Médico traz à tona debate sobre a importância dos cuidados paliativos

Era madrugada, Naná Vasconcelos passava mal, tinha voltado de um show, mas fez questão de dormir em casa e só ir no dia seguinte para o hospital. Naná tinha câncer de pulmão. Preferir passar mais tempo com a família pesou mais tarde na decisão da mulher do percussionista, Patrícia Vasconcelos, quando optou, a partir da vontade do músico, pedir a transferência do marido, desenganado pelos médicos, da UTI para um quarto. Assim, o percussionista recebeu cuidados paliativos e ficou mais próximo da família. Uma semana após a transferência, Naná faleceu. Para Patrícia, aqueles últimos sete dias no quarto foram a melhor escolha possível. Assim como ela, muitos pernambucanos têm tomado a decisão por cuidados paliativos ao invés do prolongamento da vida através de cirurgias e intervenções agressivas. Por causa disso, o médico Hilton Chaves, organiza na próxima quinta-feira dia 28, às 19h30, no Hospital Tricentenário, em Olinda, o debate “Cuidados Paliativos”.

O tema será discutido com médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, nutricionistas, psicólogos, psicanalistas e com familiares de doentes terminais. “Cuidados paliativos são uma forma de dar mais qualidade de vida aos doentes que estão em um quadro final, ao invés de forçá-los a ter mais quantidade de dias. Trata-se de buscar maior transparência também da equipe médica, que deve evitar falsas esperanças para os familiares, e de dar dignidade aos últimos momentos dos doentes”, explica Chaves, coordenador das UTIs dos Hospitais Santa Casa e Tricentenário. Segundo ele, um exemplo sobre o assunto pode ser dado no caso de uma paciente de 100 anos que chega a uma UTI em coma e precisa fazer procedimentos para comer e respirar. “Neste caso, é muito mais interessante para o doente ficar os últimos dias com sua família, ao invés de ocupar um leito nas UTIs já lotadas do estado”, defende Chaves.

O médico ressalta ainda que, para a paliação ser realmente uma opção em Pernambuco, é preciso avançar no debate e treinar equipes com esse objetivo. “Como é um tema muito delicado, a morte, o hospital precisa de um time preparado até mesmo convencer as famílias sobre o melhor caminho a tomar. É preciso uma equipe multifuncional com psicólogo, nutricionista, médicos, enfermeiros, etc. É um longo trabalho, porque isso não é uma política pública, mas já temos visto excelentes iniciativas no estado.” Ele se refere ao Hospital do Câncer, ao Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) e ao Imip, que já têm equipes especificas de cuidados paliativos, inclusive com atendimentos à domicílio. “Não é inerente à paliação que o paciente volte para casa. É importante repensarmos às internações dos pacientes terminais em UTIs. Imagina, morrer numa UTI, longe da família? Será que isso é necessário sempre?”

Para Patrícia Vasconcelos, a resposta é não. “Naná, no quarto, pode receber seus amigos, escutar música, eu lia para ele, abria a janela, ele adorava olhar o Recife. Nada disso seria possível se ele tivesse passado sua última semana na UTI”, afirma. Ela acredita também que os cuidados paliativos recebidos pelo marido ajudaram a própria família a aceitar melhor o luto. “Hoje eu sofro apenas pela saudade. Mas, não tenho nenhum arrependimento sobre os últimos momentos de Naná. Fizemos o que ele queria e pudemos dar todo o carinho e amor possíveis nos seus dias finais. Isso é algo insubstituível. Faria tudo novamente”, finaliza. Vale ressaltar que o secretário estadual de Saúde, o oncologista Iran Costa, que também é especialista em paliação, participará do evento do dia 28. A mesa será completada pela promotora de defesa da saúde da capital, Helena Capela, do Ministério Público de Pernambuco (MPPE).

Como funciona

1 – Cuidados Paliativos foram definidos pela Organização Mundial de Saúde em 2002 como uma abordagem ou tratamento que melhora a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças terminais;

2 – Para este trabalho ser realizado é necessário uma equipe mínima, composta por: um médico, uma enfermeira, uma psicóloga, uma assistente social e pelo menos um profissional da área da reabilitação;

3 –A Organização Mundial de Saúde (OMS) desenhou um modelo de intervenção em cuidados paliativos onde as ações paliativas têm início já no momento do diagnóstico.

4 – Para os familiares, as ações se dividem entre apoio social e espiritual e intervenções psicoterapêuticas do diagnóstico ao luto;

5 – Um programa adequado inclui ainda medidas de psicoterapia para os profissionais da equipe, além de educação continuada.

6 – A condição ideal para o desenvolvimento de um atendimento satisfatório deve compreender uma rede de ações composta por consultas ambulatoriais, assistência domiciliar e internação em unidade de média complexidade.

Fonte:  ANCP

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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