O paraíso dos políticos é bem aqui

HALLDOR KOLBEINS
HALLDOR KOLBEINS

Envergonhado, sem conseguir se explicar diante dos eleitores, após aparecer no escândalo denominado Panama Papers, o primeiro ministro da Islândia, cujo nome é quase impronunciável para os brasileiros (Sigmundur David Gunnlaugsson) teve de se afastar do cargo. De forma instintiva, os brasileiros que tomaram conhecimento do caso, ofuscado na última semana em meio ao processo de impeachment, perguntavam-se por que o mesmo não acontecia aqui? Muitos se indagaram como o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), também envolvido nesse escândalo internacional, ainda conduz o processo que pode levar à cassação da presidente Dilma Rousseff. Outra pergunta ainda surgiu: por que o Brasil não é como a Islândia? Por que é tão tolerante com a corrupção?

A resposta a seguir pode não ser a mais satisfatória, porém vale uma reflexão. O primeiro ministro da Islândia pediu afastamento depois de aparecer, ao lado da esposa, como sócio de uma empresa offshore (de fachada) nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal. O escândalo envolveu outros líderes mundiais, como o presidente recém eleito da Argentina, Maurício Macri, mas, teve efeito fulminante sobre o islândes, que tombou diante dos protestos feitos em frente ao parlamento daquele país. Por qual motivo então?

Um viés da explicação é apresentado por Adriano Gianturco, professor do IBMEC-MG. Ele é doutor em teoria política e econômica pela Universidade de Genova, mestre em ciência política pela Universidade de Turim e bacharel em Ciência Política e Relações internacionais pela Universidade de Roma. Italiano, nascido na Sicília, porém residente no Brasil há seis anos, Adriano avalia que a autoestima do brasileiro é baixa quando se trata de combate à corrupção. Segundo ele, não é possível, nesse momento histórico, comparar o Brasil com a Islândia, que fica no norte europeu. Em entrevista ao Diario por telefone, ele explica que o país nórdico tem cerca de 300 mil habitantes, equivalente ao município de Caruaru, no Agreste de Pernambuco.

“Na Islândia, há um controle muito forte da população, porque é um país pequeno. Os políticos frequentam os mesmos restaurantes, os filhos estão nas mesmas escolas, a Islândia é uma cidade média do Brasil e a população consegue vigiar, controlar, a pressão é muito forte”, diz. “Quando eu vejo vocês dizendo que o Brasil é o mais corrupto do mundo, tenho que criticar”, disse o professor.

Para Adriano Gianturco, que faz palestras pelo Brasil sobre o mito da corrupção, até mesmo a posição geográfica da capital brasileira, no Centro Oeste do país, dificulta a fiscalização. “As pessoas comparam o Brasil com países da Europa. Isso não é uma comparação válida. Tem que fazer comparações com países da América Latina ou até mesmo com o Brics. Entre os países do Brics (Brasil, Índia, China e Rússia), o Brasil é o menos corrupto”, declarou. “Isso não é algo que se possa analisar com emoção. O Brasil está na 69ª posição mundial no ranking da corrupção. Não é o país mais corrupto do mundo. Isso faz parte de uma ideologia que domina o mundo da intelectualidade brasileira”, avaliou.

O professor Adriano Gianturco frisa não haver maneiras de combater a corrupção sistêmica no Brasil ou em nenhum lugar do mundo sem mudar as antigas fórmulas. Crédito: Instituto Mackenzie (Instituto Mackenzie)
O professor Adriano Gianturco frisa não haver maneiras de combater a corrupção sistêmica no Brasil ou em nenhum lugar do mundo sem mudar as antigas fórmulas. Crédito: Instituto Mackenzie

O professor Adriano Gianturco frisa não haver maneiras de combater a corrupção sistêmica no Brasil ou em nenhum lugar do mundo sem mudar as antigas fórmulas. Ele enxerga correlação entre a pobreza, a instabilidade política, a imunidade política, o nível educacional do brasileiro e a corrupção. Mas faz a ressalva que o impulso da corrupção brasileira é o protecionismo e a burocracia. De acordo com ele, tanto um quanto outro impedem iniciativas inovadoras e fazem com que, para se fazer qualquer coisa no Brasil, seja preciso passar pela mão de quem aprova. Isso, na avaliação dele, é uma fábrica de propinas. “Há uma competição entre os agentes políticos por isso se baixa o preço da propina. Segundo O´Rourke, se a legislação decide tudo que pode ser comprado e vendido, ela vai ser comprada”.

Líderes mundiais na lista da vergonha

O escândalo Panama Papers do qual faz parte o ex-ministro islandês e o presidente da Câmara dos Deputados é o mesmo que menciona 12 ex e atuais chefes de Estado, atletas e artistas, como o cineasta Pedro Almodóvar. O Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação que apurou o caso indica que a firma advocactícia Mossack Fonseca, já investigada pela Lava-Jato no início do ano, criou e vendeu empresas offshores para políticos de várias partes do mundo e, até agora, sete partidos brasileiros: PSDB, PMDB, PP, PDT, PTB, PSB e PSD. Nomes como o do ex-senador pernambucano Sérgio Guerra, já falaecido, aparecem no vazamento, além do ex-ministro da Fazenda Delfin Neto, um dos caciques do PMDB, e Gabriel Junqueira, filho do presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

De acordo com o professor de direito internacional, Clayton Vinicius Pegoraro de Araujo, o sistema que alimenta a corrupção no Brasil se assemelha ao de uma máfia. Wilson Camargo/Divulgacao
De acordo com o professor de direito internacional, Clayton Vinicius Pegoraro de Araujo, o sistema que alimenta a corrupção no Brasil se assemelha ao de uma máfia. Wilson Camargo/Divulgacao

O professor de direito internacional da Mackenzie Clayton Vinicius Pegoraro de Araujo, contudo, ressalta que o Brasil está num bom caminho em relação ao combate à corrupção, ainda que Eduardo Cunha não tenha renunciado ao cargo como fez o premier islândes. Clayton, que tem mestrado e doutorado em direito pela PUC, cita a Operação Lava-Jato, por exemplo, como um avanço. Ele acredita haver uma evolução do país em relação aos vizinhos da América Latina. “Não acho que o Brasil é tolerante com a corrupção (..) Aliás, o país vem se mostrando bem enérgico nesse momento, tendo, dentro do Brics, uma legislação extremamente desenvolvida”, diz.

Clayton Vinicius avalia, contudo, que, partindo do pressuposto que se estabeleceu um crime organizado na política brasileira, algo que atinge vários partidos, não adianta apenas prender os líderes porque “há uma forma de progressão no sistema mafioso”. É como na máfia, explica, quando um cai, outro assume. “O combate ao crime tem que atingir as bases econômicas do sistema, o núcleo financeiro”, abservou, admitindo ser uma tarefa tão árdua como o combate às drogas. Para chegar ao paraíso, portanto, parece ser mais difícil do que um camelo passar pelo buraco de uma agulha. (A.M)

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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