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MC Soffia: rapper de 12 anos combate racismo e questiona padrões

Soffia cresceu na periferia, onde convivia com preconceitos de gênero e cor, combatidos por ela nas letras políticas. Foto: Marília Morais/Divulgação
Soffia cresceu na periferia, onde convivia com preconceitos de gênero e cor, combatidos por ela nas letras políticas. Foto: Marília Morais/Divulgação

Segura de si, Soffia Gomes da Rocha Gregório Correia, 12 anos, atende desde os seis pela alcunha de MC Soffia. O primeiro show ocorreu há cinco anos, em maratona dedicada ao aniversário de São Paulo – a combinação de plateia generosa e data comemorativa não intimidou a garota. Hoje, nos arredores da Cohab Raposo Tavares, periferia de São Paulo onde foi criada, ela é reconhecida por fãs e posa para fotos com sorriso escancarado. Não esconde o que lhe parece óbvio: mal começou, mas já protagoniza uma revolução na comunidade onde vive, amplificada nacionalmente pelas redes sociais.

Enquanto prepara o disco de estreia, ainda sem título definido, Soffia joga bola, pula corda e frequenta a escola regular. Quer ganhar a vida sendo modelo, atriz e médica, além de cantora. Tudo ao mesmo tempo. “Sim. Por que não?”, ela ri. Como criança, não vê barreiras, nem limitações. E nisso está a força de suas letras: o empoderamento feminino e o culto à beleza negra, as duas principais lutas introjetadas nas músicas, lhe parecem pleitos óbvios, direitos naturais. “Não deveria ser preciso correr atrás disso. Cada um deveria ser quem é, quem quiser ser. Mas já que existe o preconceito, eu canto para que acabe”, declara, determinada.

Nas horas que antecedem os shows – hoje somados a participações em programas de TV e presença em eventos, compromissos articulados pela mãe, a produtora cultural Kamilah Pimentel, de modo a não comprometer o rendimento escolar – Soffia brinca com vizinhos e amigas: é como se concentra melhor. Três delas atuam como dançarinas da MC, acompanhada nos palcos pelas colegas e por DJ. Longe dos holofotes, a menina compõe novas músicas sempre que surge a inspiração – “mas esse processo nunca requer somente um dia”, explica. Vez em quando, a mãe, as tias e avós têm a criatividade acionada pela artista-mirim, que reclama ajuda na costura dos versos, antes produzidos com ajuda do MC 100%.

MC Soffia começou cedo no mundo do rap, onde se sente confortável para o combate aos preconceitos. Fotos: Marília Morais/Divulgação
MC Soffia começou cedo no mundo do rap, onde se sente confortável para o combate aos preconceitos. Fotos: Marília Morais/Divulgação

“Menina pretinha, exótica não é linda. Você não é bonitinha. Você é uma rainha”, dizem os versos de sua letra mais famosa, Menina pretinha, cujo videoclipe acumula 54 mil views no Youtube e ultrapassa 1 milhão de visualizações na versão hospedada em sua página no Facebook (57,7 mil curtidores). “Se tivéssemos uma Soffia há dez anos, muitas meninas não teriam perdido seus cachos e cabelos crespos”, diz uma das fãs em comentário na página, enquanto outras agradecem por se sentirem mais bonitas quando representadas nas rimas da MC.

As cenas de Menina pretinha, gravadas na Pedra do Sal, no Rio – com direção de Vras77, que já trabalhou com o rapper Emicida – mostram dezenas de meninas negras, com cabelos crespos naturais, acessórios coloridos e roupas do universo hip hop. “Não gosto de vestidinho. Visto macacão, blusões”, diz a MC, cujas referências incluem Nicki Minaj, Beyoncé, Rihanna, Alicia Keys e Karol Conká. Por ora, enquanto escolhe novas peças do próprio figurino, Soffia se concentra no lançamento do novo clipe, Minha Rapunzel de dread, parceria com os roqueiros da banda Gram e Pedro Angeli – letra dela e melodia deles. “Ao sair do estúdio, fomos comer batata frita na padaria e ela já falou: ‘você vai fazer meu clipe e eu quero quebrar uma guitarra!’. Soffia é assim.”, conta Marco Loschiavo, guitarrista da Gram, que dirigiu as filmagens a atendeu ao pedido da MC.

“Quando enviamos nosso disco, ela disse que o som era muito leve, que queria rock pesado de verdade. Aceitamos o desafio”, recorda o músico, agora fã da MC. “Eu não me sentia representada pelas princesas, só havia a Tiana [princesa negra da Disney]. Então, idealizei uma Rapunzel com dread. Ela é linda!”, diz a garota, que já se sentiu discriminada pela cor da pele no colégio. “Mas isso foi há muito, muito tempo. As coisas mudaram”, ela reflete, com razão.

ENTREVISTA: Bianca Gonçalves, pesquisadora de rap feminino e suas intersecções de gênero e raça, sob perspectiva feminista

Bianca pesquisa rap e letras feministas que empoderam mulheres. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
Bianca pesquisa rap e letras feministas que empoderam mulheres. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

A rapper mirim MC Soffia vem ganhando fama na internet pelas letras de rap dedicadas a contestar paradigmas preconceituosos da sociedade. Como você vê a participação dela nessa luta?
É importante que cada vez mais artistas negras ganhem visibilidade num mercado tão branco como tem se caracterizado o que se destina ao público infantil. No caso da MC Soffia, não se trata apenas de representatividade, ela também tem um discurso ativista muito importante para veicular às meninas negras. MC Soffia é parte de uma demanda feminista negra que cada vez mais ocupa os espaços da juventude.

Percebe, nos últimos anos, o crescimento no número de letras feministas no rap e no hip hop? Poderia citar alguns(mas) artistas adeptos dessa tendência?
Mulheres sempre estiveram presentes no hip hop, mas a emergência de um discurso auto-reafirmado feminista é algo recente. Posso destacar aqui a Issa Paz, Yzalú, Bárbara Sweet, Brisa Flow ou de outras rappers que estão cada vez mais ocupando o cenário mainstream, como a Karol Conka. É importante lembrar que mesmo que a letra não evoque necessariamente uma agenda restritamente militante, citando nominalmente o feminismo, tem surgido com cada vez mais intensidade discursos de cunho empoderador, reivindicando espaços, outras vozes que até então não apareciam muito no rap (como a voz romântica), algo muito presente nas letras de Tássia Reis, Lívia Cruz, Flora Matos, entre outras.

Podemos dizer que o Brasil tem, historicamente, a tradição de lançar mão das músicas politicamente engajadas para catapultar transformações sociais?
Creio que a música consegue refletir bastante as demandas de uma certa população em suas respectivas conjunturas. Durante o regime militar, por exemplo, o movimento Tropicália cumpriu seu papel contestador, como bem sabemos, inclusive ultrapassando os limites musicais e influenciando demais expressões artísticas. O surgimento do grupo Racionais MC’s, ativo desde o final da década de 1980, não só contribuiu para a construção de identidade de grupos marginalizados como também retratou certos aspectos históricos, enquanto narrativa, quase sempre incluindo reivindicações políticas.

Como o hip hop está entrelaçado, historicamente, à periferia e à cultura negra?
Há várias histórias sobre a gênese do hip hop, uma delas – a mais recorrente – concebe o surgimento do movimento nos bairros pobres de Nova York durante a década de 1980, após um momento de crise econômica, vitimando principalmente a população negra e latina. Ao mesmo tempo, é preciso ter em mente que o hip hop é um movimento cultural da diáspora negra, tendo também se delineado em países que sofreram problemas sociais, como a Jamaica e países da América Latina. Portanto, a agenda de direitos humanos e de justiça social, incluindo reivindicações de setores marginalizados da sociedade – principalmente a da população negra – é um aspecto fundamental que caracteriza o hip hop.

[embedded content] Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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