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Ancelotti: "Zidane fez minha ideia sobre futebol mudar"

Técnico ganhador da La Décima nega que falte experiência ao francês para comandar o Real na final da Champions League



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Carlo Ancelotti conhece a Champions League como poucos. Bicampeão consecutivo como jogador pelo Milan em 1989 e 1990, repetiu a glória pelo Rossonero como técnico em 2003 e 2007. Sete anos depois, ele levou o Real Madrid à cobiçada La Décima com uma vitória sobre o Atlético de Madrid na final. Em bate papo com a Goal, ele projeta o novo duelo entre os rivais no próximo sábado e é só elogios a Zinedine Zidane, atual treinador merengue e seu velho conhecido.

Qual é a melhor estratégia que um líder deve seguir?

Meu estilo de liderança reflete minha atitude, por isso me expresso de forma tranquila, como sou na realidade. Não posso ser um líder duro, pois não estou acostumado a ser assim. Quando me dirijo aos meus jogadores, lembro que antes de estar falando com jogadores estou falando com pessoas. Ser jogador é seu trabalho, o meu é comandá-lo. Mas somos pessoas antes de tudo.

Como foi exercer esta liderança em clubes como Chelsea, Real, PSG, Milan…

Sempre tive a sorte de trabalhar em clubes muito bem organizados. Talvez no PSG tenha sido mais complicado, porque o clube estava iniciando o seu projeto, mas no Real Madrid tive uma estrutura fabulosa. Nenhum treinador pode nem deve construir tudo quando chega a um clube. Estas estruturas fortes já existiam e pude me dedicar a construir as relações com os atletas. O que acontecia fora do campo de treinamento era organizado, e minha responsabilidade era fortalecer estas relações. Não é tão difícil, ainda que o jogador às vezes pareça egocêntrico em público. Dentro do vestiário são iguais. Riem e brincam juntos. Muitos me ajudaram a desenvolver meus métodos.

Você ganhou duas Champions League como jogador e três como técnico. Seria mais difícil lidar com os jogadores se não tivesse conquistado tudo isso?

Minha carreira como jogador me deu credibilidade diante deles, certamente, mas apenas no início. Você tem que ir transmitindo que deseja que eles sejam melhores que você. Quando eles entendem isso, o que você ganhou ou não ganhou deixa de ser importante.

O que você aprendeu com seus jogadores?

Muitas coisas. Quando a relação flui é muito mais fácil falar das coisas, e isso se aplica também ao futebol. O jogador não costuma falar de futebol, mas costuma ouvir o que o técnico diz porque muitos treinadores não se incomodam em perguntar. Tive técnicos que me falavam para fazer as coisas e ponto. No meu caso, tento argumentar os motivos de minha decisões, o motivo de colocá-los numa posição determinada. Lembro que no Milan expliquei minhas ideias a Andrea Pirlo e ele me respondeu que faria o que eu pedisse. Estava seguro com ele.

Pirlo virou meio-campista porque você pediu?

Acho que mais porque ele quis assim. Estava convencido de que poderia jogar ali e disse a ele. É um bom exemplo da importância de ter esta boa relação. Posso ter uma ideia concreta do futebol que quero, mas não posso chegar e jogar. Tenho que explicar minha estratégia a meus jogadores e eles deverão executá-la. Não se trata de ganhar, mas de visualizar uma ideia, transmitir e conseguir que os jogadores a executem com sucesso. É minha tarefa saber se o jogador está cômodo e convencido de fazer o que deve. 

(Fotos: Getty Images)

Como era comandar Zinedine Zidane?

Existem jogadores que têm talento fantástico e outros que têm conhecimentos táticos muito sólidos. O caso de Zidane era o primeiro. Quando cheguei à Juventus e o vi pela primeira vez, entendi que deveria mudar o 4-4-2 que queria jogar inicialmente porque teria que escolher entre escalá-lo do lado esquerdo ou direito. Não poderia colocá-lo numa posição na qual não brilharia, e por causa dele mudei minha ideia de futebol, para que ele pudesse explorar ao máximo suas condições no centro e demonstrar que era o melhor. Foi uma lição valiosa. Para exercer meu ofício do melhor modo possível, tenho que conhecer meus jogadores ao máximo e propor um sistema em que se sintam cômodos. 

Cristiano Ronaldo parece estar mais contente com Zidane do que com Rafa Benítez…

Como eu disse, cada treinador tem sua ideia de futebol, e ela pode ser melhor para um e pior para outro. Certamente há jogadores que estavam melhores com Benítez no Real, e outros estão melhores agora com Zidane. Os jovens, por exemplo, jogavam menos com Benítez. 

Mas ele que introduziu Casemiro no lugar de James…

Exato, porque o mais importante sempre é o equilíbrio da equipe.


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Quando Benítez saiu se esperava uma temporada ruim do Real. Hoje ele está na final da Champions League. Dá para explicar?

Houve sorte, não há muita lógica. No início alguns jogadores não se sentiram cômodos com Benítez e mudou-se o sistema, pondo os mais experientes. Mas Zidane conhece muito bem seus jogadores. Teve experiência como atleta, depois se preparou na França e em seguida como assistente. Ninguém começa já com experiência. Eu mesmo não tinha, mas pouco a pouco fui construindo. E o futebol vai mudando. Há alguns anos as semifinais da Champions tinham três times italianos e o Real Madrid, que era o que mais gastava. Hoje só a Juventus consegue aspirar a isso. 


Fonte: Goal.com

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