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Nem todos venezuelanos querem sextas-feiras de folga

Críticos dizem que medidas do governo Maduro para poupar energia, como decretar fins de semana prolongados no setor público, farão o país mergulhar ainda mais fundo na crise econômica.

Para mais de 2,7 mil funcionários públicos venezuelanos, a quinta-feira (07/04) foi o último dia de trabalho da semana. Em mais uma tentativa de reduzir o consumo de energia, o presidente Nicolás Maduro decretou que as sextas-feiras de abril e maio são feriados para quem trabalha para o Estado – exceto em serviços essenciais.

Por causa da crise energética, o governo já obrigara os centros comerciais a reduzir seus horários de funcionamento, determinando que eles gerem a própria energia que consomem durante determinados horários. Outra determinação foi a ampliação em até uma semana do tradicional feriado da Semana Santa – medida que Caracas reconheceu não ter tido o efeito esperado.

O governo cita um fenômeno climático como justificativa. Na Venezuela, o “El Niño” é causa de uma das piores secas dos últimos anos, que prejudica o sistema de geração das usinas hidrelétricas, responsáveis por mais de 60% da eletricidade consumida no país.

Mas para críticos, como Victor Maldonado, porta-voz da Câmara de Comércio Indústria e Serviços de Caracas, “o problema não é produto do mau tempo, mas do mau governo”.

Já em 2010, a Venezuela teve que lutar contra a seca. Naquela época, também o “El Niño” foi responsabilizado. Devido à emergência hidrelétrica, o governo investiu 38 bilhões de dólares para colocar usinas termoelétricas em operação em todo o país. Estas usinas deveriam contribuir gerando energia adicional para aliviar os geradores das hidroelétricas.

“Mas esse dinheiro serviu para gerar mais corrupção, em detrimento da emergência de eletricidade, porque essas usinas agora estão fora de serviço. O silêncio do governo sobre a produção termoelétrica é a prova do mau investimento”, critica Maldonado.

Crises em série

A crise energética afeta o trabalho dos pequenos empresários, como Richard Solares, de 51 anos, que há 22 anos tem uma serralheria. Com o racionamento, as suas máquinas não podem operar.

“Além disso, temos de pagar a eletricidade, os empregados, impostos, limpeza urbana, aluguel e, se não temos energia, não podemos gerar o faturamento necessário para quitar todas essas contas”, explica.

O empresário considera a medida absurda: “Com tantas crises que existem na Venezuela, não podemos parar a produção. Isso me afeta, se deixo de ter renda. E os venezuelanos têm que trabalhar para mover o país para frente.”

Na rua, há pontos de vista conflitantes sobre o decreto. Para a engenheira Marly Henao, de 38 anos, a medida “incentiva a preguiça” em vez de gerar uma maior produção em meio a uma crise econômica. Henao acredita que o problema da energia é um resultado de “má manutenção de máquinas e inépcia de trabalhadores não qualificados”.

Carlos Campos, de 53 anos, admite que o decreto não o afeta muito, porque ele trabalha na economia informal. Mas diz que está de acordo com a medida: “Se for para o bem de todos.” Firellet Villalobos, de 18 anos, também não é afetado pelo decreto, pois trabalha em uma padaria que abre às sextas-feiras, mas acredita que não terá impacto sobre o consumo de eletricidade. “Em casa, as pessoas ligam a TV e o ar condicionado”, pondera.

Um dia a menos trabalho consegue reduzir o consumo de energia da indústria estatal, que possui siderúrgicas, fábricas de cimento, comunicações e outros serviços, mas, paradoxalmente, poderá piorar a crise econômica que existe no país.

Victor Maldonado, da Câmara de Comércio, acredita que a implementação desta medida gera “desespero na sociedade, porque mostra que o governo dá-se por vencido frente ao problema da energia”.

O “El Niño” tem afetado outros países com a seca, mas não tem sido envolvido em uma crise de energia da magnitude que da que afeta a Venezuela. De acordo com Maldonado, isso ocorre devido à “falta de planejamento e à má gestão de fundos, que eram destinados a reforçar o sistema nacional de eletricidade”. Para Maldonado, declarar as sextas-feiras como feriados “é uma mensagem tanto de desespero como de falta de previsão e incapacidade”.

Fonte: Bol.com.br

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