À espreita, um amor caçador

Pessoas com a síndrome desenvolvem a ideia fixa pelo alvo e podem se tornar persguidores, se não se tratarem. Foto: Peu Ricardo/Especial/DP (Peu Ricardo/Especial/DP)
Pessoas com a síndrome desenvolvem a ideia fixa pelo alvo e podem se tornar persguidores, se não se tratarem. Foto: Peu Ricardo/Especial/DP

“A experiência faz ver que aqueles que são mais agitados por suas paixões não são aqueles que as conhecem melhor”. A frase, do filósofo e pai do racionalismo moderno, René Descartes, reflete os conflitos amorosos da alma que, se não tratados, podem levar uma pessoa a cometer excessos. E um deles chama-se síndrome da erotomania, ou delírio de amor, formulada pelo psiquiatra francês Gaetan Gatian de Clérambault (1872-1934). A doença psicológica, segundo a médica com mestrado em neuropsiquiatria e ciências do comportamento, Kátia Petribú, pode ser uma das causas que levou um fã a tentar matar a apresentadora de televisão e modelo Ana Hickmann no último dia 21. Trata-se de um amor que o doente desenvolve por alguém em posição de superioridade.

O distúrbio retrata um quadro clínico onde uma pessoa cria um amor imaginário por alguém, com status superior ao seu, e acredita ser correspondido. É um delírio psicótico onde a ideia de amor foge da realidade, não atingindo apenas os fãs de estrelas. Em casos mais graves, pode levar ao suicídio ou assassinato, se for ignorado. Kátia Petribú também tem residência médica em psiquiatria no Hospital das Clínicas da UFPE, título de especialista em psiquiatria pela Associação Médica Brasileira e doutorado em medicina pela Universidade da Bahia.

Segundo Kátia, como é mais difícil o enfermo perceber os sinais do delírio, as pessoas que são alvos e os parentes não podem ignorar as ameaças. Ela lembra que o homem que tentou matar Ana Hickmann, Rodrigo Augusto de Pádua, deu vários sinais. Especialmente porque o único vínculo com a realidade que ele mantinha era ir à academia. “Ele vivia recluso, não se relacionava com ninguém. A única atividade que tinha era a ginástica. Ele desenvolveu um amor patológico, idealizado e não correspondido. Construiu toda uma fantasia que foi ignorada pelos que trabalhavam com Ana Hickmann e pela família dele. Foi uma tragédia anunciada”, pontuou Kátia Petribú.

 “É preciso observar quando um comportamento incomum dura muito tempo, parece estranho e inadequado. Temos que valorizar comportamentos de risco. Geralmente eles são crônicos”, acrescenta. Kátia Petribú diz que a violência pode surgir quando o sujeito finalmente enxerga que não está sendo valorizado como imaginava, podendo levar ao suicídio ou à morte do objeto desejado. Ela destaca, contudo, não haver um padrão nas causas que provocam esse distúrbio. “Existem múltiplas causas fatoriais, orgânicas, de neurotransmissores… Não sabemos exatamente as causas. Não é como o vírus da zika que pode causar a microcefalia”, observa.

Autora da tese Erotomania: amor e sexuação, a psicóloga mineira Ana Paula Sartori Lorenzi frisa não ser tão fácil observar os sinais do doente como antes, quando as relações ocorriam à luz do dia. Ela explica, por exemplo, que os relacionamentos acontecem muitas vezes pelas redes sociais e os sentimentos são escamoteados no ciberespaço. Mas ela ressalta que um dos sintomas do delírio é a ideia fixa.

“O sinal mais comum é a ideia fixa naquele suposto amor. Geralmente, o erotomaníaco vive para aquela paixão, qualquer sinal vira um signo do amor da pessoa por ele. O erotômano interpreta a realidade pelo prisma do seu delírio: ele ou ela me ama. A erotomania é uma forma de delírio paranoico”, diz ela, que ainda tem mestrado em pesquisa clínica em psicanálise na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e doutorado em teoria psicanalítica pela UFRJ.

Segundo Ana Paula Sartori, o fundador da psiquiatria moderna, Philippe Pinel (1745-1826), acreditava que a predominância do distúrbio era em mulheres, enquanto o médico do hospital Salpêtriere e do hospital Chareton na França, Jean Étienne Esquirol, ressaltava a tendência de o delírio atingir com mais frequência os mais jovens, por estarem mais à mercê de “fantasias ardentes”.

Ana Paula observa que o alvo da síndrome erotomaníaca é sempre alguém em posição de superioridade, capaz de dar um significado a mais à vida do doente, que também pode ter um quadro de melancolia. O objeto de admiração inalcançável, nesse caso, pode ser um professor, cantor, ator, liderança política, um médico famoso, o próprio chefe – “nunca alguém em situação de igualdade”.

A tese de Ana Paula revela que Philippe Pinel tratou o distúrbio em alguns momentos como inofensivo, assemelhando-se ao amor platônico, à “mania de amor”. Mas, a depender das características de quem o possui, pode detonar um gatilho perigoso. A doença pode provocar violências ou causar demência, por desconexão da realidade, com o passar do tempo e o envelhecimento.

“Por vezes, é possível perceber que a pessoa está com alguma ilusão amorosa, por exemplo, quando diz que um político está apaixonado por ela, sendo que, na realidade, ela não tem nenhum contato com aquela pessoa (…) Os sujeitos não são iguais. Pode ser que uma pessoa consiga esconder essa ideia delirante, mas, geralmente, um outro aspecto escapa aos mais próximos”, declara a psicóloga, para depois acrescentar. “O distúrbio atinge o sujeito que está numa posição feminina, porque esta posição implica, sobretudo, em querer mais ser amada do que em amar”. “Essa é a erotomania ou delírio de ser amado”, completa.

 

Tire suas dúvidas

O que é distúrbio erotomaníaco, ou delírio de ser amado?
Trata-se de um delírio psicótico no qual a pessoa imagina ser amada por outra uma pessoa, mesmo sem ter relação com ela. Até um olhar despretensioso desperta a imaginação do enfermo e interpretações. O objeto de paixão do delirante é sempre alguém de status superior, seja financeiro ou intelectual. O alvo pode ser um professor, padre, cantor, ator, liderança política, entre outros. O delírio tanto pode atingir jovens, como pessoas mais velhas. Porém, nestas últimas, pode causar demências.

E o que sentem os envolvidos?

O delírio tem base imaginária e passa por uma fase positiva e duas negativas. A primeira é a esperança de estar sendo amado, ele não consegue pensar em mais nada. Depois, vem os estágios do despeito e do ódio, onde o doente  fica dividido entre a conciliação e o desejo de vingança. Se o enfermo continua sendo ignorado, começa a ameaçar o “objeto amado” e as pessoas que estão ao redor, já que não pode tê-lo. O alvo começa a se sentir perseguido, enfrenta o medo e sofre de sentimentos de culpa. Toda família pode ser afetada.

Qual o principal erro?
O pior erro é negar o que existe. Se a família perceber, ela pode buscar ajuda com um profissional de saúde mental, porque ninguém sabe se pode ficar numa paixão platônica ou evoluir. Em casos mais graves, pode internar o indivíduo, considerando que ele representa um risco de morte para si ou para outra pessoa. O internamento pode ser involuntário (mesmo sem que a pessoa não queira) e pode acontecer em hospital público ou privado. Se o internamento for involuntário, o hospital precisa comunicar ao Ministério Público.

Por que só aparece em alguns?

Os homens com erotomania tendem a ser mais violentos. Mas a síndrome, no geral, desencadeia-se diante das frustrações no amor e na vida sexual e pode estar associada a outras doenças como esquizofrenia e melancolia. A tentativa de ser curado pelo amor também é um mecanismo de defesa que o enfermo encontra para sobreviver. Ao falhar, ele persegue o objeto pelo qual se sente perseguido e pode ir às últimas consequências.

Fonte: Kátia Petribú e Ana Paula Sartori Lorenzi

 

 

 


Fonte: Diário de Pernambuco

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