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"Então é isso, a Europa está nos expulsando"

Grécia envia os 200 primeiros imigrantes de volta para a Turquia, como parte do acordo de 18 de março com a UE

Eles não estavam acreditando, até que viram o catamarã vermelho da empresa turca Erturk se afastar da costa grega na direção de Dikili, na Turquia. A bordo, estavam 70 migrantes enviados de volta para o lugar que eles haviam deixado para tentarem alcançar um país do norte da Europa.

Para as centenas de pessoas que têm dormido no porto da ilha de Chios desde o dia 1º de abril, a estupefação é total.

“Então é isso, a Europa está nos expulsando”, lamenta Wassim Omar, um professor de inglês originário de Damasco, com o olhar fixo no navio.

“Minha mulher e eu éramos professores. Estávamos sendo ameaçados justamente por causa de nossa vontade de educar os jovens. Lancei meus três filhos pequenos nesta rota tão perigosa para garantir que eles tivessem uma boa educação, com a esperança de que em setembro eles começassem o semestre escolar em um país que, assim como eu, acreditasse no poder da educação. E eis que me vejo preso aqui, ameaçado de ser expulso como um parasita. O que vou dizer para meus filhos nesta manhã?”, diz com uma infinita tristeza esse homem delicado que faz questão de agradecer, sorrindo, ao pequeno grupo de voluntários que o escuta.

O envio de 202 migrantes de volta para a Turquia a partir das ilhas gregas de Lesbos e de Chios chocou a pequena comunidade de refugiados. As cerca de 700 pessoas do porto de Chios e dos acampamentos vizinhos tentaram digerir a informação.

Mais acima, no campo de detenção de Vial, as consequências foram imediatas: querendo evitar a expulsão, 453 pessoas, dentre o milhar de detentos instalados nos contêineres desse campo de registro, correram para o escritório de asilo para entrarem com um pedido.

“Ganhar tempo”

Até quinta-feira passada, antes do início das expulsões, eram menos de 150 os que pediam asilo diariamente.

“Houve uma progressão ao longo do fim de semana, mas agora provavelmente atingimos nosso ritmo, caso o fluxo de migrantes não cesse”, ressalta Nikos Papamanolis, diretor de serviços de asilo do acampamento.

O objetivo principal das expulsões, segundo o acordo assinado em 18 de março entre a União Europeia e a Turquia, seria desencorajar as travessias para as ilhas do mar Egeu. Diariamente, são centenas de pessoas que chegam às ilhas gregas desde que o acordo foi feito. Um dos efeitos colaterais foi o aumento nos pedidos de asilo.

“Nós entendemos que não nos deixariam ir embora livres deste acampamento”, explica, através dos arames farpados, um jovem afegão que apareceu para pegar um kit de produtos de higiene que uma ONG distribui por cima do alambrado: “Estão entrando com o pedido de asilo para tentar ganhar tempo, para evitar uma expulsão.”

Louisa Gouliamaki/AFP

Imigrante é levado para catamarã turco para ser devolvido à Turquia pela Grécia

Mas depois do acordo de 18 de março, as regras do asilo na Grécia mudaram. “Nos três primeiros dias, deveremos julgar se uma demanda é admissível. Se não for, isso abre o direito à deportação direta. Se o pedido por admissível, tem início um processo mais normal de análise do dossiê que levará várias semanas”, explica Papamanolis.

“Antes colocávamos ênfase nos riscos que se corriam nos países de origem, como Afeganistão e Síria, e agora nossas perguntas procurarão avaliar se o candidato ao asilo correria ou não risco na Turquia, de maneira a impedir sua expulsão. Todo o sistema de análise deve mudar”, ele diz.

Os sírios deverão constituir a maior parte do contingente enviado de volta para a Turquia, uma vez que beneficiam de uma proteção temporária automática devido à guerra que devasta seu país.

Além disso, a menos que um sírio consiga provar que ele corre risco na Turquia, seu pedido provavelmente não será aceito nesse prazo de três dias. O acordo prevê que, para cada sírio expulso, a Europa acolherá um outro vindo diretamente da Turquia.

Na última segunda-feira (4), nenhum sírio constava ainda entre os 202 migrantes expulsos para a Turquia: eles eram afegãos, paquistaneses, bengalis e congoleses.

“Ainda não testamos esse sistema para os sírios”, reconhece Nikos Papamanolis, que espera ansiosamente por reforços europeus para aumentar a eficácia de seu serviço.

“Estamos em três, sendo que precisaríamos de pelo menos 60 pessoas para enfrentar essa nova realidade, que transformou nossos campos de trânsito abertos em centros de detenção fechados, onde o asilo assumirá um lugar importante.”

Os quatro “hot spots” das ilhas de Lesbos, Chios, Samos e Leros não foram pensados pelas autoridades gregas para abrigar refugiados durante vários meses, tempo necessário para um processo de asilo. As condições ali são difíceis.

“Não há água potável o suficiente, não há sanitários o suficiente, não há comida o suficiente”, denuncia Janne, coordenadora norueguesa da ONG A Drop in the Ocean, que está alimentando as pessoas no porto e entrega sabonetes no acampamento.

Uma “situação desumana”

“Esse acordo é um erro, ele coloca as pessoas em uma situação desumana”, ela afirma.

Essa não é a opinião das autoridades gregas, que veem ali um sucesso para a diplomacia e para a unidade europeia. Elas pretendem enviar 750 migrantes para o porto turco de Dikili até quarta-feira, a partir de Chios e de Lesbos. Serão afetadas pela operação as 6 mil a 8 mil pessoas que chegaram à Grécia desde 20 de março, data em que o acordo entrou em vigor.

Em compensação, não há nenhuma solução prevista para os 50 mil refugiados presos em solo grego desde que foi fechada a rota dos Bálcãs.

Os 202 migrantes que chegaram a Dikili, pequeno balneário da costa egeia da Turquia, foram internados em um complexo esportivo da prefeitura. Nada foi revelado sobre o que os espera. Não sendo sírios, eles não podem ser candidatos ao asilo na Europa, nem mesmo ao status de “convidado” previsto pela Turquia.

Eles são os esquecidos do acordo, que prevê soluções unicamente para os sírios. Segundo o Ministério turco do Interior, esses migrantes serão enviados de volta para seus países.

Os turcos previam a abertura de dois “centros de acolhimento”, um em Dikili (em frente a Lesbos), e o outro em Cesme (em frente a Chios), mas somente o primeiro estava em funcionamento na segunda-feira.

No sábado (2), algumas centenas de residentes da pequena cidade balneária se reuniram no centro da cidade para protestar contra a criação de um centro de refugiados, que os comerciantes temem que vá prejudicar a temporada de turismo.

O prefeito de Dikili, Mustafa Tosun, teve de tranquiliza-los, explicando que se tratava de um centro de recepção no qual os refugiados não ficariam.

Graças à ação da polícia, que inclui patrulhas, verificação dos hotéis, detenção de coiotes, as partidas para a Grécia diminuíram nitidamente. Segundo o ministro turco do Interior, Efkan Ala, a guarda-costeira turca interceptou 60 mil pessoas que partiam para a Grécia em janeiro, e quase 2 mil coiotes foram detidos.

Na segunda-feira pela manhã, em conformidade com o acordo, 32 sírios tirados de um campo de refugiados turco foram colocados dentro de um avião na direção de Hannover, na Alemanha. Outros onze foram para a Finlândia.

Tradutor: UOL
Fonte: Bol.com.br

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