Prefeita faz de Paris laboratório de ideias da esquerda

  • Franck Fife/AFP

    A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, posa ao lado do troféu da Uefa Euro 2016 em frente à Prefeitura

    A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, posa ao lado do troféu da Uefa Euro 2016 em frente à Prefeitura

Sob o imenso teto de vidro amarelo esverdeado da Canopée, com a gola de seu blazer azul levantada para se proteger do frio, ela sorri para uns, beija outros, posa para selfies. Nesse sábado (9), Anne Hidalgo comemora seus dois anos de mandato como em um “speed dating” com os parisienses no fórum de Halles. Mas a prefeita de Paris de repente fica na defensiva quando surge uma pergunta sobre o movimento En marche!, lançado por Emmanuel Macron, no dia 6 de abril.

“Acho que não é da administração de Bercy que virá a renovação do país. Tenho dúvidas quanto a isso. Espero que o ministro da Economia atue na condição de ministro.” Depois, ela diz: “Não preciso lançar um movimento. Eu tenho Paris!”

A cutucada é significativa: Hidalgo se considera no mínimo tão legítima quanto o ministro da Economia para encarnar uma forma de modernidade à esquerda. Enquanto o governo vai caindo nas pesquisas, ela mantém sua popularidade em alta, com 52% dos parisienses aprovando sua ação, segundo pesquisa do Ifop para o “Journal du dimanche” (realizada entre 29 de março e 1º de abril, junto a 987 pessoas), ou seja, somente 1% a menos que em 2014. Ainda que receba críticas sobre a limpeza, a habitação ou o trânsito, sua decisão emblemática de proibir o diesel até 2010 e de fechar para os carros as margens do Sena em 2016 foi bastante apreciada.

Desde que foi eleita, e sobretudo após os atentados terroristas de 2015, Hidalgo vem tentando fazer da capital o laboratório de uma renovação da participação dos cidadãos na vida política. Como boa comunicadora, ela fez disso um cavalo de batalha de sua ação pública.

Para além de uma simples consulta à população, a ideia é “recolocar a deliberação e o confronto no centro do funcionamento da democracia representativa”, ela diz. Ela possui um Orçamento Participativo de 100 milhões de euros, uma ferramenta para permitir que os cidadãos “coproduzam”, ela diz, a ação municipal.

Nathalie Kosciusko-Morizet, a líder da direita parisiense, vê nessa panóplia do “método Hidalgo” “simulacros destinados a mascarar um falso diálogo dos habitantes sobre as obras da cidade.”

Hidalgo também se orgulha de conseguir governar Paris para além das divisões partidárias, o que na opinião dela a autoriza a dar a Macron, bem como a Manuel Valls, alguns conselhos sobre arte e a maneira de mudar as coisas para reformar a esquerda, meta que eles estabeleceram para si.

“É afirmando seus valores, humanistas e social-democratas, que a esquerda poderá implementar projetos com a direita”, ela proclama, “e não diluindo suas ideias em uma deriva direitista.”

“Anne é uma estrategista. Ela sabe até onde fazer concessões sem abrir mão de suas convicções”, observa Christophe Girard, prefeito do 4º distrito pelo Partido Socialista (PS). Quanto à forma, “existe um contraste entre sua maneira de atacar o governo e sua prática política”, confirma o diretor de comunicação Philippe Grangeon, próximo da prefeita de Paris. “Ela é menos divisora, menos brutal e mais coletiva em Paris”. 

Quanto ao conteúdo, “os meios empresariais temiam seu lado fiscal trabalhista, quase achando que ela tinha um lado Macron em sua maneira de fazer de tudo para ajudar as empresas em Paris”, observa Nicolas Hazard, empresário e presidente do conselho estratégico de Hidalgo.

Ou seja, cerca de trinta personalidades (pesquisadores, artistas, esportistas, empresários) que Hidalgo usa como “sensores” para orientar suas escolhas.

O alvo dos aliados de Valls

Ao promover suas realizações, Hidalgo toma o cuidado de jamais se colocar como contra-modelo do método governamental. “Eu tento, através de Paris, traçar uma rota na qual todos nós possamos mergulhar de cabeça e que seja positiva. Se o que eu faço puder servir a outros, melhor”, ela diz.

Mas ao ouvi-la se gabar de sua ação ao mesmo tempo em que critica a do governo, parte do PS tem se irritado com sua maneira de fazer o anti-jogo em relação a seu próprio lado.

Hidalgo se tornou o alvo dos aliados de Valls. Suas críticas sobre a lei El Khomri e o trabalho aos domingos são interpretadas como “posturas”. “Valls não entende por que ela bate nele dessa forma”, conta um parlamentar aliado de Valls, “ainda mais que ele não faz nada para incomodá-la em Paris. Pelo contrário.”

O círculo íntimo do primeiro-ministro vê nela os sinais pressagiadores de sua ambição presidencial.

“Hoje Anne só pensa em uma coisa: continuar sendo prefeita de Paris em 2020”, explica um parlamentar aliado de Valls. “Uma vez reeleita, nada e nem ninguém a deterá. Nas prévias de 2021, assistiremos a uma partida entre uma andaluza e um catalão”, ele prevê.

Hidalgo insiste que “ela não aspira a qualquer outro cargo que não o de prefeita de Paris”. Mas pela maneira como ela se impõe em Paris e no debate nacional, a esquerda do PS quer acreditar que algum dia ela será seu estandarte.

“Anne Hidalgo sairá intacta do mandato de Hollande, ao contrário de alguns membros do governo que se queimaram muito. Ela terá, juntamente com outros, um papel de protagonismo na recomposição da esquerda após 2017”, prevê o deputado de Nièvre, Christian Paul, do PS.

Alguns parlamentares “rebeldes” chegaram a entrar em seu gabinete na prefeitura para sondar suas intenções de se candidatar em 2017. Hidalgo educadamente os mandou embora. “François Hollande deve se recandidatar. Não há escapatória possível para ele. Ele precisa assumir o que fez e explicar aos franceses”, ela diz com despeito.

Tradutor: UOL
Fonte: Bol.com.br

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