Artigo: O bom amigo Narbal por Fernando Moura Peixoto

[Nota do autor: fielmente baseado em depoimento de Zurica Galvão Peixoto (1914 – 2005), alagoana de Penedo, este texto recebeu ‘Prêmio de Edição’ em concurso promovido pela Litteris Editora, integrando a antologia ‘Best-Seller, O Melhor da Literatura’, editada em 1996.

A foto no Posto Seis, na Praia de Copacabana, foi tirada em 1939 e pertence ao meu arquivo FMP.]

 

“A saudade é a memória do coração.” COELHO NETO (1864 – 1934)

 

Final dos anos 1980. Com grande pesar, minha tia, já septuagenária, recebeu a triste notícia do desaparecimento de seu estimado amigo Narbal, bancário aposentado, vítima da violência urbana. Mais um crime bárbaro e inexplicável, como tantos outros que impunemente ocorrem neste inseguro e perigoso Rio de Janeiro de hoje.

 

Alguém leu no jornal o relato sobre o fúnebre acontecimento e o transmitiu pelo telefone, causando-lhe verdadeiro choque. Naquele mesmo instante rememorou as décadas passadas da antiga amizade.

 

Era um relacionamento de longa data, lá por volta de 1938/1939. Ela morava na Rua Bulhões de Carvalho, na casa nº 17, e ele, ao lado, na de número 19. Conheceram-se na vizinhança, daí surgindo a amistosidade entre as duas famílias. E uma assídua e fraternal convivência.

 

Desfrutaram alegres dias de mocidade em flor… Brincadeiras nas praias de Copacabana e do Arpoador… Nadando, pulando, correndo feito crianças, jogando peteca ou ‘medicine-ball’.

 

Carinhosas evocações de uma época boa. Vida mais tranquila, uma amizade pura, sadia e sincera. As pequenas aventuras, as idas muitas vezes clandestinas ao Cassino Atlântico, no Posto Seis, onde entravam como ‘penetras’ para assistir aos espetáculos musicais e bailar na pista do salão. Era engraçado quando ele, preocupado, dizia: “Só sei dançar samba e foxtrote, o que farei se a orquestra tocar um tango argentino?”. E ela, sorridente, respondia: “Dá-se um jeito, eu guiarei e ninguém notará”.

 

Belos tempos fagueiros que não retornarão jamais…

 

A irmã de meu pai se recorda do físico esguio e louro de Narbal. Simpático, gentil, descendente de alemães de Santa Catarina. Culto, fino, educado e respeitoso. Um rapaz exemplar.

 

Depois, o cotidiano implacável e cheio de surpresas os distanciou. Perderam entes queridos em ambos os lares e se mudaram para locais diferentes em Copacabana. No entanto, conservaram sempre aquela velha afeição, embora raramente se encontrassem. Vez por outra mantinham contato telefônico. Quando das viagens dele ao exterior, nunca se esqueceu de lhe trazer uma lembrança, um ‘recuerdo’ dos lugares em que andara.

 

Agora que Narbal Lehmkul partiu para não mais voltar, todas essas reminiscências vêm ao pensamento. Na última oportunidade em que ouviu sua voz ao telefone, ele comunicava estar morando num belo apartamento em Jacarepaguá. Prazerosamente queria mostrar-lhe a nova residência. Sucederam-se alguns meses, não tendo a chance de ir até lá. E não soube de posteriores notícias suas.

 

Lamentavelmente, naquele dia foi um terrível golpe inteirar-se que havia perdido o bom amigo de tantos anos. Uma tristeza avassaladora oprimiu seu coraçãozinho idoso e cansado. Sentida lágrima desceu-lhe pela face, transparecendo a dor sofrida e uma saudade que perdurará eternamente.

 

“Descanse em paz, amigo Narbal. Que Deus o acolha de braços abertos em Sua Mansão Celestial.”

 

 

Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

 

 

 

 

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