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Artigo: Estória de Tigres e Tiranos por Fernando Moura Peixoto

[Nota do autor: baseado em fábula oriental, este texto foi escrito em 1977, na penúltima fase da ditadura militar que se aboletou no poder em abril de 1964 no Brasil. O poeminha, dedicado a Millôr Fernandes (1923 – 2012),continua atualíssimo.]

 

“Um ditador não passa de uma ficção. Seu poder na verdade se dissemina entre numerosos subditadores anônimos e irresponsáveis cuja tirania e corrupção não tardam a se tornar insuportáveis.”

GUSTAVE LE BON (1841 – 1931), ‘Ontem e Amanhã’.

 

Perambulava Confúcio um dia,

em região inóspita e bravia,

quando encontrou uma pobre velha chorando.

 

“Que houve, por que chora?”, foi logo perguntando.

“Senhor, nem queira saber meu destino desgraçado”.

“Um tigre feroz que habita essas plagas

devorou meu pai, meu marido,

e agora, meu filho amado”.

 

“Então, por que daqui não vai embora?

Mude-se para a cidade”, atalhou o filósofo.

E a velha, soluçante, respondeu:

“Isso nunca, nobre senhor!

Aqui existem tigres, mas não há tiranos”.

 

Donde concluímos, caro leitor:

deve-se preferir um tigre feroz a um tirano.

Mas, aprofundando o raciocínio,

chegamos a outra conclusão:

nos lugares onde não existem tigres,

fica-se mesmo é com o tirano.

 

 

Texto e imagem: Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

 

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