Tribuna SBTpedia: Os primeiros impactos do novo jornal, por Rafael Fialho

Por Rafael Fialho* (rafaelbfialho@gmail.com)

O despertador toca às 6h e só depois de desligá-lo é que me lembro o porquê de ter acordado tão cedo: assistir ao novo jornal do SBT, Primeiro Impacto, para tecer alguns comentários. A tarefa que tentei realizar ontem e o sono não deixou, me lembrou episódio semelhante, quando fiquei até a madrugada esperando a estreia da vinheta de 29 anos do canal. Coisa de SBTista ou de maluco?

 As apresentadoras na bancada. Reprodução.

A nova empreitada de Silvio Santos no jornalismo foi anunciada somente há alguns dias e entrou em produção num ritmo frenético – algo a que os profissionais já devem estar tão acostumados que nem se configura como um problema. E quer saber? De uns tempos pra cá, tenho ficado cada vez mais convencido de que isso acaba por chamar atenção ao lançamento involuntariamente. “SBT estreia jornal na próxima segunda” é uma manchete que dá a ver o estilo de gestão da empresa, baseado muitas vezes nas vontades repentinas de seu dono. Ao contrário, me espantaria ver uma notícia como “SBT faz estudos para projetar novo programa”. 


Após o susto inicial, foi divulgado que o novo produto era na verdade um formato da Univision, cujos vídeos no Youtube indicavam que estava por vir uma mistura de “Jornal das Pernas” com Aqui Agora. Violência, corpos estirados na rua, variedades e factual foram alguns dos temas que notei ao procurar mais informações sobre o jornal original. Contudo, acho que fui enganado: o que vi hoje soou morno demais para aquilo que prometia mostrar “as notícias que vão impactar o seu dia”, e a origem estrangeira parece ter ficado apenas no nome.


A começar pelo cenário – o mesmo de todos os telejornais da casa, composto pelas cores amarela e azul (lembrei do “Tempo de Ganhar”, do Ratinho) –, o jornal dá um passo atrás ao insistir na bancada, em tempos em que a tendência é justamente romper com padrões de apresentação e deixar o(s) âncora(s) mais à vontade em uma comunicação direta e informal. Joyce Ribeiro transparece uma nítida dependência do teleprompter, em uma atuação mais impessoal, diplomática e quase professoral ao ler as notícias, que, não raro, erra. Já Karyn Bravo mostra-se mais preparada e parece dominar o ambiente; sua locução tem o ritmo adequado para um hard news e ainda sobra espaço para pequenos comentários, o que torna sua postura mais descontraída que a da colega – rolou até um bate papo com Patricia Rocha sobre como o marido fica bravo quando o São Paulo perde.


A nível de comparação, fui dar uma zapeada e na Globo estava Monalisa Perrone brincando com Thiago Scheuer sobre como os dois estavam com roupas parecidas com um pinguim. Ok, a Globo tem pesado a mão na informalidade, mas se a apresentação não precisa ser engraçada, ela também não deve ser engessada. O ponto louvável é que, desta vez, as jornalistas do SBT não foram colocadas em figurinos com decotes e mini saias, como se vê tanto na matriz do Primer Impacto e na história da própria emissora. Vale ainda destacar a escolha por Joyce, uma das poucas, mas tão necessárias apresentadoras negras de telejornal. Tive a impressão de que o jornal é bem feminino: são as mulheres que comandam o roteiro e, quando Bruno Vicari aparece, são elas que o chamam. A propósito, Vicari já é quase o Chaves do jornalismo do SBT, pois marca presença em quase todos os dias e horários do canal.


Talvez o principal desafio do SBT seja conferir um diferencial ao seu novo programa, que ainda parece meio confuso. Leve demais para um factual e duro demais para uma revista eletrônica, ele se arrisca em um meio termo esquisito; na semana passada, trouxe uma matéria com dicas de artesanato enquanto os concorrentes apostavam no trânsito. A expectativa de uma oferta de notícias mais “soltas” e variadas é quebrada, porém, quando se vê as duas apresentadoras sentadas e presas à bancada. A pergunta que pode guiar essa construção de um perfil próprio é: por que alguém assistiria o Primeiro Impacto e não os jornais das outras emissoras?

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Dica de artesanato em jornal matinal. Reprodução


A interação com o público soma mais um ponto positivo, principalmente no envio de perguntas para a entrevista, que, a propósito, poderia ser estendida em mais de um bloco. Dada a extensa duração do jornal, é possível até mesmo trazer mais convidados para variar os temas. A participação de outras praças também aparece como boa saída para oxigenação e diversificação das pautas, como ocorreu hoje, com o link direto do Rio de Janeiro. Lembrete: é urgente a instalação de um sofá para acomodação dos visitantes, que ficam apertados ao dividir a bancada com Karyn e Joyce. Outro ajuste diz respeito à localização do relógio no estúdio, já que Joyce Ribeiro foi flagrada várias vezes virando a cabeça para poder ver as horas.


Por tudo isso, é impossível não se lembrar da última tentativa do SBT no segmento com o Notícias da Manhã. Neila Medeiros apresentava muito mais desenvoltura para o horário, e o jornal caminhava bem rumo à consolidação de uma identidade baseada em quadros variados e em repórteres-personagens, como João Fernandes em seus engraçados desafios. Injustiçada, a atração saiu do ar, mas deixou a lição de que sim, era preciso investir em notícia. Agora a emissora colhe os frutos da má decisão e corre contra o tempo para se restabelecer em um tipo de projeto que ela mesma revitalizou há algum tempo, quando o bloco apresentado por César Filho cresceu tanto que impulsionou a Globo a criar o Hora Um.


O jornal deve mudar nos próximos dias com a volta de Silvio Santos ao Brasil e a promessa de ajustes, em uma ação quase messiânica de salvamento do projeto. Na edição de hoje, no bloco de notícias “impactantes” anunciadas à exaustão estava um hotel em SP que prometia se transformar em Hogwarts, escola de bruxaria de Harry Potter. A matéria, uma das últimas a ir ao ar, revelou nada mais do que um empreendimento que oferece aulas sobre feitiços e magia. Para um jornal que se vende como portador de impactos, a proposta ainda não parece ter sido cumprida. Por ora, posso dizer: não me impactou.
 

*Jornalista, Rafael Fialho é doutorando em Comunicação Social pela UFMG e fez do SBT seu objeto de estudo: pesquisa o canal há tempo, tendo se dedicado a pesquisas sobre os SBTistas, Silvio Santos e sobre a interação da emissora com seu público a partir das vinhetas. Atualmente pesquisa a tematização da violência contra a mulher no programa Casos de Família. Escreve artigos de opinião às quartas-feiras no SBTpedia. Para conhecer seus trabalhos sobre o SBT, mandar críticas, sugestões ou trocar ideias, escreva para rafaelbfialho@gmail.com 

Fonte: SBTpedia (www.sbtpedia.com.br)

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