Uma semana que pode ser decisiva para Dilma manter o poder

Crédito: Lula Marques (LULA MARQUES)
Crédito: Lula Marques

 

Diante da impossibilidade de diálogo e de uma saída que reduza a tensão na sociedade brasileira, governo e oposição têm uma semana para chegar a um número. Precisam conseguir votos – entre os 513 deputados federais – para aprovar ou rejeitar o pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff (PT). São necessários 342 votos para tentar afastar a presidente do cargo e fazer o processo chegar ao Senado. Se esse resultado não for alcançado, a vitória é de Dilma. Em caso contrário, essa pode ser uma das últimas semanas da presidente no poder, o que tende a expor os piores lados de cada grupo político.

O papel do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tem um destaque à parte nos próximos dias. Apesar de ser réu na Lava-Jato e responder a processo no Conselho de Ética da Câmara, ele é o dono da bola. E Cunha fez questão de mostrar algumas estratégias de ataque, com a segurança de que ninguém é capaz de desmontá-las.  

Para conseguir o placar de 342 deputados favoráveis à cassação de Dilma, Cunha e aliados dividiram a estratégia em partes. A mais importante é estender a votação do impeachment, que começa na próxima sexta-feira, até o domingo, para garantir uma transmissão “estrondosa” na televisão. Outro passo é chamar três vezes o nome dos deputados que decidirem faltar, para tratá-los como “fujões”.

Ao invés de fazer como Ibsen Pinheiro no processo de impeachment de Fernando Collor, Cunha não fará chamada por ordem alfabética. Vai chamar os deputados do Norte e do Sul do país, seguindo com os nomes do Sudeste, Centro-Oeste e, por último, os do Nordeste, por serem mais favoráveis a Dilma. Para evitar faltas, ele ainda suspendeu todas as missões ao exterior entre os dias 15 e 25 de abril e atrasou a formação das comissões permanentes da Casa para usar a presidência de cada uma delas como moeda de troca.

Enquanto Cunha pressiona de um lado, a oposição faz ameaças de representar, no Conselho de Ética, parlamentares indecisos que estão envolvidos na Lava-Jato. O bloco também está expondo fotos de deputados indecisos em lugares de visibilidade nos seus redutos eleitorais. “Só não vai votar quem estiver morto”, disse Mendonça Filho (DEM).

O governo, por sua vez, tem um campo de atuação mais limitado neste momento, por estar fragilizado demais pelas denúncias da Lava-Jato. Dilma e aliados sustentam que os vazamentos são seletivos e omitem as denúncias contra lideranças da oposição, dando à população uma visão distorcida da realidade. O argumento tem convencido a militância petista, que reage, dando demonstrações de que vai se manter no campo de batalha, não por acreditar na inocência do governo, mas em defesa de um projeto político. A tese de que os vazamentos são seletivos atinge alguns indecisos, que não veem a possibilidade real de mudança no jogo, mas apenas uma versão de “mais do mesmo”. 

Nesse ponto, há pessoas na sociedade descontentes com a decadência da política e temerosas com uma solução arbitrária que seja tomada por quem tem telhado de vidro. O receio aumenta porque o vice-presidente, Michel Temer, também é citado na Lava-Jato e teria feito as chamadas pedaladas fiscais, motivo pelo qual Dilma pode ser cassada.

Entre as saídas alternativas, o governo admite recorrer ao Supremo Tribunal Federal para anular a comissão do impeachment nesta semana, com a alegação de que ela tem vícios, como ter sido aberta por “vingança” de Cunha. Segundo a deputada federal Luciana Santos (PCdoB), o clima pró-impeachment mudou. “Tenho a sensação que as manifestações deixaram de ser manifestações da militância e dos partidos da base. Passaram a ser manifestação de juristas, intelectuais, artistas, até de pessoas que não concordam com Dilma, mas não concordam com o desfecho”, explicou.

A outra arma governista é a liberação de emendas de parlamentares e favorecimento daqueles que votarem contra o impeachment, com a nomeação de cargos. É o conhecido toma-lá-dá-cá que parece não ter fim, considerando que os aliados de Temer dizem que é melhor apostar no certo do que no duvidoso. Ou seja, sustentam que é melhor todo mundo esperar e assumir cargos num ambiente onde o vice for o presidente.

Correndo por fora das promessas de cargos, a ex-senadora Mariana Silva e porta-voz da Rede Sustentabilidade aposta que o Tribunal Superior Eleitoral vai cassar a chapa Dilma/Temer por abuso de poder econômico e dar chance à população de recomeçar. A hipótese não chega perto da unanimidade, mas já há lideranças que concordam com a realização de novas eleições, como o deputado federal Tadeu Alencar (PSB). “O Brasil chegou numa crise de legitimidade tão profunda que só novas eleições poderiam prestar a autoridade presidencial a quem quer que seja. Novas eleições seriam um remédio muito vigoroso para a purificação desse processo”, opinou.

Os dois lados da moeda

Em entrevista por telefone ao Diario de Pernambuco, o deputado federal Tadeu Alencar disse ter construído, depois de refletir bastante, uma posição favorável ao impeachment. Já a deputada federal Luciana Santos, presidente nacional do PCdoB, chama a iniciativa de golpe. Veja os principais tópicos.

Diario – Deputado Tadeu Alencar, como o senhor avalia este momento?

Taedu Alencar. Crédito:  AssessoriaTadeuAlencar/Divulgacao  (AssessoriaTadeuAlencar/Divulgação)
Taedu Alencar. Crédito: AssessoriaTadeuAlencar/Divulgacao

Depois da eleição, esse é o segundo maior momento de culminância democrática, num processo de intensidade igual ao de eleger alguém, porque você só tira alguém do poder quando há motivos constitucionais fortes e recomendáveis. Sempre tivemos a clareza que tínhamos que fazer um debate reflexivo e sereno, mas também afirmativo e, num dado momento, a gente ia se posicionar. O partido se reuniu na última quinta-feira (7) e se posicionou. Por maioria, decidimos apoiar o processo de impeachment por entender que estão presentes as causas políticas em abundância e a jurídica, que é mais controvertida. Isoladamente (a  causa jurídica) não preencheria a gravidade para o afastamento da presidente, mas a questão é muito mais densa e profunda. Ela perdeu a condição de continuar na governança do país, por um conjunto de elementos de natureza política de tal intensidade que, até os motivos de natureza jurídica, veem-se adensados.
É claro que, se tivéssemos julgando as contas da presidente, poderíamos dar (apenas) inelegibilidade. Mas, na hora que você junta esses motivos graves… de ferir a lei de responsabilidade, ferir a autonomia do Congresso… e associa às causas políticas, à falta de liderança, de credibilidade, aos escândalos de corrupção, às questões que sequer estão nesta denúncia… Essa é uma posição que temos e que construímos, não é só a posição do partido. Não é momento de nenhuma celebração, de nenhuma comemoração. Eu vi gente aqui no dia da apresentação do relatório (a favor do impeachment) comemorando, como se fosse uma final de copa do mundo. Mas o nosso partido e eu temos uma preocupação muito grande com esse momento.

Deputada Luciana Santos, como vocês, da base governista, estão vendo esse momento político?

Credito: Richard Silva/Divulgaçao. (Credito: Richard Silva/Divulgacao.)
Credito: Richard Silva/Divulgaçao.

Muitas pessoas estão percebendo que esses movimentos que estão nas ruas pelo impeachment são financiados pelos setores econômicos fortes. O que me chama a atenção, do dia 31 de março para cá, é o seguinte. Eu tenho a sensação que as manifestações contra o impeachment deixaram de ser manifestações da militância e dos partidos da base, passaram a ser manifestação de juristas, de intelectuais, de artistas, de pessoas que não concordam com Dilma, mas não concordam com o desfecho. Você vê uma legião de pessoas que estãp descoladas do governo, mas acreditam que, desse jeito que está sendo conduzido o processo, é um golpe, seja pelos exageros do juiz Sérgio Moro, seja por outro conjunto de fatores… Vai ficando mais claro para a opinião pública que são coisas muito direcionadas, delações seletivas… Os artistas, por exemplo, estão se posicionando contra o impeachment, um exemplo foi o show de Gil e Caetano, em Salvador. Estão pipocando muitas iniciativas contra o golpe e vai se criando esse movimento para além dos partidos. Quando o PMDB desembarca do governo num ato daquele, precipitado, muitas pessoas têm a leitura do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, que olha assim e diz: ‘é isso ai que vai ficar no lugar’? Criou-se, então, uma situação paradoxal. As pessoas motivadas para tirar Dilma veem um vice-presidente investigado, e um presidente da Câmara que é réu. Então, as pessoas olham e dizem: são esses vão comandar o país no lugar de uma presidente que não há, contra ela, nenhum crime de corrupção? Qual é a maior arma? A seriedade de Dilma e o legado de conquistas desse círculo político iniciado lá trá,s desde a vitória de Lula.
 
Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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