há muito a fazer. E, a nosso ver, o caminho é o da participação social, com transparência e sem favorecimentos”.

Recife, 26 de abril de 2016
Diretoria Colegiada da ABD-PE/APECI

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *