Legado dos mais de 40 filmes feitos pelos Trapalhões vira livro

Ô, da poltrona, você se “alembris” que, nas décadas de 1970 e 1980, bastava chegar as férias escolares para a molecada lotar os cinemas para ver por várias vezes o mesmo filme, sempre estrelado por Didi, Dedé, Mussum e Zacarias? A produção cinematográfica dos Trapalhões acaba de ter sua história contada no livro “O Cinema dos Trapalhões – Por Quem Fez e por Quem Viu”, do radialista e pesquisador cultural Rafael Spaca. Ao todo, o autor dedicou quatro anos de pesquisa e realizou 132 entrevistas, incluindo com Renato Aragão e Dedé Santana.

“O sucesso obtido por eles está no fato de os Trapalhões fazerem filmes que atingiam o gosto e o interesse de milhares de crianças, arrastando seus pais e familiares para as salas de cinema. Havia uma resistência da crítica especializada, mas com o tempo isso se dissipou e a nova geração de críticos e estudantes já valoriza o trabalho do quarteto”, comenta Spacca.

Não é à toa que muitos dos filmes tornaram-se campeões de bilheteria, com a peculiaridade de ficar vários meses em cartaz. Os cinco mais vistos da história do grupo foram “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” (1977), com quase seis milhões de espectadores; “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas” (1978), com pouco mais de cinco milhões; “O Cinderelo Trapalhão”, também com pouco mais de cinco milhões, assim como “Os Trapalhões na Serra Pelada” (1982) e “Os Saltimbancos Trapalhões” (1982). 

Os primeiros filmes

Ao todo, foram mais de 40 filmes, sendo o primeiro “Na Onda do Iê Iê Iê” (1965), estrelado apenas por Renato Aragão e Dedé Santana, e dirigido por Aurélio Teixeira. “Os dois aproveitaram o fenômeno musical da época (o iê iê iê, um rock abrasileirado produzido naquele tempo) e decidiram fazer um filme com essa pegada”, recorda Spacca. No elenco, estavam nomes como Clara Nunes, Ed Lincoln, Silvio César, Wanderley Cardoso, Rosemary e Wilson Simonal. Didi estrelou ainda outros dez filmes, a maioria na companhia de Dedé, e mais dois também com Mussum, até que o quarteto estreou na tela grande em 1978, com “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas”, dirigido por Adriano Stuart.

Foi nesse momento também que se estabeleceu a parceria dos Trapalhões com o diretor croata Josip Bogoslaw Tanko, mais conhecido como J. B. Tanko, que começou dirigindo apenas Aragão em “Adorável Trapalhão” (1966). Juntos, eles fizeram onze filmes, alguns bastante badalados, como “O Trapalhão no Planalto dos Macacos” (1976), primeiro filme com Mussum; “Os Vagabundos Trapalhões” (1982), estrelado por Regina Duarte; e “Os Fantasmas Trapalhões” (1987), que contava com Gugu Liberato e os meninos do grupo Dominó.

“Tanko tem seis dos 20 filmes brasileiros de maior público da história do cinema nacional. Todos dos Trapalhões. Ele foi o diretor que mais levou gente aos cinemas brasileiros. Dirigiu inúmeras chanchadas e conseguiu, com os Trapalhões, criar um conceito de cinema que agradasse a todas as faixas etárias, a todo perfil de público. Ele uniu elementos da chanchada com a iconografia do quarteto, satirizando situações, obras canônicas e até referências cinematográficas. Foi um casamento perfeito”, explica Spacca.

Uma atriz que atingiu o sucesso graças aos filmes dos Trapalhões dirigidos por J. B. Tanko foi Monique Lafond, que fez com eles quatro filmes – “Bonga, o Vagabundo” (1969); “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa” (1973); “Robin Hood, o Trapalhão da Floresta”, do mesmo ano; e o campeão de bilheteria “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” (1977).

“Eu tinha feito um filme com J. B. Tanko e o próximo dele seria um dos Trapalhões. Ele me chamou e eu fiquei meio que sendo a mocinha dos filmes. Naquela época, havia um preconceito com relação a quem fazia humor, mas eu fui fazendo, adorando e me divertindo muito. Só não fiz o quinto filme, pois senão ia virar uma trapalhona”, conta. E revela sobre os bastidores: “Saíam muitas coisas que não estavam no papel. A gente se divertia muito. Naquela época, não tinha o equipamento que tem hoje e nem o cinema brasileiro era a indústria atual. Era tudo dublado e comíamos muito pão com mortadela. Era algo bem artesanal mesmo”.

“Eles revelaram muitos atores e utilizaram técnicas que o cinema nacional não tinha dinheiro para tal e os Trapalhões sim”, comenta o jornalista Juliano Barreto, autor da biografia “Mussum Forévis – Samba, Mé e Trapalhões”. “Por exemplo, eles misturaram desenho com filme real e muitos efeitos especiais antes do sucesso de ‘Uma Cilada Para Roger Rabbit’ (Robert Zemeckis, 1988). Isso na parceria que estabeleceram com Mauricio de Sousa”. Juntos, o criador da Turma da Mônica e os Trapalhões fizeram “Os Trapalhões no Reino da Fantasia” (1985) e “Os Trapalhões no Rabo do Cometa” (1986).

Outras parcerias muito bem-sucedidas foram com Pelé, que interpretou o goleiro Nascimento em “Os Trapalhões e o Rei do Futebol” (1986), em que Cardeal (Renato Aragão) marca um gol de cabeça depois de cobrar um escanteio, algo totalmente nonsense; e com Xuxa Meneghel, que estrelou “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” (1989) e “O Mistério de Robin Hood” (1990).

“Saltimbancos” e “O Auto da Compadecida”

Vários outros diretores também trabalharam com os Trapalhões. Esse foi o caso dos também atores Adriano Stuart e Flavio Migliaccio, além de craques como Silvio Tendler (O Mundo Mágico dos Trapalhões, 1981), Daniel Filho (O Cangaceiro Trapalhão, 1983), Carlos Manga (Os Trapalhões e o Rei do Futebol), Tizuka Yamasaki (O Noviço Rebelde, 1997) e de até mesmo o próprio Dedé Santana (com quatro filmes) e o irmão de Renato e produtor Paulo Aragão – com os dois últimos, só com Didi e Dedé, Simão, O Fantasma Trapalhão (1998) e O Trapalhão e a Luz Azul (1999). Portanto, a dupla está há dezoito anos sem filmar.

Mas um diretor chama a atenção, pelo menos de Juliano Barreto. Trata-se de Roberto Farias, famoso por filmes como “Assalto ao Trem Pagador” (1962) e “Pra Frente Brasil” (1982), que, com Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, fez “Os Trapalhões no Auto da Compadecida” (1987), uma brincadeira baseada na obra de Ariano Suassuna e, na opinião do jornalista, um dos filmes mais autorais dentro da máquina comandada por Renato Aragão.

Outro momento bastante autoral foi “Os Saltimbancos Trapalhões” (1982), dirigido por J. B. Tanko, desta vez com Chico Buarque, autor da trilha e da peça que deu origem ao filme, baseada no musical infantil de Sergio Bardotti e Luis Enriquez Bacalov. “Os Trapalhões não deram palpite na trilha musical e Chico Buarque, por sua vez, não deu palpite no filme. A música ‘Piruetas’ foi muito marcante e representou um salto de qualidade na filmografia do quarteto”, destaca Barreto.

O filme marcou tanto que agora, quase 35 anos depois, está sendo refilmado por João Daniel Tikhomiroff (“Besouro”), que contará no elenco com Letícia Colin, Alinne Moraes, Marcos Frota e o sempre marcante Roberto Guilherme, mais conhecido como Sargento Pincel. “O cinema infantil é muito escolhido pelos pais e eles vão querer mostrar para os filhos o que eram os Trapalhões”, aposta Barreto.

Talvez assim a cinematografia da trupe seja levada mais a sério, acredita o jornalista. “É um crime não colocar sempre os filmes dos Trapalhões entre os mais importantes. E não estou falando como fã. Não eram o Rogério Sganzerla e o Glauber Rocha que sustentavam salas de cinema e nem era a intenção deles. Os Trapalhões faziam o cinema chegar nas camadas populares e em muitas cidades. Foi um cinema que muita gente viu e que foi sempre a grande paixão do Renato Aragão”.

Fonte: Bol.com.br

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