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O outro lado dos senhores da moralidade

A expressão popular “Faça o que eu digo, não faça o que eu faço” faz parte da cultura brasileira e veste como luva a sessão em que foi votada a abertura do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff, no último domingo (17). Dos 513 deputados federais inscritos para votar na Câmara Federal, 298 respondem a processos na Justiça comum, eleitoral ou mesmo em Tribunais de Contas – alguns deles já condenados. Ironicamente, mais da metade dos 40 parlamentares da Comissão de Ética da Casa engrossam a incongruência, somando um total de 88 processos judiciais em andamento.

Isso significa que de cada 10 parlamentares que protagonizaram um dos momentos políticos mais delicados da história política recente, seis possuem algum tipo de ressalva judicial, como revela levantamento da ONG Transparência Brasil, na plataforma do Projeto Excelências. As pendências, no entanto, não pendem para qualquer lado, já que 59% dos parlamentares processados votaram a favor do impeachment, frente os 57,5% dos que se disseram contra ou se mantiveram distantes do processo de decisão.

“De modo geral, há uma ideia forte de que nenhum político é honesto. A diferença é que atualmente isso se potencializa com a descrença na política. A pessoa pode até saber que o candidato dela está sendo acusado de algo, mas há um entendimento de oportunidade – se ele está lá, que possa decidir”, avalia o pesquisador de pós-doutorado em sociologia da Universidade Federal de Pernambuco.

O deputado recordista em número de processos faz parte da Mesa Diretora da Câmara como primeiro-secretário da equipe de Eduardo Cunha (PMDB-RJ): Beto Mansur (PRB-SP), com nada menos que 47 procedimentos instaurados. Na Comissão de Ética e Decoro Parlamentar, outra liderança em implicações jurídicas é o titular Washington Reis (PMDB-RJ), com 30 processos.

Segundo o doutor em ciência política da Universidade Católica de Pernambuco Juliano Domingues, em tese, esse aspecto poderia fragilizar a votação. No entanto, objetivamente, isso parece não acontecer pelo fato disso não estar em pauta. “Esse cenário expõe uma série de disfunções do nosso sistema político. De uma maneira geral, a intolerância à corrupção não é um valor internalizado no eleitorado. O eleitor tende a votar, sem maior constrangimento, em corruptos ou suspeitos de corrupção se isso representa a possibilidade de melhoria da sua qualidade de vida”, explica, lembrando que os deputados foram, afinal de contas, escolhidos nas urnas. “Queiram ou não, eles representam o eleitorado do país. O jogo está sendo jogado”.

Praticamente metade dos partidos políticos representados na Câmara possuem mais da metade de seus eleitos implicados em processos judiciais. Quando o recorte é geográfico, há cenários intrigantes, como o estado do Sergipe, que tem 100% dos parlamentares com algum tipo de ressalva jurídica. Nesse contexto, Pernambuco aparece no grupo de oito estados cujos representantes federais implicados não excede metade dos eleitos – no caso, 11 dos 25 pernambucanos, dos quais destacam-se nacionalmente dois nomes de ideologias distintas: o pró-impedimento Marinaldo Resende (PSB-PE), com 9 processos, e do outro lado, Zeca Cavalcanti (PTB-PE), com 16.

Para os especialistas, há uma enraização do sistema de trocas na política que permite a longevidade das distorções entre o que é esperado pela população e ofertado enquanto representação – sistema este que começa na hora do voto na urna, pensado em benefício próprio, que qualifica a barganha feita por partidos, uma vez eleitos. “O ideal para um bom funcionamento de um sistema político é a existência de partidos fortemente enraizados na sociedade, com um viés ideológico e programático bem definido. É justamente o que não se vê no Brasil, onde temos um sistema partidário pouco institucionalizado, típico de países de democracias frágeis. Nesses casos, observa-se um alto grau de volatilidade, ou seja, os partidos mudam de direcionamento como quem troca de roupa, a depender do que vão ganhar”, atesta Domingues, acrescentando que o modelo é justificado pelo próprio eleitor, cuja escolha seria feita por personalismo e “clientelismo”.

“É preciso que a população tenha uma noção mais ampla do que é política. A noção atual, restrita às questões partidárias e governamentais, não permite a participação efetiva na vida política. É preciso entender que política não é ir na urna a cada dois anos”, finaliza Araújo Silva.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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