No Recife, militantes fazem acampamento e vigília contra impeachment

Manifestantes contrários ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) montaram acampamento na Praça do Derby, zona central do Recife, dando início a uma vigília que vai permanecer no local pelo menos até domingo (17), para acompanhar a votação do processo na Câmara dos Deputados.

O acampamento começou a ser montado na tarde de hoje (15). Aos poucos, integrantes de movimentos sociais e partidos da base aliada, além de militantes do PT, se instalavam no gramado da praça. Um dos primeiros grupos a chegar foi o Coletivo de Lésbicas e Mulheres Bissexuais de Pernambuco (Comlés-PE). Quatro das sete barracas que vão abrigar dez pessoas da entidade já estavam montadas antes do anoitecer.

A estudante de jornalismo Maria Luíza Aquino, 28 anos, vai acampar pela primeira vez em nome de uma causa. “A motivação é totalmente a favor do que eu acredito e da construção de quem eu sou. Sou mulher, negra, bissexual, de terreiro, bolsista do Prouni [Programa Univesidade para Todos] e jovem. Eu estou na linha de tiro da oposição. Estou num local que não querem que eu esteja, na graduação [ensino superior]. E esse golpe vai tirar os avanços que a gente teve nas políticas de reparação até hoje. Esse governo tem que concluir o que ele foi eleito para fazer pelo voto popular”, defendeu.

Acampamento na Praça do Derby, no Recife, onde militantes farão vigília para acompanhar a votação do processo de impeachment na Câmara

Acampamento na Praça do Derby, no Recife, onde militantes farão vigília para acompanhar a votação do processo de impeachment na Câmara Sumaia Villela/Agência Brasil 

Grupos experientes em acampamentos políticos estavam presentes. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e suas barracas de lona preta ocuparam parte do espaço.

Uma cozinha improvisada também foi montada ao lado dos banheiros públicos da praça. Frango, ovos, macaxeira e feijão em grande quantidade foram levados pelos trabalhadores sem-terra para alimentar os manifestantes até domingo, quando a Câmara votará a admissibilidade do processo de impeachment de Dilma.

“Ouvi no ônibus uma piadinha hoje, falando que nós que estávamos na rua éramos um bando de baderneiros e estávamos aqui por conta de R$ 30 e mais pão com mortadela. Mas a nossa luta não é essa. Somos nós, camponeses, que plantamos, trazemos os alimentos dos nossos acampamentos e compramos com o nosso dinheiro”, disse Ana Angélica Silva de Souza, 28 anos, integrante do MST.

Para atender a todos os que participarem da vigília, foi montado na praça um espaço para receber doações de alimentos, água e material de higiene. Até o início da noite, o movimento já havia recebido 20 galões de água mineral, pacotes de biscoito, café e cereais. A previsão da Frente Brasil Popular, organizadora da vigília, é receber cerca de 400 pessoas entre hoje e amanhã (16).

Cultura

As atividades do acampamento também incluem programação cultural. Hoje, enquanto grupos montavam barracas e enfeitavam a praça com faixas e placas contra o impeachment e em defesa de políticas públicas, um grupo de músicos do Levante Popular da Juventude fazia o público dançar com clássicos de Chico Buarque, Milton Nascimento e outros compositores brasileiros e latino-americanos.

Para o sábado, estão previstos três espetáculos teatrais, uma roda de poetas e grupos de samba, coco e maracatu. No domingo, os manifestantes manterão o acampamento, mas, às 9h, deixarão lo local temporariamente para uma caminhada até o Marco Zero, na parte histórica do Recife, para um ato contra o impeachment e a montagem de um telão para acompanhar a votação na Câmara, prevista para as 16h.

Organizações a favor do impeachment, como o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua, também vão acompanhar nas ruas os votos dos deputados federais. Os grupos que defendem o afastamento de Dilma Rousseff da presidência da República se reunirão domingo na Avenida Boa Viagem, no bairro de mesmo nome, a partir de 14h.

As duas manifestações devem durar até o fim da votação.

Carta ao governador

A Frente Brasil Popular entregou, no começo da noite, ao secretário-executivo da Casa Civil do governo de Pernambuco, Marcelo Canuto, uma carta aberta ao governador, Paulo Câmara (PSB), pedindo que ele mude sua posição em relação ao impeachment de Dilma. Câmara defende o afastamento da presidenta.

O presidente estadual do PT, Bruno Ribeiro, explicou que a intenção da carta – que cita com destaque o ex-governador pernambucano Miguel Arraes – é propor uma reflexão ao governador e ao PSB estadual, para que assumam as posições históricas do partido.

“Colocamos na carta que a história está batendo na porta do Palácio do Campo das Princesas [sede do governo do estado]. Em 1964, ela encontrou um governador altivo [Arraes], que se recusou a renunciar, saiu preso e foi deposto na Assembleia Legislativa com um impeachment. Estamos ponderando isso na carta para que ele reveja a posição que tomou”, explica.

Carlos Veras, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Pernambuco, lembrou que os outros dois governadores do PSB (Paraíba e Distrito Federal) se colocaram contra o impeachment, e explicou a intenção de pedir o apoio de Paulo Câmara é tentar influenciar a contabilização de votos dos deputados federais na votação de domingo.

“A contribuição dele é chamar a bancada próxima a ele e pedir para votar contra o golpe. Pedir inclusive para aqueles que tiverem problemas [em assumir a posição], que não vá. É melhor faltarem do que ficarem marcados para o resto da vida com a covardia maior que será votar contra o povo pernambucano”, disse o sindicalista.

O governador Paulo Câmara mudou de opinião no decorrer do processo. Antes, se declarava publicamente contra o impeachment. Recentemente, no entanto, defendeu novas eleições presidenciais, e liberou os secretários de seu governo que têm mandato de deputado federal para  retornar à Câmara e votar pelo impedimento de Dilma Rousseff.

Fonte: Bol.com.br

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