Recordista do cinema nos anos 1970, diretor luta para reencontrar espaço

  • Ze Carlos Barretta/Folhapress

    Midas do cinema nacional nos anos 1970 e 1980, cineasta Neville D'Almeida volta à tela grande após 19 anos

    Midas do cinema nacional nos anos 1970 e 1980, cineasta Neville D’Almeida volta à tela grande após 19 anos

Durante muito tempo, em uma época distante do “fenômeno” “Os Dez Mandamentos”, Neville D’Almeida reinava entre as maiores bilheterias do cinema nacional. Em 1978, 6 milhões de pessoas foram ao cinema só para ver Sônia Braga em cenas eróticas no drama psicológico “A Dama do Lotação”, tornando-se o segundo filme mais assistido até então, ficando atrás apenas de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976).

Após quase duas décadas longe do circuito, o cineasta mineiro volta finalmente às salas nesta semana com “A Frente Fria que a Chuva Traz” –na verdade, em apenas duas, no Rio e São Paulo, frente às 1,4 mil salas de “Capitão América: Guerra Civil”.

O mercado definitivamente não é o mesmo, mas Neville, sim. Provocador por natureza, ele sonha em voltar a levar multidões ao cinema: “Quero brigar com ‘Star Wars’, aquela coisa ridícula. . É uma chanchada tecnológica”, diz à reportagem do UOL.

Aos 75 anos, o cineasta, muitas vezes rotulado de marginal e rei da pornochanchada, volta a sua lente inquieta para uma turma de jovens da elite carioca. Eles alugam uma laje na favela do Vidigal para promover festinhas proibidas, regadas a funk, sexo, álcool e drogas.

Adaptação da peça do dramaturgo Mario Bortolotto (que também está no elenco), “A Frente Fria que a Chuva Traz” é quase uma versão imoral de “Malhação”, protagonizado por novos rostos globais, que ainda não haviam estreado na televisão na época das filmagens (em 2010), como Bruna Linzmeyer e Johnny Massaro (de “A Regra do Jogo”), Juliana Lohmann (“I Love Paraisópolis”) e os ex-Rebeldes Chay Suede (“Império”) e Juliane Araújo (“Jóia Rara”).

“O filme é sobre a classe dominante, sem nenhum ideal, sem nenhuma ética, sem nenhuma cultura. Apenas a arrogância dos que acham que pode comprar tudo”, reflete.

Com os olhos claros e opacos, Bruna Linzmeyer vive Amsterdam, garota que se aproxima do grupo apenas para aproveitar o banquete tóxico. “A pessoa mais lúcida no meio disso tudo”, descreve Neville.

O cineasta enxerga a personagem como uma continuidade na representação da mulher em seus filmes, a exemplo de Sônia Braga, Regina Casé em “Os Sete Gatinhos”, Christiane Torloni em “Rio Babilônia” e Vera Fisher em “Navalha na Carne” (1997). “Existe o tema da opressão da mulher nos meus filmes. É uma condição milenar”.

Trailer de “A Frenta Fria que a Chuva Traz”

Uma nova dama

Envolvido com exposições no Brasil e no exterior da série “Cosmococas”, projeto multimídia que desenvolveu em parceria com Hélio Oiticica (1937-1980), Neville não ficou de fora do cinema por opção. Nos últimos anos, finalizou dois longas, “Hoje é Dia de Rock”, do dramaturgo José Vicente de Paula (1945-2007), e “Maksuara – Crepúsculo dos Deuses” sobre os índios Caiapós no Pará –reflexo de sua pesquisa para a instalação “TabAmazônica”.

Divulgação

Atriz Sonia Braga em cena do filme “A Dama da Lotação”, de Neville d’Almeida (1978)

Mesmo com o carimbo dos sucessos do passado, em uma época que o regime militar insistia em picotar suas histórias, não conseguiu apoio para lançá-los. A culpa, segundo ele, é dos “déspotas medíocres” do setor. “Eu fui o cineasta mais censurado da história. Hoje, a censura continua nos editais, nas comissões de seleções, nos patrocinadores e nos festivais de cinema. A lei de incentivo é um instrumento de tortura e morte do artista”, defende.

Apenas a plateia escapa de suas críticas. “Acho o público brasileiro muito sofisticado. O público favelado, do alto do morro, tem mais cultura cinematográfica do que o cidadão americano de classe média”.

Àqueles que reclamam que o cinema nacional é feito apenas de “putaria e palavrão”, ele responde: “Da mesma forma que a política brasileira só tem putaria, roubo e corrupção. O público fica meio perdido, porque existe o chamado politicamente correto. Filmes que não incomodam ninguém. O cinema não foi feito para essa palhaçada”, defende, aos risos.

Para acabar com essa fase no cinema, ele prepara um novo roteiro, baseado no próprio livro “A Dama da Internet”, lançado em 2011. Na história, uma mulher recém-casada descobre a infidelidade do marido e passa a buscar festas eróticas e parceiros desconhecidos na internet. Uma reedição de “A Dama da Lotação” para a era das redes sociais.

“Vou bater meu próprio recorde”, promete.

Fonte: Bol.com.br

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