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Santíssima trindade do jazz: os 90 anos de Miles Davis, John Coltrane e Ray Brown

Ray Brown, Miles Davis e John Coltrane fariam 90 anos em 2016. Fotos: Reprodução da internet
Ray Brown, Miles Davis e John Coltrane fariam 90 anos em 2016. Fotos: Reprodução da internet

Numa de suas fotos mais populares, o trompetista norte-americano Miles Davis exibe o indicador à frente da boca, designando silêncio. Mestre do som, valorizava a ausência dele, reverenciava as pausas entre notas musicais. “O silêncio é o ruído mais forte. Talvez o mais forte de todos os ruídos”, chegou a declarar o músico, cujo estilo é considerado puro, minimalista e claro, moldado por alta complexidade técnica. Por capricho do destino, veio ao mundo em maio de 1926, mesmo ano em que nasceriam, meses mais tarde, o saxofonista John Coltrane e o contrabaixista Ray Brown.

A confluência de datas e a dimensão de seus legados, afortunadamente contemporâneos, lhes permitiria o intercâmbio de aptidões e os manteria, ainda, definitivamente associados. Completariam, neste ano, nove décadas: marco que lhes rende homenagens por todo o mundo nos próximos meses, ecoadas essa semana no Recife, onde o RioMar Jazz Fest 2016 segue até o próximo sábado (30), Dia Mundial do Jazz.

Enraizado no blues concebido por negros escravizados em campos de algodão da América, o gênero caracterizado pelo improviso foi requintado pela santíssima trindade do jazz: pelas mãos habilidosas de Miles Davis e John Coltrane, por exemplo, soaram os primeiros acordes do cool jazz, free jazz e hard bop – este último, extensão do bebop dos anos 1940. As contribuições foram revolucionárias: Kind of blue, lançado por Davis no fim dos anos 1950, é considerado o primeiro álbum do jazz modal, enquanto In a silent way, produzido dez anos após aquele, é tido como precursor do jazz fusion. “Miles e Coltrane foram vanguardistas por natureza, precursores e desbravadores não somente do jazz, mas da música mundial”, opina o guitarrista pernambucano Rodrigo Morcego, que sucede hoje o músico George Israel na abertura do RioMar Jazz Fest.

John Coltrane é considerado o mais ousado da tríade. Foto: Reprodução da internet
John Coltrane é considerado o mais ousado da tríade. Foto: Reprodução da internet

Para o pesquisador e instrumentista Giovanni Papaleo, os 90 anos do nascimento de Davis, Coltrane e Brown sublinham a relevância da música tradicional – “aquela que independe de modismos” – e oportunizam a desmistificação do jazz como ritmo hermético, elitista. “Esses vultos personificam o jazz como música do improviso, da renovação. Nos anos 1930, o jazz tocava nas rádios, nas festas. Era um ritmo alegre, dançante. Hoje, muitos se apropriam dele como gênero machista, restrito a privilegiados, representado por homens cisudos vestidos com ternos escuros, com plateia de intelectuais”, explica Papaleo, que aponta a recente associação entre o jazz, o pop e a música folclórica como nova revolução. “O flerte com a world music [música regional] possibilita, por exemplo, que um sucesso de Luiz Gonzaga seja repaginado para o jazz. Isso aproxima as pessoas.”

Entre a corneta de Buddy Bolden – cujas vibrações pelas ruas de Nova Orleans no início do século 20 seriam apontadas, mais tarde, como gênere do ragtime do qual derivaria o jazz – e o processo de repopularização do ritmo – protagonizado, nos últimos anos, por nomes como Amy Winehouse, Michael Bublé e Lady Gaga, guiados por ícones em atividade como Tonny Benett e o agora ausente Billy Paul -, a tríade formada por Davis, Coltrane e Brown catalisou a maturação do ritmo. “Miles Davis foi um camaleão da música. John Coltrane e Ray Brown beberam dessa fonte. Coltrane foi o mais louco, mais ousado, explorando do rock ao erudito. É, por isso, o mais genial. Davis será sempre o mais importante”, explica Papaleo. Curador do Jazz Fest, escalou para o evento músicos também afeitos a valorizar o silêncio, dar protagonismo às pausas entre notas, como Mark Rapp e Kenny Brown.

>> PROGRAMAÇÃO: RioMar Jazz Fest

SHOWS
Terã-feira, 18h30
George Israel (RJ) e Rodrigo Morcego (PE)

Quarta-feira, 18h30
Nanny Soul (SP) e LAB 75 (PE)

Quinta-feira, 18h30
Mark Rapp (USA) e Dom Angelo (PE)

Sexta-feira, 18h30
Kenny Brown (USA) e Luciano Magno (BA)

Sábado, 18h30
Derico (SP/PE) e Mr Trio (PE)

OFICINAS
Quinta-feira, 15h30
Jazz com Mark Rapp e Angelo Mongiovi

Sexta, 15h30
Guitarra com Luciano Magno

Sábado, 15h30
Bateria com Hito Pereira

SERVIÇO
RioMar Jazz Fest
Quando: De hoje a sábado
Onde: Praça de Eventos 1 do Shopping RioMar (Av. República do Líbano, 251 – Pina)
Quanto: Entrada gratuita
Informações: 3878-0000

Miles Davis
Um dos ícones da música do século 20, Miles Davis (1926 – 1991) atuou entre a Segunda Guerra e a década de 1990, dando contribuições vanguardistas ao jazz. Participou das primeiras gravações de Bbop, nos anos 1940, e revolucionou o gênero com a criação do cool jazz, do jazz modal e do jazz fusion. Trompetista tradicional, foi influenciado por ícones como Louis Armstrong, Roy Eldridge e Dizzy Gillespie. Liderou grupos de jazz nos quais se revelaram nomes como John Coltrane, , Wayne Shorter, George Coleman, Kenny Garrett e Tony Williams. Davis faleceu em 1991, vítima de insuficiência respiratória decorrente de pneumonia e de um AVC. Seu álbum Kind of blue é considerado pela crítica especializada o mais influente disco de jazz da história.

John Coltrane
Do rock à música erudita, Jon William Coltrane (1926 – 1967), atuou entre os anos 1950 e 1960, construindo legado de experimentalismo e ousadia no campo do jazz. Entre 1955 e 1967, principal intervalo de atuação, lançou cerca de 50 gravações. Enquanto a mãe, viúva, trabalha como empregada doméstica para sustentar a família, Coltrane aprende a tocar clarinete e saxofone, dos quais lança mão, mais tarde, ao começar a se apresentar em bares da Filadélfia. Em 1955, é convidado por Miles Davis a participar do Miles Davis Quintet, ingressando definitivamente na cena do jazz e se tornando, anos mais tarde, o mais cultuado saxofonista do gênero. É conhecido por imprimir bagagem religiosa e mística à música. Morreu aos 40 anos, em decorrência de câncer no fígado.

Ray Brown
Raymond Matthews Brown (1926 – 2002) é considerado um dos principais contrabaixistas do jazz. Nascido na Pensilvânia, o instrumentista começou tocando piano e, mais tarde, adotou o baixo como instrumento, no qual foi autodidata. Durante quatro anos, foi casado com a cantora Ella Fitzgerald, com quem tiveram um filho – o pianista Ray Brown Jr. Ao lado da esposa, Brown compôs trio com quem se apresentava em concertos, influenciado pelo jazz de Dizzy Gillespie, Charlie Parker e Bud Powell. Entre 1951 e 1966, integrou o Oscar Peterson Trio, com o qual viajou o mundo, especialmente em concertos ao lado de Gene Harris. Em 2002, faleceu aos 75 anos, enquanto cochilava, durante turnê.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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